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TAURUS ‘RAGING BULL’ .454 CASULL

por José Joaquim D'Andrea Mathias

 

“Uma feliz combinação de munição poderosa com revólver maciço de ação dupla”.

 

“Qual é a arma curta mais poderosa do mundo?” “Qual é a munição mais forte que existe?” Estas são duas das perguntas mais freqüentes feitas em consultas via Internet ou mesmo em rodas de conversa nos clubes de Tiro. Todos nós temos interesse por saber limites, recordes e qual é o “mais mais” do momento. O carro mais rápido do mundo, a maior montanha, o animal mais forte, são algumas das marcas que deliciam o imaginário popular e servem para que possamos dar algum parâmetro para a nossa própria dimensão. Assim se dá também no campo das Armas & Munições, sendo que o título de “calibre mais poderoso” tem mudado de mãos periodicamente desde o início do século passado.

O célebre articulista John Taffin certa vez iniciou um dos seus artigos comentando essa preocupação por saber qual calibre é o mais poderoso do momento. Taffin fez notar que toda a vez que os fabricantes de armas norte-americanos lançavam um produto com um novo calibre de alta potência, dando-lhe o título de “mais poderoso”, sempre existia alguma munição mais potente ainda sendo desenvolvida nos meandros da enorme confraria dos Armeiros e Atiradores.

 

Parece-nos que a febre pelo calibre “mais poderoso do mundo” se inicia com uma campanha publicitária desenvolvida para promover o lançamento da munição .357 Magnum, em 1935. A peça publicitária da época destacava a capacidade do .357 Magnum poder deslocar um projétil de 158 grains a mais de 1.400 pés por segundo, merecendo receber o título de “munição mais poderosa do mundo”, pelo fato de nenhum outro calibre ser capaz de produzir tal nível de desempenho.

 

Ocorre que, naquele período, o conhecido escritor, vaqueiro e caçador Elmer Keith já estava com os primeiros protótipos da sua munição .44 Special com alta pressão, a qual iria possibilitar o aparecimento do .44 Magnum, em 1955. Se fossemos considerar o .44 Special “hot load” de Elmer Keith como uma munição prática, então o .357 Magnum não seria o mais poderoso daquele período, pois a munição .44 podia acelerar um projétil de 250 grains a mais de 1.350 pés por segundo. E de fato, o .44 Special de Elmer Keith podia produzir duas vezes a energia inicial do recém lançado .357 Magnum.

 

Por ocasião do lançamento oficial do .44 Magnum, a imprensa especializada também alardeava que o novo calibre seria o mais poderoso do mundo. Outra vez todos estavam equivocados, visto que, no início dos anos 50, um Atirador quase desconhecido chamado Dick Casull estava desenvolvendo uma munição de alto desempenho que iria culminar no calibre .454 Casull. Esta munição, apresentada oficialmente em 1983 à comunidade do Tiro, tinha a capacidade de deslocar um projétil de 300 grains a mais de 1600 pés por segundo, batendo quase todos os calibres destinados para Armas Curtas por larga margem.

Por convenção, munições caseiras, ou “wildcats”, como o caso do .44 Special de Elmer Keith e do Casull experimental, não são consideradas como padrões quando se analisa o mercado de Armas & Munições. Somente as munições “oficiais”, isto é, as que são produzidas regularmente por fábricas de munições são consideradas no momento de se discutir desempenho. O .454 Casull somente passou a ser produzido em série recentemente, de forma que o .44 Magnum reinou como o “mais poderoso” por um longo período, mesmo não merecendo tal título.

 

No momento, temos a convicção generalizada de que o .454 Casull pode receber tranqüilamente a nomeação de “mais poderoso”, pois essa munição está praticamente no limite que a constituição humana é capaz de resistir, em termos de recuo. Novamente, temos outra munição a considerar, visto que o Armeiro John Linebaugh já vinha desde 1980 elaborando o seu .500 Linebaugh, este sim o limite que o ser humano consegue disparar e continuar ainda de pé e com a arma nas mãos. Deslocando um projétil .50 de 440 grains a 1.100 pés por segundo, o .500 Linebaugh pode tranqüilamente reinar como o “mais poderoso do mundo”. Mas, como o .500 Linebaugh ainda é uma munição “wildcat”, considerar o .454 Casull como o mais poderoso do mundo não é uma prática de todo errada, principalmente pelo fato de que poucas pessoas realmente conseguem ter acesso ao calibre .500 Linebaugh.

 

Toda essa introdução me serve para dar o clima necessário para se entender os aspectos envolvidos no presente artigo. Os leitores acostumados a ler artigos mais voltados para os calibres que operam em níveis mais comportados podem ter uma idéia do que está envolvido quando uma empresa decide desenvolver uma arma para disparar uma munição que supera em níveis de pressão, energia e desempenho qualquer outra munição disponível no mercado.

 

Fazer um revólver em ação simples para disparar o .454 Casull é algo relativamente coerente, visto que tal tipo de arma possui um chassi monolítico e desenho da empunhadura que facilita a rolagem da arma na mão do Atirador, reduzindo o recuo sensitivo. A grande desafio, em relação ao .454 Casull, é poder-se produzir um revólver em ação dupla que consiga disparar eficazmente esse calibre, visto que era consenso geral que a constituição desse tipo de arma não resistiria ao elevado nível de “stress” que a munição é capaz de produzir. Além disso, os primeiros pesquisadores que tentaram disparar um revólver em .454 Casull em dupla ação, tiveram as mãos feridas pelo enorme recuo produzido pelo calibre.

 

A empresa brasileira Taurus aceitou o desafio de produzir um revólver em ação dupla para disparar o poderoso .454 Casull. A Taurus possui uma política de vendas extremamente agressiva no mercado norte-americano, não passando, praticamente, um mês sem que ocorra um novo lançamento. No final dos anos 90, a Taurus estudou as possibilidades de se criar um revólver em chassi grande que pudesse causar um grande impacto mercadológico, além de apresentar a empresa como detentora de alto nível tecnológico. O resultado foi a criação do maciço revólver “Raging Bull” (Touro Furioso) em .454 Casull. Neste presente artigo vamos conhecer alguns detalhes do histórico desse revólver e experimenta-lo em campo para ver o que ele é capaz de fazer.

 

Raging BULL

Os engenheiros da Taurus iniciaram os primeiros estudos para a produção do novo revólver em novembro de 1996 e praticamente tiveram que criar tudo em escala ampliada, pois a empresa não possuía nenhum chassi de grandes dimensões que pudesse receber a munição Casull. Em análise, muito dos detalhes construtivos do novo revólver, tais como, o grupo do gatilho, miras, etc., foram tomados de outros produtos da empresa e “ampliados” para fazer conjunto com o grande chassi.

 

A maior diferença do novo revólver, além das dimensões avantajadas, era o sistema diferenciado de travamento do tambor. A Taurus sempre fez uso de um dispositivo tradicional de travamento do tambor que age em dois pontos, nas duas extremidades da caneta (haste de extração) do tambor. Como a maioria dos revólveres em ação dupla, o botão de liberação do tambor fica disposto na lateral do chassi, sendo acionado pelo dedo polegar do Atirador. Tal sistema funciona eficazmente com dezenas de calibres e em configurações variadas de chassi, mas costuma apresentar pequenas falhas quando se faz uso de calibres com alto nível de energia de recuo.

 

Com a violenta projeção da arma para trás, no momento do disparo, a inércia da haste de extração pode vencer a resistência da sua mola, permitindo que o tambor seja liberado ou fique fora de alinhamento com o cano. Esse é o motivo do porque os revólveres Smith & Wesson em .44 Magnum não se dão bem para a prática da modalidade de Silhuetas Metálicas, onde são disparados centenas de tiros, todos em alta pressão.

 

A solução encontrada pela Taurus foi dotar o seu novo revólver com um sistema híbrido de travamento, com uma tecla disposta na posição normal e outra instalada no braço do tambor, ambas sendo acionadas em separado. Esse travamento adicional no braço do tambor eliminou a necessidade de se travar a extremidade frontal da caneta e possibilita total segurança no disparo da munição .454 Casull.

 

Acredito ser necessário adicionar mais algumas informações para se compreender a origem do sistema de travamento do tambor adotado pela Taurus. Em 1908, a Smith & Wesson apresentou o seu primeiro modelo com chassi largo tipo N, o revólver .44 Hand Ejector First Model. Este modelo foi rapidamente popularizado como modelo “Triple Lock”, por causa do seu sistema de trancamento do tambor, o qual contava com três pontos de trava, dois fixando a haste de extração e mais um no braço móvel do tambor. O modelo “Triple Lock” não se destinava a disparar nenhum calibre do tipo Magnum, embora fosse base para a posterior criação dessa linha de calibres. O novo “Triple Lock” foi desenvolvido para disparar o calibre .44 Special e a necessidade de sua terceira trava de tambor se devia a preocupação dos projetistas da Smith & Wesson com a rigidez do conjunto, visto que era o seu primeiro projeto em chassi largo e a metalurgia da época ainda deixava a desejar em termos de resistência e durabilidade.

 

Outro revólver de chassi largo a apresentar uma trava no braço do tambor é a linha de revólveres da Dan Wesson, famosos por possuírem uma sólida estrutura e resistência a calibres “pesos pesados”. No caso das armas da Dan Wesson, não se emprega outra trava além da disposta no braço do tambor, sendo que essa concepção se mostra extremamente rígida e segura.

Como vimos, o sistema de travamento do tambor escolhido pela Taurus possui antecedentes na história do desenvolvimento das Armas Curtas, sendo que o maior mérito da Taurus foi escolher uma combinação de duas teclas que resolve a contento o problema da liberação indesejada do tambor.

 

DESAFIOS TECNOLÓGICOS

Os engenheiros da Taurus enfrentaram duas grandes dificuldades no desenvolvimento do “Raging Bull”: a elaboração de um cano que resistisse as enormes pressões geradas pelo calibre e o desenho de uma empunhadura que auxiliasse na administração do recuo, tornando o disparo um pouco mais “confortável”.

 

O pesado projétil da munição Casull causa grandes efeitos ao passar por dentro do cano de um revólver. Principalmente, na área do cone de forçamento, o projétil causa um excessivo “stress” ao se chocar numa alta velocidade inicial e com um movimento de torção com força suficiente para fazer girar o cano em seu eixo longitudinal. Os projéteis para o Casull são pesados, entre 230 e 315 “grains”, e com uma farta área seccional. Assim, quando um projétil é disparado, sai da câmara e toca o cone de forçamento a quase 900 pés por segundo, uma seção do projétil quer se engrasar no raiamento do cano, mas a porção traseira mantém uma certa inércia. Isso acaba criando uma grande tensão que pode forçar o projétil à “atravessar” por cima dos primeiros centímetros de raiamento, destruindo a precisão do disparo e até danificando a área do cone de forçamento. Além disso, o cone de forçamento recebe boa parte das enormes pressões de câmara, da ordem de quase 50.000 cups, e o efeito erosivo da pólvora em combustão em alta temperatura.

 

No revólver Freedom Arms, abrigo natural do calibre .454 Casull, o perigo de uma rápida erosão na área do cone de forçamento foi solucionado com a adoção de um inserte de metal extra temperado, o qual é inserido dentro do cano e fixo por meio de dois pequenos parafusos. Para o “Raging Bull”, a Taurus optou por adotar um ângulo de alívio do raiamento mais pronunciado, detalhe que promove um engrasamento mais progressivo do projétil com o cano, e escolheu uma têmpera de metal que resistisse melhor ao desgaste promovido pela munição.

 

Apesar de não ser necessariamente uma parte da estrutura geral do revólver, a empunhadura do Raging Bull recebeu atenção especial. Constituída de uma única peça e fixa ao chassi por apenas um parafuso, a empunhadura do modelo Raging Bull foi um dos pontos mais estudados pelo corpo de engenheiros da Taurus, no desenvolvimento do seu poderoso revólver. Como elemento primordial na transferência do recuo à mão do Atirador e responsável pelo controle da arma durante os disparos, a empunhadura necessitava receber detalhes construtivos especiais.

 

A envolvente empunhadura composta de Santoprene negro (borracha sintética) é bem espessa em seu desenho e perfil, quando comparada com as empunhaduras convencionais. O contorno da porção inferior frontal da empunhadura, logo atrás do guarda-mato, é preenchida e quase envolve o dedo de apoio do Atirador, impedindo que a arma machuque a mão durante o recuo. A ocorrência de dedos machucados por contato com o guarda-mato durante o recuo em armas em calibres poderosos é uma ocorrência comum, mas, no caso da empunhadura do “Raging Bull”, esse aborrecimento é evitado por um desenho bem elaborado do perfil da empunhadura.

 

A face posterior da empunhadura, chamada tecnicamente de “backstrap”, é um elemento de destaque neste componente do “Raging Bull”.  A empunhadura possui um segmento de borracha vermelha elevada cerca de 2 mm do resto do corpo da empunhadura, cobrindo toda a face posterior. Esse segmento forma um “ombro” largo o bastante para dar uma boa área de contato com a mão do Atirador, transferindo melhor a força de recuo e reduzindo em parte o temido “recuo sensitivo”, ou seja, a “pancada” que se recebe no momento do disparo. O “recuo sensitivo’ é algo subjetivo, sendo que algumas pessoas até se acostumam com armas de calibres poderosos a ponto de nem se darem conta do seu recuo. Mas, no caso de uma arma em .454 Casull, ninguém escapa de sentir uma forte “ferroada” quando puxa o gatilho e a munição desenvolve toda a sua enorme energia.

 

O segmento de borracha vermelha foi desenvolvido pela Taurus para absorver boa parte do impacto do recuo da munição Casull. No momento do disparo, o segmento se comprime e o Atirador tem a sensação de que todo o recuo é transmitido para dentro da palma da mão.

 

PROTÓTIPO EM TESTES

Em termos de energia, o .454 Casull é capaz de produzir mais de 50% de impacto que o .44 Magnum. Por outro lado, a munição Casull, em suas configurações mais apimentadas, pode castigar o Atirador com mais de 70% de energia de recuo, algo somente comparável com o recuo de determinados calibres de fuzis para caça africana! Esse fato não somente se traduz num tremendo esforço em controlar o forte recuo, por parte do Atirador, bem como causa um sério “stress” na estrutura da arma.

 

Falei anteriormente que, por um bom tempo, era voz corrente que revólveres em ação dupla não se prestavam para aceitar o calibre .454 Casull, pois entendia-se que a sua concepção de empunhadura machucaria demasiadamente o Atirador e a estrutura desenvolvida para facilitar a abertura do tambor seria frágil para resistir à energia de recuo do calibre. Com o protótipo do Raging Bull, nome de batismo do novo revólver, pronto, os engenheiros da Taurus passaram para a fase de testes, para ver se sua concepção resistiria a uma prolongada dieta de munição Casull.

 

Necessariamente, um protótipo de uma Arma de Fogo deve sempre passar por um estágio de teste em túnel balístico, para que possíveis falhas de projeto ou defeitos estruturais possam ser identificados. Realizados de forma real, esses testes consistem em se disparar entre 1000 e 2000 tiros em alta pressão com a nova arma, parando-se em intervalos para se estudar a integridade de todos os componentes. O Raging Bull passou por esse estágio de testes, mas parece que não foi uma tarefa fácil.

 

No meio da comunidade do Tiro desportivo, corre uma história não-oficial de que os técnicos da Taurus não suportavam seções de mais que 10 ou 15 disparos com o Raging Bull, por causa do esforço em suportar o enorme recuo da munição Casull. Consta que foi feita uma circular na empresa para que quem se dispusesse a despender um pouco de seu tempo livre para atirar com a nova arma assim o fizesse, tendo em vista auxiliar os técnicos a cumprir a cota de disparos de teste. Verdade ou não, essa história deve ter algum ponto de realidade, pois não deve ter sido nada fácil dar centenas de disparos com o Raging Bull, mesmo fazendo-se uso de luvas ou outro tipo de proteção. Nota: nesse tipo de teste, não se faz uso de estativas fixas, pois estas não reproduzem o mesmo efeito que o apoio de uma mão humana.

 

Com o protótipo testado e aprovado, a Taurus pôde finalmente apresentar o modelo no mercado norte-americano, sendo que as primeiras armas foram embarcadas para os Estados Unidos em outubro de 1997, criando um grande efeito mercadológico. De início, ouve comentários de que o Raging Bull não seria uma arma confiável e que sua estrutura não resistiria por muito tempo a um regime prolongado de disparos. Gradativamente, o mercado norte-americano foi aceitando o novo revólver, o qual ainda permanece como o produto mais caro da linha de produtos da Taurus. O preço de um Raging Bull nas lojas dos EUA está por volta de US$900,00, enquanto um Freedom Arms não sai por menos de US$1250,00. Além disso, o Raging Bull é uma peça de produção contínua, enquanto o revólver da Freedom normalmente tem que ser encomendado, pois é uma arma de produção muito mais demorada. Esse diferencial de preço e disponibilidade de entrega, em conjunto com o fato do revólver ser em ação dupla, propiciou um enorme apelo de vendas para o Raging Bull, fazendo com que outras empresas do setor começassem a se mexer. O primeiro concorrente efetivo do Raging Bull surge em 2000, com o lançamento do Ruger Super Redhawk, modificado para a munição Casull.

Em 1998, a Taurus veria seus esforços recompensados, quando a empresa recebeu o prêmio de “Handgun of the Year” (Arma Curta do ano) por seu modelo Raging Bull em .454 Casull. Este importante prêmio, entregue anualmente pela Shooting Indrustry Academy of Excelence (Academia de Excelência da Industria de Tiro), tem a função de laurear as empresas que mais se destacaram no desenvolvimento do mercado norte-americano de Armas & Munições. A Academy of Excelence concluiu que no período de 1997-98 o modelo Raging Bull foi um elemento de grande impacto no mercado e mereceu receber a distinção. Escolhido por mais de 350 membros da Academia, o prêmio “Handgun of th Year” foi entregue à diretoria da Taurus Firearms (Taurus USA), coroando um projeto que trouxe novos parâmetros para a empresa brasileira.

 

O sucesso no desenvolvimento do chassi largo para o modelo Raging Bull possibilitou a elaboração de outros modelos, fazendo uso da estrutura básica. Assim, a Taurus lançou no mercado norte-americano, como produtos derivados do .454 Casull, os modelos 444 (.44 Magnum de 6 tiros) e 45 (.45 Long Colt de 6 tiros), ambos com cano de 6 1/2" ou 8 3/8" e acabamento oxidado ou em aço inoxidável, além do interessantíssimo modelo 22H (.22 Hornet de 8 tiros, cano de 10", inoxidável). Além disso, sempre seguindo uma feroz política de vendas, a Taurus Firearms apresentou, logo após o seu lançamento, variações do Raging Bull em aço carbono oxidado, aço inox fosco e aço carbono oxidado com partes em acabamento marmorizado. Para os próximos meses, a Taurus estuda apresentar ao mercado uma versão do Raging Bull em calibre .480 Ruger, uma novíssima munição que pode ser considerada algo como um .454 Casull mais “soft”.

 

ANALISANDO O “BRUTO”

Confesso que eu estava extremamente curioso para saber como se comportaria o Raging Bull em teste real. Tenho uma razoável experiência com Armas Curtas em calibres pesados, mas nunca antes tinha experimentado o famoso recuo da munição Casull. Entre caçadores e atiradores correm comentários e histórias sobre o célebre recuo do .454 Casull e seu impressionante nível de energia. Minha intenção era saber na prática como funcionaria a combinação de arma e calibre.

 

Como de praxe, efetuei um demorado estudo de todos os componentes do Raging Bull antes mesmo de marcar a data para a bateria de testes. O primeiro detalhe que salta à vista, além do sistema de travamento do tambor, é a elaborada câmara de expansão integrada ao cano da arma. A Taurus foi uma das primeiras empresas a fornecer regularmente produtos com câmaras de expansão, ou compensadores, oferecendo um elemento construtivo que vem em auxílio no controle do recuo.

 

Deve-se notar que, as câmaras de expansão ou compensadores não reduzem o recuo, como é comum se afirmar, mas controlam o “pulo” da arma, fazendo com que a energia do recuo seja transmitida para dentro da palma da mão. Esse efeito, em geral, reduz a sensação de “pancada” que a mão do Atirador recebe na área entre o dedo indicador e o polegar (o “ombro” da empunhadura) e diminui o efeito do recuo sensitivo, ao transferir a energia ao longo do braço. No entanto, se o recuo for acima de um certo limite, que é algo sempre de ordem pessoal, a sensação de recuo será desagradável, não importa quão bom seja o sistema empregado no compensador.

Nas laterais do cano estão dispostas as saídas do compensador, com quatro furos de cada lado, esculpidos de forma a direcionar os gases resultantes da queima da pólvora em ângulo e para cima. Essa angulação evita que os gases atinjam a massa de mira ou qualquer outro equipamento óptico que seja montado sobre o cano do Raging Bull.

 

Na realidade, o cano do revólver não possui exatos 8 3/8 polegadas (21,27 cm) de comprimento, visto que o compensador toma 1.375 polegada (3,50 cm) da porção raiada. Dessa forma, a seção raiada do cano com que a munição pode contar para acelerar mede exatamente 7 polegadas (17,78 cm) de comprimento. Dentro da câmara do compensador é possível ver a excelente coroa da boca do cano, executada em corte reto, muito própria para manter a precisão do disparo da munição.

 

Ao experimentar o gatilho do Raging Bull, ouso até dizer que a maciez de acionamento se aproxima dos gatilhos construídos pela Smith & Wesson, considerados o máximo em termos de revólveres de dupla ação. Com um acionamento sem falhas, atritos ou “degraus”, o gatilho do Raging Bull apresentou um puxada segura e constante, tanto em ação simples quanto em ação dupla, embora com um “peso” (mais de dois quilos) um tanto elevado.

 

Em algumas situações, principalmente com a arma carregada de munição, encontrei uma pequena dificuldade em fazer girar o tambor. Não pude identificar se este era um problema do exemplar testado ou uma característica do revólver, mas diversas vezes foi necessário dar uma pequena ajuda com a mão esquerda para fazer girar o tambor e engatilhar a arma. É provável que a resistência esteja no fato do tambor conter 5 câmaras e o braço de acionamento ter que fazer um longo percurso para acionar a estrela do tambor. Mesmo assim, esse comportamento não chega a afetar o trabalho com o revólver, principalmente após um processo de reconhecimento e uma melhor intimidade com a forma de operação da arma.

 

Em todos os seus componentes, o Raging Bull deixa transparecer um excelente nível de acabamento e um cuidado técnico necessário nessa categoria de arma. O cano é muito maciço e pesado, apresentando uma bonita gravação na lateral com o nome “Raging Bull” e “454 Casull”. Acima do cano, existem quatro rasgos na fita superior, os quais servem para a instalação de um prático sistema de montagem de lunetas, desenvolvido pela Taurus e vendido como acessório. Todo o acabamento externo, em aço inoxidável polido, demonstra um ajuste fino entre as partes do revólver, principalmente entre o cano e o tambor, cujo “gap” possui um espaçamento de apenas .005 milésimos de polegada.

 

TENTANDO DOMAR O TOURO

Não se imagina utilizar um revólver em .454 Casull em tiros de precisão, pois nem a arma e nem o calibre se destinam à prática esportiva. Porém, é desejável que a combinação produza um bom padrão de precisão à médias distâncias, pois a média dos disparos realizados em campo, durante uma caçada, são, na sua maioria, realizados entre 20 a 200 metros. Pensando nisso, procurei experimentar o Raging Bull na posição em pé, fazendo uso de um alvo de Silhuetas Metálicas instalado na distância de 50 metros. Esse tipo de teste exigiria um grande controle de minha parte e uma concentração especial para poder captar todos os detalhes de comportamento do revólver que pudessem se destacar durante os disparos. Para a situação ficar mais realista ainda, decidi que os primeiros disparos seriam sem as luvas de tiro que normalmente uso, pois queria sentir todo o efeito do recuo da munição .454 Casull.

 

Como descrever ao Leitor o primeiro disparo com o Raging Bull? Realmente, a “pancada” recebida no disparo da forte munição Magtech empregada nos testes é marcante, para não dizer inesquecível! A arma não “pula” excessivamente na mão, provavelmente por ação do bem elaborado compensador do Raging Bull, e o ponto de impacto no alvo a 50 metros foi exatamente no local visado, demonstrando uma apreciável precisão. Excelente!

 

Se o primeiro disparo foi emocionante, o segundo já deixou uma impressão de se estar usando uma arma de “homem crescido”, pois a mão já começava a sentir o efeito da energia de recuo do Casull. Após a primeira série de 5 tiros, os quais se concentraram num bom agrupamento de não mais que 2 ½ polegadas, me rendi aos fatos e fui buscar minha luva dentro da mala de tiro. Realizei todos os disparo em ação simples, procurando me concentrar em cada disparo para extrair o melhor do Raging Bull. Porém, após 15 disparos, comecei a reparar um estranho fenômeno no agrupamento à 50 metros: os disparos estavam com uma tendência de escapar para a direita, expandindo a concentração para uma linha de 6 a 7 polegadas fora do centro do alvo. Embora o agrupamento ainda estivesse no mesmo padrão de altura, evidenciando que existia um controle no aspecto do “pulo” da arma, meus braços simplesmente estavam ficando cansados e eu não mais conseguia resistir ao momento de torção do revólver. Nunca antes eu tinha presenciado esse comportamento numa arma de calibre poderoso e a resposta para o controle desse fenômeno está na necessária constituição física para se disparar continuamente o calibre. Além disso, é óbvia a constatação de que o Casull não foi criado para séries prolongadas de tiro.

 

A bem desenhada empunhadura do Raging Bull pareceu funcionar como o prometido, pois toda a força da energia de recuo do revólver era transmitida para dentro da mão. A arma também não apresentou nenhuma tendência de “escapar” das mãos durante os disparos, um efeito negativo muito comum em armas poderosas com empunhadura mal projetada. Mesmo assim, ao final de algumas dezenas de disparos com a munição Casull da CBC, o que minha mão mais precisava era de um balde de gelo, tal a dor que a contínua série de tiros causara.

 

Ao final de minha bateria de teste, pude concluir que o Raging Bull e sua munição Casull deixam uma forte (em todos sentidos) impressão. Não somente o revólver é bem balanceado, maciço e preciso, como a munição Magtech da CBC extrai o máximo de desempenho do grande revólver. Aliás, a munição merece um destaque à parte, pois ela também é um ponto de orgulho para a indústria brasileira.

 

A munição da CBC (Magtech) possui um bem construído projétil de 260 grains semi-encamisado com ponta exposta de chumbo. De acordo com o pessoal do Departamento Balístico da CBC, esse projétil é acelerado a 1.947 pés por segundo (548 metros/segundo), o que resulta numa impressionante energia inicial de 2173 ft. lbs. De acordo com os cálculos balísticos, o recuo que eu tive que administrar durante os teste fora da ordem de 35 ft. lbs., o dobro da energia de recuo de um .44 Magnum normal!

Como a existência de munição .454 Casull na América do sul é quase uma raridade, corria um boato de que a CBC teria desenvolvido a sua munição com a intenção de auxiliar o desenvolvimento do revólver da Taurus. Tal comentário não procede, pois a munição da CBC foi lançada mais recentemente, visando atender uma demanda do mercado norte-americano. Assim, toda munição empregada para desenvolver o Raging Bull é a mesma encontrada no mercado dos EUA. No entanto, existem algumas combinações do .454 Casull cujo emprego no Raging Bull deve ser moderada ou evitada, pois são preparadas para emprego em pistolas de tiro singular, do tipo Thompson Center Contender. É o caso das munições produzidas pela CorBon, a qual tradicionalmente produz cargas muito superiores das encontradas normalmente no mercado. A munição CorBon, por trabalhar no limite do espectro de pressão de câmara, acelera o desgaste de um revólver e deve ser destinada apenas às armas de tiro singular.

A que tipo de pessoa se destina o Raging Bull em .454 Casull e qual a sua forma de utilização? Obviamente, nem de longe a arma e seu calibre se prestam à prática do Tiro esportivo ou Defesa pessoal. A concepção original do calibre foi reproduzir em Armas Curtas o mesmo desempenho encontrado no veterano calibre 45-70, de uso em Armas Longas. A intenção era prover o Caçador com uma combinação que servisse de arma de porte para emprego em áreas densamente arborizadas ou com a existência de animais potencialmente perigosos, como no caso dos ursos negros, muito comuns no centro-oeste e norte dos EUA.

 

Certamente, o .454 Casull tem energia e tipo de projétil mais que suficientes para produzir bons resultados em animais de médio e grande porte, sejam eles perigosos ou não. E o Raging Bull da Taurus, com suas qualidades e características construtivas, traz ao calibre uma flexibilidade de emprego que, com certeza, atenderá às aspirações de todo bom Caçador.

 

COMPARATIVO ENTRE MUNIÇÕES
.44 Magnum Winchester Supreme 250 grains, velocidade inicial 1.230 fps, energia 840 ft. lbs. Energia de recuo: 19,0 ft. lbs.
.454 Casull Winchester Supreme 260 grains, velocidade inicial 1.800 fps, energia 1871 ft. lbs. Energia de recuo: 31,4 ft. lbs. 
.454 Casull Magtech (CBC) 260 grains, velocidade inicial 1.940 fps, energia inicial 2173 ft. lbs. Energia de recuo 35 ft. lbs.

*Dados obtidos no catálogo Winchester 2000 e no Departamento Balístico da CBC

 

Ficha técnica

Nome da arma e modelo

Taurus “Raging Bull” M454SS8

Tipo

Revólver

Sistema de operação

Ação dupla

Calibre

.454 Casull

Capacidade

5 tiros

Regime de fogo (s/n)

---

Peso vazia

1786,02 gramas

Peso municiada

1915,62gramas

Comprimento total

14” ( 34,53 cm)

Comprimento do cano

8 3/8” ( 21,27 cm)

Miras

Regulagem micrométrica

Empunhadura

Santoprene (borracha sintética)

Raias (numero e passo)

6 à direita

Velocidade inicial

1625 fps (mun. comercial de 300 grains)

Cadência de tiro (s/n)

---

Acabamento

Oxidado, Aço inoxidável ou marmorizado

Obs.: Possui versões com canos de 5, 6 1/2 e 8 3/8”. Todos os canos tem câmara compensadora no início do cano para controle do recuo.

 

Quadro estatístico de avaliação

Nome da arma e modelo

Taurus M454SS8

Peso

10

Ergonomia da empunhadura

9

Distribuição total de peso

9

Enquadramento de miras

8

“Peso” do gatilho ação simples

9

“Peso” do gatilho ação dupla

8

Recuo

9

Precisão 50 metros

10

Sistema de segurança

10

Praticidade do “design”

9

Robustez

10

Acabamento

9

MÉDIA

9,0

*Valores: 1-3 ruim; 4-7 aceitável; 8-10 bom.

 

*Artigo originalmente publicado na Revista Magnum, Edição no 73