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A história de uma Winchester

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Certas preciosidades estão bem debaixo de nossos narizes, somente esperando uma oportunidade para serem descobertas. No caso de armas especificamente, já tive várias vezes a felicidade de receber de presente uma peça considerada como sucata que logo se mostrava apta a disparar regularmente. Foi assim com um velho revólver belga que recebi de herança do meu avô, em calibre .38 Smith & Wesson. Como a munição é praticamente obsoleta e o revólver datava dos anos 20, era de se supor que a arma serviria somente como peça de exposição. Apesar de ser Colecionador, não gosto de abrigar peças consideradas como “artilharia muda”, armas que não podem mais disparar ou não possuem munição em condição de uso. Por esse motivo, fiz a recuperação da arma, procurando manter suas características originais. Após uma limpeza criteriosa, análise de sua integridade e a obtenção de um jogo de dies e estojos para o referido calibre, o velho revólver passou a disparar como nos tempos em que servia ao meu avô como arma de defesa.


Mais recentemente, recebi outra arma de herança, desta vez de um tio que tinha sido Delegado de Polícia e filho de um coronel da Força Pública, herói da Revolução de 1932. A arma em questão, uma pequena carabina Winchester 92, ficara várias décadas guardada atrás de um armário na casa do velho Delegado. Tinha pertencido a seu pai e, após a morte do militar, fora recebida como parte da herança. A carabina somente fora encontrada após a morte do meu tio, por ocasião da reforma da casa em que residia.


A pequena Winchester 92 chegara às minhas mãos num estado desanimador; toda coberta por uma mistura de ferrugem e graxa endurecida, além de apresentar uma grossa cobertura de mofo (argh!) nas partes de madeira. Ao olhar dentro de seu cano, a luz parecia sumir e o metal aparentava estar totalmente carcomido por uso de munição corrosiva, algo muito comum em armas desse tipo. Assim, após uma rápida avaliação, guardei a carabina no fundo do meu armário de armas, somente retirando-a numa ou outra ocasião para inspeção. E assim foi por mais de três anos, até uma noite em que, não tendo nada mais prático para fazer, decidi dar uma olhada mais detalhada na Winchester.


A carabina continuava com um aspecto horrível, não estimulando qualquer esforço para restituir-lhe a antiga condição de operacionalidade. O que mais me incomodava era a aparência corroída do interior do cano, visto que, externamente, a arma apresentava todas as suas inscrições, os parafusos estavam quase sem deformações e a coronha tinha poucas marcas e batidas. Tomando coragem, limpei o local da numeração de série com um pequeno pedaço de palha de aço. Anotei o número de série da carabina e decidi fazer uma busca na Internet para ver se conseguia descobrir a data de fabricação. Fiz algumas consultas através dos sites de colecionismo e logo pude saber que a minha carabina Winchester 92 fora fabricada em 1926. Como eu sabia que o modelo 92 foi produzido até 1942, atingindo um total de 1,004,675 unidades, pude entrever que a minha carabina tinha presenciado uma época muito movimentada da nossa história.

Sonhando acordado
Pude até imaginar a época em que a arma chegara ao Brasil, num período que as nossas fronteiras ainda eram indefinidas, perigosas e inexploradas. Os caçadores, aventureiros e mercadores dos anos 20 e 30 tinham preferência pela carabina Winchester 92, pelo fato dessa arma ser robusta e muito prática de manejo. O Brasil do início do século 20 era um bom mercado para carabinas compactas e baratas. Era um país com um amplo e indomado território, cheio de animais e índios ainda em estado selvagem e com condições agressivas para armas e ferramentas que não fossem resistentes e práticas. Como as matas eram densas e não existiam animais de grande porte, os calibres médios, tais como o 32-20, o 38-40 e o 44-40 Winchester, eram mais que perfeitos para a tarefa. Os modelos mais comercializados no Brasil foram as carabinas de cano curto de 16 e 20 polegadas de comprimento, embora fosse possível encontrar nas tradicionais lojas de São Paulo e Rio de Janeiro fuzis Winchester com até 24 polegadas de comprimento de cano. Somente alguns países da América do sul e a Austrália receberam carabinas Winchester 92 com canos menores que 20 polegadas de comprimento. As planícies e ravinas norte-americanas demandavam armas com canos longos, enquanto a selva impenetrável da América do sul exigia canos curtos que não dificultassem o manuseio da arma. Assim, essas carabinas, com canos de 14 e 16 polegadas, são relativamente raras nos EUA e comandam altos preços no mercado de colecionismo.


Onças, capivaras, antas e muitos outros animais brasileiros foram caçados com carabinas Winchester, sendo o calibre 44-40 o calibre preferido pelos caçadores. Os antigos livros de Caça, escritos até os anos 70, traziam inúmeras referencias de caçadores brasileiros fazendo uso de uma Winchester “papo amarelo” ou uma jeitosa 92 em 44-40. O famoso caçador e aventureiro Sasha Siemel usava uma pequena Winchester 92 de 14 polegadas, na qual foi adaptada uma baioneta de fuzil Mauser, tornando-a preparada para caçar as perigosas onças dos sertões brasileiros.


As carabinas Winchester foram também vistas nas mãos dos jovens estudantes de Direito que tomavam guarda do Largo de São Francisco, nos dias que precederam a Revolução de 1932. Durante o conflito, muitos voluntários constitucionalistas levavam para as frentes de combate suas carabinas adquiridas nas lojas de São Paulo. Sem dúvida, as armas Winchester, à semelhança do lendário desbravamento do Oeste norte-americano, tinham um relacionamento estreito com a recente história do Brasil, tendo servido como ferramenta para consolidação do nosso território em diversos momentos.


Além de sonhar acordado com o período romântico em que a minha carabina chegara ao país, eu imaginava também se essa arma não teria visto alguma ação nos períodos turbulentos das revoluções de 1930 e 1932. Eu tinha essa suposição pelo fato de saber que pertencera a um oficial da extinta Força Pública e perceber que as marcas encontradas na coronha da carabina eram idênticas às produzidas quando armas longas são carregadas nas celas dos cavalos. Eu ainda tinha em mente as histórias que o meu tio me contava sobre seu pai e suas atividades como comandante de tropa durante a revolução. Segundo ele, seu pai sempre usava uma carabina Winchester na sela durante as ações militares, mesmo a despeito do fato do fuzil Mauser 1908 ser a arma longa-padrão da Força Pública nos anos 20 e 30. Mas eu também sabia que a carabina preferida do velho oficial era uma Winchester 92 em 38-40, que se encontra atualmente no museu da Polícia Militar de São Paulo. Somente posso supor, até pelas similaridades entre as duas armas, que a carabina que agora me pertence teria sido empregada em conjunto com a 38-40 preferida do coronel, durante a revolução de 32 a após a reforma desse militar.


Muito provavelmente, a pequena carabina tivera sua importância como arma de defesa, antes de ser guardada atrás de um armário. Finda a aventura da Revolução de 1932 e com as progressivas restrições à posse de armas e munições, o velho coronel decidira esconder algumas de suas armas como garantia. Com a aposentadoria e posterior morte do coronel, a carabina passaria ao seu filho, que a manteria guardada naquele local seguro. A Winchester 92 ficara lá todos esses anos, esperando o momento em que serviria novamente ao seu dono.

Reconhecendo a arma
Sempre me interessei pelo mecanismo tipo “lever action” (ação de alavanca) da Winchester 92. Esse tipo de mecanismo é muito familiar ao atirador brasileiro, sendo que a carabina Puma da Rossi, virtual cópia da Winchester 92, é tida como a principal arma longa do nosso mercado. O modelo 92 é uma derivação do fuzil Winchester modelo 1886, o qual tinha uma estrutura extremamente robusta e pesada, apropriada para disparar calibres largos, como o 45-70 Government. No desenvolvimento da Winchester 92 foram eliminadas algumas partes móveis do modelo 86, além do redimensionamento do chassi da arma, adaptando-a para aceitar calibres de menor comprimento. Mais barato de construção e muito mais resistente que o famoso modelo 73, o modelo 92 foi um sucesso imediato de vendas. Os exploradores e caçadores que ainda atuavam nas fronteiras do oeste norte-americano apreciavam a vantagem de poder usar uma sólida arma que empregava a mesma munição que seus revólveres Colt. O calibre .44 W.C.F. (Winchester Center Fire), comumente chamado de 44-40 Winchester, era a opção de munição mais comum para a Winchester 92. Segundos os historiadores, a proporção era de 4 armas em 44-40 Winchester para cada outra modelo 92 fabricada em 25-20, 32-20, 38-40 ou, posteriormente, em 218 Bee.


Mas o que mais me fascina na Winchester 92 é o seu chassi, robusto e funcional. Com um ferrolho travado na porção posterior por duas sólidas barras de aço temperado, esse mecanismo pode suportar pressões de câmara acima do 60.000 psi, embora o cano da arma possua apenas uma fração da mesma resistência. Esse fato, mais o seu desenho destinado a acomodar munições de médio comprimento, possibilita o emprego do chassi do modelo 92 combinado com outros calibres inexistentes durante o período normal de produção da arma, tais como o .45 Long Colt, o .357 Magnum e o poderoso .44 Magnum. Centenas de carabinas Winchester 92 foram convertidas para outros calibres, mantendo o modelo atualizado para os novos padrões de energia e desempenho. Já tive em mãos uma Winchester 92 em .44 Magnum e converti outra para um calibre experimental, chamado de .35 Silmet (.44 Magnum reduzido para aceitar projétil de diâmetro .357”). Mas o melhor relacionamento que tive com o mecanismo tipo 92 se deu quando converti uma carabina Puma para o meu calibre .30 Puma Special. Foi um projeto extenso e cheio de detalhes técnicos, quando pude conhecer melhor o mecanismo do modelo 92 e admirar as suas características.


Enquanto eu estudava mais detalhadamente os detalhes externos da Winchester, pensava se não poderia fazer algum tipo de conversão ou reforma aproveitando o seu chassi, visto que achava que seu cano estava perdido de ferrugem. Porém, alguns detalhes da carabina ainda me intrigavam. Analisando melhor a arma, percebi que sua alça de mira teria mais informações a dizer sobre a correta data de fabricação da arma. Olhando a alça de mira com mais cuidado, pude ler a inscrição “PAT. FEB. 22.27”, indicando que essa peça teve concessão de patente no dia 22 de fevereiro de 1927, um ano, portanto, após a data de fabricação descrita nos registros. Além dessa interessante inscrição, a alça de mira possui um diminuto parafuso para ajuste fino localizado no meio da abertura da lâmina, um detalhe construtivo presente nas miras de armas com canos superiores a 20 polegadas. Esses dois detalhes me deixaram em dúvida se a mira seria original da carabina ou teria sido retirada de outra arma.


No livro “Winchester Book”, de George Madis, pude identificar a mira da carabina como sendo idêntica à chamada “série 26”, a qual tinha a mesma inscrição de patente e o pequeno parafuso de ajuste. A alça de mira tinha versões de lâminas em perfil “buckhorn”, semi-buckhorn” e “modified buckhorn”. Esse tipo de desenho se assemelha ao arco formado pelos chifres de um cervídeo (buckhorn) e foi chamada extra oficialmente de “Califórnia buckhorn” pelo seu característico perfil. Esse conjunto de alça de mira se tornaria posteriormente peça padrão no modelo Winchester 94, mas já era empregada em carabinas modelo 92 desde o fim da década de 20. O “Winchester Book” também informa que, na época, era comum que as armas fossem marcadas com o seu número de série antes mesmo de estarem completas para distribuição. Assim, não seria estranho que a arma fosse produzida em 1926 e somente completada para distribuição em 1927. Desta forma, graças ao apoio da literatura técnica, pude concluir que a alça de mira da carabina era original e até atestava a data de fabricação da arma.


Ainda explorando a pesquisa sobre a mira da minha 92, procurei responder uma dúvida relacionada com o tipo de alça de mira utilizada na maioria das carabinas curtas que tive chance de analisar. Se essas carabinas possuem canos de comprimento tão curto, entre 14 e 16 polegadas, por que razão é que o fabricante empregava alça de mira originalmente desenhado para fuzil? A resposta está justamente no curto comprimento de cano das carabinas. Como a distância entre miras é algo importante para o bom alinhamento e a obtenção de precisão nos disparos, a solução encontrada pelo fabricante foi utilizar uma alça de mira que recuasse o máximo a sua lâmina para estender o alinhamento das miras. Se a Winchester simplesmente fizesse um encaixe de mira mais próximo da caixa de culatra, o rasgo para assentamento da mira ficaria encima da câmara do cano, enfraquecendo sobremaneira essa área da arma. Assim, a utilização de uma alça de mira destinada a fuzis numa carabina de cano curto tem sentido quando se percebe o aumento da distância entre miras. No caso da minha carabina, essa distância é de 35 centímetros (13,5 polegadas), da face da massa de mira até a face do alça de mira.

Desmonte e limpeza
Agora mais interessado em dar vida nova ao mecanismo da pequena Winchester, passei a limpar um pouco da grossa camada de ferrugem e graxa endurecida que recobria a arma. Enquanto eu passava um pedaço de palha de aço embebida com solvente no metal da arma, pensava na possibilidade de mandar fazer um cano novo para a carabina, tirando proveito do excelente mecanismo de culatra da Winchester. Esse primeiro pensamento não me agradava muito, pois eu perderia as inscrições originais do cano e estragaria a autenticidade do conjunto. Passei, então, a analisar o interior do cano; quem sabe, eu não poderia dar uma polida no que sobrava do raiamento, de forma a poder, pelo menos, dar alguns tiros de experimentação. De repente, vislumbrei um brilho no interior do cano e logo procurei uma vareta de limpeza para ver mais claramente o estado de corrosão do raiamento. Com algumas passadas de um “patch” de limpeza, olhei o interior do cano e mal pude acreditar! O raiamento estava praticamente intocado, sem sinais de corrosão. O interior encontrava-se quase todo espelhado, como se a arma nunca tivesse sido disparada. Até mesmo a coroa da boca do cano, um ponto sempre atacado em casos de corrosão, estava impecável! Essa constatação mudou todos meus planos, pois a arma evidentemente se apresentava em razoáveis condições para ser novamente funcional. A carabina Winchester apenas necessitava de uma boa limpeza para ser posta em ponto de bala!


Decidi desmontar completamente a carabina, libertando-a da ferrugem e da graxa. Mas eu iria precisar de um esquema de peças, pois sabia que o mecanismo da Winchester tinha tantas partes quanto um relógio suíço. Novamente busquei socorro na Internet para encontrar um esquema de peças do modelo Winchester 92. Tive que me contentar com um desenho expandido da carabina Puma fabricada pela Rossi. Essa arma é uma cópia quase fiel da Winchester 92, com algumas melhorias, principalmente na substituição da mola mestra de lâmina por uma espiral, muito mais resistente. Assim, entendi acertadamente que o esquema expandido da Puma serviria bem como guia na desmontagem e montagem da minha Winchester 92.


Eu tinha duas grandes preocupações quando me preparava para o processo de desmontagem da carabina: 1 – todas as peças, parafusos e coronhas encontravam-se travadas pela graxa ressecada e 2 – a complexidade de partes e seqüência de montagem deveria ser rigorosamente estudada, pois eu já tivera a desventura de desmontar uma Puma e não gostara muito da experiência de por todas as peças novamente no lugar. Aplicando doses generosas de desengripante Starrett M1, fui cuidadosamente soltando os parafusos da carabina e limpando com palha de aço tipo 0 a crosta de graxa seca das partes e encaixes da coronha. Ao cabo de algumas horas eu tinha a arma totalmente desmontada, com apenas duas cabeças de parafusos levemente deformadas pelo esforço de libera-las do mecanismo. Agora eu podia ver mais claramente o interior do cano e o estado de conservação da câmara. O cano se encontrava maravilhosamente espelhado, apenas com algumas pequenas manchas de oxidação onde a graxa não fizera proteção. A câmara estava em perfeitas condições, apresentando ainda algum depósito de chumbo e graxa lubrificante no início do raiamento. Certamente a arma tinha sido disparada algum dia, mas a sua limpeza tinha sido tão criteriosa que o metal não fora atacado pelos depósitos derivados da pólvora negra e das espoletas com fulminato de mercúrio das munições da época.


Outra feliz constatação foi ver as perfeitas condições das peças internas do mecanismo, algumas delas ainda conservando o oxidado azul original de fábrica. O ferrolho demonstrava estar tão bem conservado como o interior do cano, sem pontos de corrosão ou “pits”. Alias, o estado do ferrolho dizia mais da vida da arma que o próprio cano, pois sua condição deixava claro que a arma fora disparada pouquíssimas vezes. O percussor, extrator e o ejetor estavam perfeitos, sem nenhum ponto de corrosão ou desgaste, evidenciando o pouco uso da carabina. Enfim, após analisar todos os aspectos importantes e constitutivos da Winchester 92, pude concluir que esta aparentava estar tecnicamente funcional e segura para disparar novamente sua munição.
Mesmo estando feliz com o estado impecável das partes internas da arma, eu não podia deixar de me entristecer com o aspecto deplorável do acabamento externo. A graxa utilizada para recobrir a carabina tinha origem desconhecida. Ela protegera as peças internas, mas contribuíra para atacar o oxidado externo do metal. Parecia estranho que a mesma graxa que protegera o raiamento do cano era a vilã pela má aparência geral da arma. Utilizando palha de aço tipo 0 e óleo fino de máquina, passei a limpar a parte externa da arma e todas as suas peças, retirando os pontos de ferrugem e graxa solidificada. Essa tarefa me tomou quase uma semana, tempo em que também me dediquei a dar uma restaurada nas partes de madeira da carabina. A coronha e a telha da carabina foram raspadas, os amassados reconstituídos por tratamento com calor localizado e o acabamento acetinado da superfície foi obtido após uma demorada aplicação de selante. Com a raspagem e polimento das partes de madeira perdi o antigo acabamento vermelho característico das antigas armas da Winchester. Mas este acabamento da coronha e telha foi substituído pela coloração natural de carvalho, após duas demãos de “Tru Oil” da Birchwood Casey.


Como limpeza final de todas partes metálicas da arma, lavei-as com solvente mineral (Varsol), retirando os últimos vestígios de graxa e pontos de ferrugem. O solvente mineral é o elemento mais indicado para lavar peças metálicas, ao contrário do popular querosene, pois é muito mais puro, não deixa depósitos graxos e não permite a deposição de gotículas de água em frestas, cantos e ranhuras. Acredito que esta é uma dica importante, pois já vi inúmeras armas manchadas ou corroídas pelo uso incorreto de querosene, quando seu proprietário pensava estar empregando o melhor solvente na sua limpeza.
Após montar todas as peças, constatei que a carabina Winchester podia não ganhar nenhum campeonato de beleza e bom acabamento, mas constituía, certamente, um conjunto excepcionalmente jeitoso de manuseio e disparo. Mesmo sua aparência de antiguidade e as marcas do metal pareciam não mais interferir negativamente, visto que a arma estava limpa e com acionamento livre. Agora só faltava arranjar munição à altura para experimentar a minha pequena Winchester.

Munição sob medida
Como bom amante da Recarga de Munição, rapidamente procurei minhas anotações e tabelas sobre o velho 44-40 Winchester. Minha experiência anterior com a munição 44-40 tinha sido por ocasião do artigo de lançamento da carabina Rossi Puma nesse calibre, na edição no 22 da revista Magnum. No entanto, a arma que eu testara na ocasião era de confecção moderna e resistente, passível de suportar grandes pressões de câmara. Não era minha intenção fazer uma munição de alta potência para a minha Winchester. O que eu desejava era apenas elaborar uma combinação que fosse superior à carga padrão, mas que ainda atuasse num patamar mediano de pressões de câmara.


O 44-40 Winchester foi lançado em 1873 para fazer conjunto com a célebre carabina Winchester 73, conhecida no Brasil como “papo amarelo”. Originalmente carregada com 40 grains de pólvora negra e um projétil de chumbo pesando 200 grains, a munição produzia energia suficiente para a caça de pequenos animais e a defesa em situações extremas. O advento das modernas pólvoras sem fumaça e a introdução do modelo 92 possibilitou aos fabricantes de munições fazerem novas combinações de projéteis e cargas para o 44-40 Winchester. Por volta de 1914, alguns fabricantes ofereciam, além do tradicional projétil de chumbo de 200 grains, projéteis encamisados com ponta oca e sólida. A Winchester também lançou no mercado uma combinação chamada W.H.V. (Winchester High Velocity – Alta velocidade) que deslocava um projétil de 200 grains a 1.569 fps, em comparação com a tradicional carga do 44-40 com 1.200 fps.


No começo do século 20 diversos especialistas concordavam que o calibre 44-40 Winchester poderia operar num novo patamar de pressões de câmara, possibilitando maior vantagem em termos de energia. Porém, era preciso fazer uma distinção entre as armas existentes. Assim, as armas construídas para receber o 44-40 seriam separadas em dois níveis de resistência: grupo 1, para armas de mecanismo frágil (até 13.900 psi) e grupo 2, para armas de mecanismo robusto (até 22.000 psi). Esses dois níveis de resistência relativa seriam representativos do tipo de mecanismo da arma, indicando se ela poderia receber a munição com maior nível de pressão ou se somente aceitaria a carga de baixa pressão. A Winchester 73, por exemplo, é enquadrada no grupo 1, pois essa arma possui um mecanismo de trancamento por “joelho” que é muito frágil quando se emprega munição acima do padrão. Já a Winchester 92 pode ser enquadrada no grupo 2, sendo capaz de receber munições de alta pressão.


Como o calibre 44-40 é uma munição concebida a mais de 130 anos, certos cuidados são necessários para a sua recarga, principalmente no tocante aos componentes. Uma das minhas preocupações era com o delicado estojo do 44-40, muito fino e de desenho bem ultrapassado. Felizmente, a CBC fornece um excelente estojo de 44-40 Winchester, com um bom latão e bolso de espoleta tipo boxer. Quanto aos projéteis, não perdi muito tempo procurando itens especiais, visto que muitas empresas de material de recarga desistiram de produzir componentes para o nosso mercado (resultado das campanhas anti-armas). Optei por um projétil de 200 grains em liga de chumbo fabricado pela Buffalo. Este projétil possui um perfil idêntico ao original do 44-40 e pode ser acelerado a boas velocidades, graças a sua liga mais dura. Escolhi a pólvora Imbel Rex 1624 por saber que ela preenche bem estojos largos como o 44-40 Winchester. Esta pólvora, de queima média e flocos graúdos, costuma gerar boas combinações em armas de canos longos. Como já tive boas experiências com a Rex 1624, achei razoável fazer minhas combinações tomando como base essa pólvora.

Limitações
O calibre 44-40 não é particularmente preciso acima de 150 metros de distância. Ele também não é indicado para disparos além dos 200 metros, visto que, além da sua precisão precária, a trajetória do projétil é “embarrigada” e este perde muita energia pelo baixo perfil aerodinâmico. Por esse motivo, a melhor faixa de trabalho do calibre se dá entre 50 e 100 metros de distância, quando se consegue aproveitar bem a energia e mediana precisão do 44-40. Tendo as limitações do calibre 44-40 Winchester em mente, pensei em preparar uma carga que pudesse ser utilizada no modelo 92 com eficiência, sem prejuízo para a arma e sem o sacrifício dos seus delicados estojos. Por fim, escolhi carregar uma combinação de projétil Buffalo de 200 grains com 10,2 grains de pólvora Imbel Rex 1624. Eu tinha consciência que o 44-40 poderia ser carregado com cargas maiores de Rex 1624, mas essas cargas atingem pressões de câmara próximas de 25.000 cup, forçando o mecanismo da arma e prejudicando desnecessariamente a vida útil dos estojos.


Com a carga definida, passei para os testes de campo, quando fiz alguns disparos iniciais com a Winchester 92, os primeiros tiros que essa arma disparava em muitos anos! Foi uma satisfação à parte ver que a pequena carabina funcionava perfeitamente e os disparos estavam bem centrados no alvo. As primeiras concentrações a 25 metros indicavam que a Winchester 92 estava dentro das expectativas de precisão e comportamento, agrupando 5 disparos em 2 polegadas de dispersão. Para obter uma comparação com a munição que eu preparei para a carabina, fiz algumas concentrações com a munição original da CBC, a qual opera dentro dos patamares de baixa pressão, embora seja montada com pólvora sem fumaça. Tanto a munição recarregada como a munição da CBC produziram o mesmo nível de precisão, apenas com variação no ponto de impacto.


Passando as munições no cronógrafo, constatei que a munição da CBC tinha velocidade inicial de 1135 fps e a recarregada com Rex 1624 velocidade inicial de 1329 fps. Esses valores eram exatamente o que eu esperava encontrar nas minhas experimentações com a Winchester 92. Pensando em abusar um pouco do desempenho da pequena carabina, decidi experimentar concentrações num alvo disposto a 50 metros de distância. O grande desafio era produzir um bom agrupamento utilizando a mira semi-buckhorn, um pouco inadequada para tiros de precisão. Novamente, a munição de fábrica e a recarregada produziram idênticas concentrações, embora houvesse uma maior dispersão. Mesmo assim, os agrupamentos ficaram dentro de um diâmetro de 3 polegadas, alterando-se apenas o ponto de impacto em relação à potência das cargas. Nada mal para uma carabina de 78 anos que ficou boa parte da sua vida escondida atrás de um armário!


Afora a preocupação com os detalhes técnicos dos testes, eu estava eufórico com o desempenho da carabina. Seu mecanismo funcionava de forma suave e precisa, atestando a lendária qualidade de fabricação da Winchester. O conjunto se mostrava muito jeitoso de manejo e o controle dos disparos se dava de forma natural, mesmo a despeito do maior recuo da munição recarregada. Embora a minha carabina Winchester 92 não possa figurar como um expoente em termos de acabamento e precisão, a combinação promete bom desempenho, principalmente em situações de Caça em mata fechada. Mas, o melhor resultado que consegui com a minha Winchester 92 foi o prazer de recuperar uma suposta “artilharia muda”, que se encontrava apenas adormecida, à espera de ser posta novamente em condições de serviço.


Como último comentário, observo que o presente artigo não deve servir para que o Leitor passe a recuperar qualquer arma antiga que encontre nos achados de família. Recondicionar armas antigas requer conhecimento técnico e os cuidados de um bom armeiro, pois muita coisa mudou em termos de tecnologia e as armas sofrem deterioração como qualquer outra ferramenta. Uma peça aparentemente sólida pode desmontar irremediavelmente se uma munição for usada incorretamente ou determinada peça estiver comprometida. Por esse motivo, sempre que for fazer uso de armas muito antigas, procure a orientação de um armeiro competente para saber sobre a integridade e segurança de sua arma.

Artigo apresentado originalmente na Revista Magnum edição no 83