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Você é "HOPLOHÓLICO"?

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Seja corajoso e admita: O seu interesse por Armas de fogo transformou sua vida em algo ingovernável? Você já fez "empréstimos" no dinheiro destinado às compras do supermercado ou protelou o conserto de seu carro para poder adquirir aquela arma sem a qual você não conseguiria mais viver? Já tentou convencer sua mãe, esposa ou noiva que a arma nova com a qual você está entrando em casa lhe pertence há muitos anos e já está devidamente paga? Já pensou em vender móveis, equipamento de som ou mesmo os brinquedos das crianças para comprar acessórios para sua arma de competição? A maioria de seus amigos cheira solvente para armas, tem marcas de pólvora nas mãos ou sofre de problemas de audição? E quando esses amigos se reúnem, a conversa somente gira em torno de tiro, tiro, tiro e não sobre mulheres, futebol, política e carros?

Complicado, não? Então, tome fôlego e continue examinando sua consciência.

Você já teve que reagendar eventos sociais, tais como reuniões de família, seu casamento ou o velório da sua querida tia só porque a data coincide com alguma prova de IPSC ou um treino importante de Silhuetas Metálicas? Você tem um quarto especial em sua casa para guardar com segurança as suas armas enquanto seus filhos dormem numa barraca montada no quintal?

Se você pôde responder "sim" para uma ou mais dessas situações relatadas acima, existe uma boa chance de você ser um HOPLOHÓLICO. Hoplohocolismo (do latim hoplon - arma) é uma doença ou vício muito comum em nosso meio, apesar de ser bem dissimulada e praticamente imperceptível para os leigos ou para aqueles que não tem contato constante com os contaminados. Perceba que tenho a clara intenção de qualificar o hoplohocolismo como doença para que isso possa gerar simpatia por parte de outras pessoas ou até mesmo influenciar organizações governamentais e/ou particulares a destinar verbas e atenções para com as vitimas. Assim, sendo o hoplohocolismo classificado como uma doença ou vício, pode-se até esperar a criação de algo do tipo "Pastoral dos desarmados", "IPMF - Imposto Provisório para a Munição Fubá", "Grupo Reage Tiro" ou "Movimento dos sem-armas", para citar alguns.

Mas veja que chamar os hoplohólicos simplesmente de birutas ou "dependentes" por armas é algo totalmente cruel, insensível e politicamente incorreto, pois esses doentes não são bestas estúpidas e violentas, como muitos pensam. Os hoplohólicos são encontrados nos melhores e principais níveis de nossa sociedade, excetuando-se os níveis em que se acham alguns políticos e outros ruminantes. A cultura, conhecimento geral e educação de um hoplohólico padrão são quase sempre superiores às encontradas nas pessoas sãs, devendo-se destacar que um hoplohólico armado jamais será violento, a não ser que seja atacado. Os estudiosos identificam três tipos básicos de hoplohólico:

o tipo "abelha operária" - é aquele hoplohólico que declara a todos o seu amor pelo Tiro esportivo e briga apaixonadamente pela liberação de armas & munições, despendendo grandes esforços e tempo pessoal em reuniões de federação e no preparo de provas de tiro. São os que mais defendem o direito da posse das armas e aqueles que mais apanham dos grupos "anti-armas";

o "enrustido" - viciado geralmente tímido e discreto que consegue esconder bem de seus vizinhos, chefes e amigos que sua residência abriga um verdadeiro arsenal e que aquele volume embaixo da camisa não é uma Desert Eagle .44 Magnum. Não dá bola para as campanhas de desarmamento e procuram ampliar seu arsenal sem levantar suspeitas;

o "rambinho" - iniciante no vício que escancara abertamente sua condição de contaminado, exibindo-se sempre fardado com roupas do Vietnam, vestindo camisetas com dizeres agressivos, calçando botas militares e mostrando a todos sua faca de mil funções. São os doentes mais espalhafatosos, causando espanto pela semelhança com os famosos soldados mercenários, embora a maioria nunca tenha pisado num lugar mais arborizado que um jardim.

Em geral, os hoplohólicos são virtualmente indistingüíveis das pessoas normais e dos assim chamados "atiradores light", embora estes também possam ser doentes latentes ou em início de contaminação. O principio do vício é muito conhecido: começa com uma pequena "arminha" comprada somente para defesa pessoal. Em seguida, você começa a freqüentar um clube de tiro para se aperfeiçoar nas técnicas da autodefesa e entra inevitavelmente em contato com outros "dependentes". Logo a vítima passa a comprar revistas especializadas, colecionar bonés e adesivos com marcas de armas e/ou munições, passando a demonstrar declínio no interesse por outros esportes, "hobbies" e atividades mais civilizadas. A doença evolui quando você assiste a uma prova de tiro e toma consciência de que sua vida pode ser mais feliz se preparar ou adquirir uma arma específica para participar daquela competição. "É só para aliviar o stress", dirá você para si e para os preocupados membros de sua família, não se atendo a que já são percebidas sutis alterações em seu comportamento. Com sorte, você irá freqüentar pouco o clube de tiro (onde encontram-se muitas "pecinhas" e barganhas), evitando-se assim a compulsão por comprar mais duas ou três armas "imperdíveis". No entanto, o freqüente contato com outros atiradores contaminados irá praticamente direcionar o seu destino, forçando-o a procurar obsessivamente por malas de tiro, abafadores, óculos de tiro, luvas especiais e, obviamente, roupas exóticas que indiquem ser você um autêntico ATIRADOR (Wow!!!). Isso sem falarmos dos equipamentos de Recarga de munições e a imensa quantidade de peças e acessórios "absolutamente necessários" para deixar sua arma realmente em ponto de bala. Neste estágio do desenvolvimento da doença, já imaginaram o drama para a família e para o gerente do banco do hoplohólico?

O hoplohólico passa então a freqüentar com crescente constância os subterrâneos dos clubes de tiro, as aliciantes lojas especializadas, as perigosas reuniões de federação e alguns suspeitíssimos armeiros. Todos próximos ao contaminado percebem que os seus atos pessoais, planos e compromissos sociais passam a ser marcados somente após a consulta do calendário de provas e treinos da federação. As constantes desculpas de que o tiro é um esporte ou hobby como outro qualquer e que você pode parar com tudo isso a hora que quiser são tristes desculpas já utilizadas em outras formas de vício. Em pouco tempo você passa a ampliar sua artilharia, compra mais uma ou duas máquinas para recarga de munições e adquire também algumas barricas de pólvora que estavam em liquidação. Você pode não perceber, mas começa a ter um comportamento angustiado, violento e apreensivo quando chove no fim de semana ou sua mulher programa e insiste que você vá e um aniversário ou batizado.

Em breve sua casa passa a assemelhar-se a uma filial da CBC, um Forte Apache ou depósito do arsenal das Forças Armadas, com espaços tidos como intransponíveis para qualquer estranho, mesmo que seja a faxineira que já está na família a mais de 10 anos. Suas crianças (se você teve tempo de tê-las antes da contaminação) passarão a critica-lo por dar nomes estranhos aos seus animais domésticos, tais como Samuel Colt, Small primer, Magnum, Snubby, Bang bang, etc. Nos estágios mais avançados da doença, o hoplohólico solicita um registro de Colecionador de armas ou um registro de Atirador, passando a ter acesso a "drogas" mais pesadas, aquelas que requerem firme controle por parte do Exército, pelo potencial de danos e efeitos colaterais que podem causar. O ponto mais agudo do hoplohocolismo é alcançado quando o viciado chega no quarto de sua mulher numa determinada noite de sexta-feira, armado com um .44 Magnum, com cara de "Bad boy" e vestido como Dirty Harry somente da cintura para cima, dizendo romanticamente para ela: make my day, baby.... Neste estágio crítico, somente o amor de seus próximos impedirá seu total desmoronamento frente a uma munição de IPSC que não passou pelo teste de fator ou uma internação num asilo militar para veteranos de guerra após uma série de 39x40 nas Silhuetas Metálicas.

Com sorte, você poderá contar com pessoas amigas e caridosas que lhe farão ver o valor de se passar o domingo em frente a uma televisão, a pureza de disputar uma partida de dominó com sua avó, a alegria de lavar o carro na chuva, as virtudes de se jogar uma "pelada" junto aos Gaviões da Fiel, o prazer simples de se beber cerveja quente, comer sardinha frita com pão e jogar conversa fora num boteco de esquina e, êxtase supremo, as benesses de ser um elemento totalmente NORMAL dentro de uma sociedade pacífica, honesta e justa.

O começo da desintoxicação é duro, mas começando cedo e contando com o apoio de seus entes queridos, você poderá descobrir-se novamente, achar que a vida é bela e retomar a uma conduta normal e produtiva. Mas, o mais importante é iniciar o longo caminho de volta desfazendo-se de todas as suas armas! Quer dizer... quase todas...

Texto baseado em idéia apresentada na Blue Press (Dillon) de 05/1996