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SHOT Show 2008

por José Joaquim D'Andrea Mathias


As pessoas gostam de números redondos, exatos, haja vista a expectativa que a virada para o ano 2000 gerou em todo o mundo. E a edição número 30 do SHOT Show também parecia gerar certa expectativa, não só pelo notável aquecimento do mercado norte-americano como também pelo reconhecimento de ser este atualmente o maior evento internacional relacionado com Armas & Munições. Este ano participei do SHOT Show 2008 como “representante auxiliar” da Revista Magnum e pude ver in loco o excelente momento do mercado de armas dos EUA.


Há alguns tópicos interessantes que rolaram durante a feira. Primeiro é quanto a um evidente interesse por armas de porte. A maioria dos estados norte-americanos está flexibilizando suas leis para posse e porte de armas e a população saiu às compras! Os visitantes da feira pareciam ter muito interesse em armas de porte baratas e de impacto mercadológico, leia-se compactas, bonitas e de efeito devastador. A Ruger lançou o seu SP101 em .327 Federal Magnum e também estava apresentando uma nova pistola semi-automática chamada New Ruger LCD, em .380 ACP. A pistolinha cabe na palma da mão e dá um show de compatibilidade e qualidade de construção. Eu, seguramente, compraria uma! A Ruger LCD – Lightweight Compact Pistol possui chassi de Nylon reforçado, ferrolho em aço forjado e cano de 2.75” de comprimento. Quanto ao revólver Ruger SP101 em .327 Federal Magnum, este foi anunciado oficialmente em novembro de 2007, mas capitalizou boa atenção dos visitantes do SHOT Show, principalmente pelo fato de ser um calibre com baixo recuo e poder de impacto semelhante ao .38 SPL. Tecnicamente ele substitui o pequeno .32 H&R Magnum que não conquistou bom espaço no mercado.


O revólver Taurus modelo “The Judge” em .45 Long Colt/.410 está seduzindo os norte-americanos, com destaque para as mulheres. A possibilidade de usar dois calibres, o .45 Long Colt e o .410 2 ½ shotshell, traz forte apelo mercadológico. Além disso, percebi que as mulheres norte-americanas são neuróticas com o assunto “estupro” e muitas ficam “encantadas” com o efeito de destruição causado pelo shotshell disparado a pouca distância. Entrevistei algumas senhoras presentes à feira e elas confirmaram que gostavam da expectativa de apenas apontar para o agressor e ver o estrago feito! O efeito é realmente surpreendente, pois a arma tem recuo controlado e faz um enorme rombo no alvo, pela dispersão dos bagos de chumbo.


No primeiro dia da feira, logo na entrada do pavilhão, dei de cara com um exportador alemão que estava apresentando uma bela réplica “no-gun” do famosíssimo fuzil de assalto Sturmtruppen MG-44. Trata-se de uma cópia extremamente fiel do fuzil, com partes estampadas e acabamento militar. A réplica era tão fiel que pensei, a princípio, que se tratava de armas tipo “surplus”. O exportador falou que o fuzil é construído na Alemanha e só entra nos EUA por ser caracterizado como arma de festim. Ele dispara uma munição 9mm PAK em tiro semi-auto e automático. Sai chama (flash) e barulho da arma e ela funciona como a verdadeira, uma boa opção para os filmes de época. Também vi o fuzil numa versão com um dispositivo que permite disparar munição .22 LR em tiro semi-auto, fazendo uso de um carregador embutido num outro carregador de desenho original.


A Thompson Center estava atacadíssima com suas armas, principalmente com o novo fuzil Icon, em vários tipos de configurações e acabamentos. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a nova Encore Endeavour, em calibre .50 de pólvora negra. É um fuzil mono-tiro elaborado a partir da Encore tradicional, com vários tópicos bem “high-tech”, do tipo coronha sintética com redutor de recuo e miras de fibra ótica, que promete bater forte nos produtos dos concorrentes. O mercado de pólvora negra está também em alta, principalmente com os novos produtos “limpos”, tais como pólvoras e lubrificantes biodegradáveis. A Thompson parece que investiu muito nesse segmento, pois a linha de acessórios, projéteis e armas da empresa parece que cresceu muito, a ponto de ser uma linha quase a parte dos demais produtos seus.


Outro assunto que me despertou a curiosidade foi constatar que a Guerra do Iraque já faz um estrago considerável na maneira de pensar dos norte-americanos. Assisti um programa na TV em que mulheres e mães de soldados simplesmente encostaram um representante do Exército na parede, exigindo agressivamente que seus maridos e filhos retornassem para casa, após terem cumprido mais de dois anos de serviço no Iraque. Normalmente esse serviço dura 1 ano, renovável quando por solicitação do soldado. O referido batalhão estava provavelmente em trabalho de logística e o Exército foi segurando eles lá. O programa ainda entrevistava mães de soldados mortos no Iraque, mostrando a dor e tristeza das pessoas que perderam seus filhos e maridos. Tinha até um clima de tragédia sentimental, com a entrevista de uma mãe que pintou o quarto do filho morto com nuvens, pássaros, céu azul e a imagem do rapaz em uniforme. Acredito que não foi um programa alentador para aqueles que têm parentes no inferno.


O assunto Iraque realmente desagrada os norte-americanos. Não chega a ser o que se passava na época do Vietnam, mas já mostra que as pessoas e a mídia questionam os fundamentos da guerra e a permanência de seus soldados naquele fim de mundo. O interessante também é que não se vê mais, pelo menos em Las Vegas, aquele teatro de “vamos dar suporte as nossas tropas” que víamos a um ou dois anos. A remessa mensal de caixões militares parece que já está dando retorno, visto que o Bush está cada vez mais mal cotado nas pesquisas de popularidade. É, todo mundo sabe como começa uma guerra, mas ninguém sabe como ela terminará.


Ainda em relação ao Iraque, me chamou a atenção durante o SHOT Show uma associação chamada de WWP Outdoors – Wounded Warriors Project, que trata de recuperar veteranos de guerra feridos em combate levando-os para aventuras do tipo canoagem, caça, pesca, campismo, etc., sempre com acompanhamento psicológico e profissional. Interessante, mas a “geração Iraque” já tem seus neuróticos e mutilados de guerra...


Alias, o Iraque fomentou uma verdadeira avalanche de armas do tipo Rambo-Turbo-Plus. Fuzis táticos com estruturas modulares, miras térmicas e munições especiais foram um show a parte na seção Law Enforcement. O que tinha de fuzil .50 Browning, então, era um escândalo! Acho que esse pessoal tem complexo de inferioridade! Qualquer um com uma boa conta bancária pode comprar um completíssimo uniforme tático, capacetes com equipamento de visão noturna, fuzil modular, botas com isolação térmica etc., etc., o suficiente para fazer qualquer rambinho cucaracha vibrar de emoção!!!


O mercado de cutelaria nunca esteve em tão grande expansão. Tinha fabricante (e cuteleiros) de tudo quanto era lugar, da China, Índia, Paquistão, França, África do Sul, Itália, Alemanha, Suíça, etc., menos do Brasil... Visitei dezenas de importadores, fabricantes e cuteleiros durante a feira. O damasco está em alta, em todas as suas variações, tais como: aço inox, arame trançado, três tipos de metais, cabos de aço, pregos de ferrovia, combinado com titânio, etc., etc.
O que me causou certa chateação foi constatar que até grandes marcas, como Buck, Geber e Böker tinham produtos com o famigerado “made in china”. Tomei um susto quando comprei um belíssimo canivete da Browning e vi, do lado oposto ao apresentado no display, que ele era chinês. Sim, os chineses estão dominando tudo, das camisetas e bonés nos Wal Marts até as peças de arquearia e lâminas de renome. Encontrei, pasmem, até chapéus e botas de cowboys feitas na China. Chapéus e botas de cowboy!!!! O Far West está sendo dominado pelo Far Orient.... Acho até que o Tio San vai passar a se chamar Tio Chan! A boa notícia é que eles, os chineses, começaram a produzir peças de qualidade e bom acabamento. É saber até onde vai essa farra do preço baixo, pois o “grande gigante amarelo” já dá sinais de que tem inflação dentro de casa e precisa ajustar seus custos ao padrão mundial.


O mercado de Cowboy Action continua em crescimento. Tinha fabricantes de armas antigas, roupas de época, botas, cintos, acessórios e até utensílios de cozinha baseados no período do Far West. É um período romântico que a industria não deixa cair no esquecimento e as pessoas gostam de interpretar. Os italianos entraram em peso na feira, com os fabricantes de armas clones dos revólveres, carabinas, fuzis e espingardas baseadas nos modelos do século 19. O nível que acabamento e qualidade está num patamar impressionante! Fiquei particularmente encantado com as réplicas de Winchesters 1886, em 45-60, e os belíssimos Sharps no estilo Quigley. Espetaculares em desenho, detalhes e acabamento! Acho que nem os originais eram tão bem feitos. Um porém também nesse mercado: muitas das botas, chapéus e roupas vinham com a etiqueta “made in china”. Historicamente, a China esteve envolvida na conquista do Oeste norte-americano, principalmente com mão de obra para as ferrovias, mas agora a coisa esta ficando chata demais! Só falta começarem a fazer também o tabaco de mascar dos cowboys...


Enfim, o mercado de Armas&Munições dos EUA está num dos seus melhores períodos. Tanto que a feira bateu mais um recorde de expositores e teve que abrigar muitos deles em três coberturas especiais montadas no estacionamento do Centro de Exposição. Incrível, mas aquele centro enorme, maior que o nosso Anhembi de São Paulo, ficou pequeno para a feira e teve que roubar umas centenas de vagas do estacionamento para abrigar todo mundo. Maravilhoso! Basta saber se ano que vem o mercado norte-americano não estará em recessão e estragará a festa dos fabricantes, importadores e consumidores.

Texto originalmente publicado na Revista MAGNUM.