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O revólver e suas principais dúvidas

por José Joaquim D'Andrea Mathias


É fácil perceber, mesmo para o observador mais distraído, que a principal Arma Curta do cidadão brasileiro ainda é o revólver. Ao contrário do consumidor europeu, mais afeito à pistolas semi-automáticas, ou o norte-americano, acostumado a obter sem problemas qualquer tipo de armamento que deseja, os brasileiros têm uma longa convivência com basicamente um só tipo de Arma Curta. As razões para isso possuem origens econômicas, tecnológicas e sociais, necessitando muito papel e tinta (ou bits) para ser razoavelmente explicada ao Leitor.

Mas, de maneira simplificada, pode-se afirmar que, por falta de opções, o consumidor brasileiro se "acostumou" ao revólver e adquiriu, a princípio, certa "resistência" em se adaptar às armas semi-automáticas. Para isso contribui fortemente o fato das empresas nacionais de Armas Curtas só recentemente se interessarem por pistolas semi-automáticas e apresentarem uma longa tradição na confecção de revólveres, mais fáceis e baratos de produção. É de se notar que no histórico de quase todas as empresas nacionais de Armas Curtas consta que elas foram fundamentadas na produção de revólveres, a maioria cópias diretas de modelos norte-americanos.

Do ponto de vista técnico, o revólver também tem a sua preferência calçada na maior facilidade de treinamento e emprego, quando comparadas com as pistolas semi-automáticas. Estas são, a princípio, mais complexas de manejo e disparo. Nota-se que poucas são as pessoas que lucidamente procuram cursos de Tiro para aprender corretamente o uso de sua arma pessoal e, nesse caso, o revólver se apresenta como mais apto a favorecer o "auto-aprendizado". Sem travas, carregadores e liberadores de ferrolhos, os revólveres só precisam estar municiados para se apontar e puxar o gatilho.

A despeito dessa “preferência nacional”, o mercado nacional de Armas & Munições viu o gradativo fortalecimento da posição de algumas pistolas semi-automáticas, notadamente a linha das Forjas Taurus, as pistolas argentinas Bersa e a austríaca Glock, quase todas estas em calibre .380 ACP. Mas ainda encontramos aqueles que preferem um revólver como arma de defesa, tendo em vista sua simplicidade de manuseio, confiabilidade e custo. Atendendo, então, a já comentada "preferência nacional", vamos comentar algumas características do revólver, esse nosso velho conhecido.


Evolução Gradual
Oficialmente, o primeiro revólver prático e funcional foi desenvolvido pelo célebre Samuel Colt em 1836 com o seu modelo "Paterson", ao qual se seguiu uma infindável série de outros produtos, numa evolução contínua e segura. Samuel Colt teve a feliz idéia de criar uma arma onde diversas câmaras dispostas num tambor eram automaticamente alinhadas para disparo pela rotação deste. O sistema de municiamento ainda era a antecarga e o disparo se efetuava por intermédio de espoletas colocadas em "ouvidos" aparafusados no fundo das câmaras. Mas o usuário de um revólver do tipo criado por Samuel Colt não mais ficaria restrito a apenas 1 ou 2 tiros, pela maior capacidade de fogo oferecida pelo alinhamento automático das câmaras, Esse fato muito apreciado numa época em que os combates geralmente eram sangrentos corpo a corpo e o tempo de recarga de uma arma de mão podia significar vida ou morte.

Com o pleno advento da munição metálica, por volta de 1865, muitas firmas, hoje grandes e sólidas companhias, começaram a conquista de um vasto mercado, ávido por Armas Curtas. Estas, sendo práticas e confiáveis para emprego, principalmente na defesa pessoal, logo suplantaram as obsoletas pistolas de antecarga. Smith & Wesson, Colt, Remington e Melvin & Huebert, entre outras, foram empresas que floresceram nesse período e concorreram fortemente para oferecer cada vez mais produtos que conquistassem maior parcela de consumidores.

Na virada do século XX, o revólver começou a sentir os efeitos de uma crescente concorrência de outro tipo de armamento, com maior capacidade de fogo e princípios mecânicos mais elaborados e complexos: a pistola semi-automática. Por outro lado, as Armas Curtas começavam a ser empregadas em outras atividades além da defesa pessoal, tais como Tiro ao Alvo e a Caça de pequeno e médio porte. Assim, o revólver teve de sofrer aprimoramentos, não somente para atender a evolução tecnológica, mas também para obedecer aos novos empregos que as Armas Curtas teriam com seus consumidores.

Com advento da “geração Magnum”, no lançamento do .357 Magnum, pouco antes do início da 2a Guerra Mundial, o revólver teve grande fortalecimento em sua posição perante as pistolas, pois a potência dessa munição era algo extraordinário para a época e difícil de ser encontrada em munições para armas semi-automáticas. Assim, os revólveres novamente tomavam a dianteira na preferência do mercado, principalmente após a criação de outras munições de nível Magnum, tais como o .44 Magnum e .41 Magnum. A partir dos anos 80 essa hegemonia de emprego de calibres Magnum seria ameaçada pelo aparecimento de pistolas especialmente desenvolvidas para receber munições de grande potência. Algumas dessas pistolas até mesmo faziam uso de munições desenvolvidas para revólveres, como as munições Magnum. Ao revólver restaria a simplicidade de manuseio e a versatilidade de poder operar normalmente com uma mesma munição em diferentes níveis de potência e configurações de projéteis, algo problemático para as armas semi-automáticas, pois estas dependem do desenho e da energia de recuo de sua munição para funcionarem.

O aparecimento do primeiro revólver em aço inoxidável, o Smith & Wesson Modelo 60 em 1964, foi outra inovação tecnológica de "peso". A evolução dos mecanismos de disparo, aperfeiçoados com sistemas de bloqueio automático de percussão também trouxeram maior segurança no emprego desse tipo de arma. Como derradeiro avanço tecnológico, pode-se considerar o revólver em titânio como a última fronteira, embora eu considere as armas da Wesson Firearms (Dan Wesson), com seus poderosos calibres, estrutura modular e canos removíveis, como o máximo em termos de evolução.

Mas o revólver possui excelentes predicados e não deverá simplesmente “sumir” do mercado. Mesmo sofrendo concorrência das armas semi-automáticas, o revólver mantém uma sólida preferência, principalmente quando suas características de funcionamento e emprego são bem compreendidas. Apesar do forte crescimento na preferência por pistolas semi-automáticas em nosso mercado, percebe-se nos usuários de Armas de fogo um permanente interesse nos revólveres. Através de e-mails, telefonemas e conversas em clubes pude formar uma lista das principais dúvidas existentes quanto ao emprego adequado desse tipo de arma e sua posição frente às pistolas. Muitas dessas dúvidas são também de interessados em adquirir uma pistola semi-automática, os quais procuram se informar se sua decisão será correta ou mesmo se encontrará desvantagens na troca. Então, vamos as dúvidas....


1- Quais as vantagens e desvantagens do revólver?
Apesar de ser um mecanismo já próximo do máximo em termos de desenvolvimento tecnológico, o revólver apresenta inúmeras vantagens que o fazem presente em qualquer séria lista de opções de compra. Algumas das principais vantagens residem na já comentada facilidade de manejo, versatilidade de emprego, rapidez de aprendizado e na intrínseca segurança para o usuário novato.

Por apresentar um mecanismo mais simples e de fácil operação, o revólver é o ponto básico de todo início de aprendizado com Armas de fogo. Iniciar um novato na prática do Tiro defensivo, ou mesmo desportivo, através de pistolas semi-automáticas, representa um maior esforço na compreensão do manejo seguro da arma e o correto uso desta. Já o revólver, em calibres de baixa e média potência, facilita o aprendizado de conceitos básicos de segurança e manejo de Armas de fogo e os rudimentos das técnicas de Tiro.

Em termos de segurança, o revólver possibilita a rápida conferência de estar carregado ou não e, graças aos mecanismos de barra de transferência e/ou bloqueio, o disparo da arma só se dará caso o gatilho seja efetivamente acionado. Esse fator, mais a facilidade de empunhadura e disparo, possibilitam o emprego do revólver mesmo por pessoas recém iniciadas no Tiro ou em situações de excessivo "stress".

Outro fator de vantagem para o revólver é sua inerente "condescendência" no uso de munições de potências e projéteis diferentes. Como esse tipo de arma não depende da munição para operar a seqüência de disparo, qualquer padrão de combinação é aceita sem problemas de funcionamento. Isto confere suficiente versatilidade para, num mesmo revólver, colocar-se munição de Tiro ao Alvo, portanto de baixa potência, em conjunto com cargas bem mais "quentes" destinadas ao uso defensivo.

O fato de o revólver não depender da munição para operar seu mecanismo de disparo o faz sensata escolha quando o assunto é Segurança pessoal. Embora nos presentes dias o foco das atenções sejam as semi-automáticas de grande capacidade de munição, o revólver, com apenas 6 tiros, possui a virtude de não deixar o seu proprietário com uma arma "travada" por mau funcionamento durante uma condição de extremo perigo. Se, quando acionado, o revólver percutir uma munição que não dispare, somente será necessário acionar novamente o gatilho para se alinhar outra munição pronta para uso. Em tal situação, muitas armas semi-automáticas podem tomar preciosos segundos para se sanar a falha e estar novamente em condição de emprego. Por esse motivo é que muitos policiais veteranos ainda optam pelo revólver no combate urbano, por sentirem mais confiança no seu mecanismo e funcionamento.

É certo que a pouca capacidade de munição dos revólveres, frente às pistolas semi-automáticas, os fazem alvo de algumas críticas em termos de emprego tático em defesa. As condições de Tiro Defensivo são as mais variadas possíveis e muitos preferem confiar em armas de grande capacidade de munição ao invés de enfrentar situações com a "desvantagem" de possuírem apenas 6 tiros.

Outro ponto de crítica é quanto ao volume apresentado pelo revólver frente a nova geração de pistolas semi-automáticas super compactas. Neste ponto, não há muito o que se fazer, pois não se pode reduzir mais o perfil de um revólver sem reduzir também o número de tiros em seu tambor. Porém, um snubby de 2 polegadas, por exemplo, cabe em qualquer bolso de calça, pasta ou mala, servindo bem como arma de porte dissimulado.


2- Qual tipo de arma é mais segura: revólver ou pistola?
Em toda a longa historia de desenvolvimento do revólver, seu mecanismo interno sofreu aperfeiçoamento constante no sentido de torná-lo cada vez mais um mecanismo confiável e seguro de emprego. Mas nem sempre foi assim e muitos revólveres de concepção e projeto mais antigos eram verdadeiras "armadilhas" em termos de disparos acidentais.

Com o aparecimento das armas semi-automáticas no início do século, o revólver tradicional começou a ser comparado perante um mecanismo de operação mais sofisticado e ao mesmo tempo complexo de manejo, mas que possuía diversos sistemas de segurança. Esses sistemas de segurança em armas semi-automáticas expunham mais as falhas do revólver quanto a ser mecanismo confiável para o usuário, forçando uma efetiva evolução.

Diversos sistemas de bloqueio do mecanismo de disparo foram desenvolvidos ao longo dos anos visando evitar o acionamento do revólver por crianças ou pessoas desautorizadas. Travas de mão, do tipo empregado nas pistolas Colt, e fechaduras especiais, se somaram aos vários sistemas bloqueadores inventados para tornar a guarda e manuseio de revólveres mais seguro. O mais recente desenvolvimento foi apresentado pelas Forjas Taurus, que bloqueia o cão do revólver pelo simples travamento do acionamento do cão da arma, fazendo uso de uma chave especial.

O mecanismo de disparo de um revólver moderno é hoje tido como algo altamente desenvolvido em termos de segurança, pois seu projeto incorpora formas de bloquear o disparo da arma em caso de queda acidental ou percussão da munição sem que seja intencionalmente acionado o gatilho. Com isso, o revólver pode ser considerado um mecanismo de emprego seguro, desde que sempre mantido em suas características originais e em bom estado de conservação.


3- Disparos em "seco" afetam o mecanismo?
Houve épocas em que o cão de um revólver tinha o pino de percussão como uma extensão fixa de seu corpo. Assim, o impacto da percussão era transferido diretamente para a espoleta da munição, garantindo mais confiabilidade de sua ignição. Isso também significava que, sem munição na câmara, o cão e seu pino percussor batiam por inteiro no chassi da arma, muitas vezes quebrando-se em partes devido às precárias técnicas de têmpera daquela época. As técnicas de têmpera e a qualidade dos materiais mudaram muito durante os quase 170 anos de desenvolvimento do revólver, mas o medo de se disparar em "seco" e ter uma arma danificada permaneceu até os dias de hoje.

Com os excelentes sistemas de disparo e a qualidade dos materiais encontrados nos dias de hoje na maioria das armas (revólveres ou mesmo pistolas) é plenamente seguro o disparo em "seco" sem o comprometimento da integridade do mecanismo. O único senão é feito quanto às armas em calibre .22 de fogo lateral (rimfire) pois nesse tipo de munição a forma de ignição da espoleta se dá na lateral do estojo e o pino percussor deve "picotar" a borda do mesmo tendo a beirada da câmara como anteparo. Repetidos disparos em "seco" com armas em .22 "Rimfire", nos tradicionais calibres .22 Short, .22 Long Rifle ou .22 Magnum, resultarão, invariavelmente, em deformação da lateral da câmara pela "batida" direta do percussor sem o amortecimento da borda do estojo.

Quanto aos revólveres de fogo central, o disparo em "seco" é até recomendado por alguns especialistas tais como o famoso Atirador John Saw e o articulista Dick Metcalf, da conceituada revista norte-americana "Shooting Times". De acordo com essas abalizadas opiniões, o tiro em "seco" é indicado como a forma mais racional de "acomodar" o mecanismo de disparo em armas novas além de servir como excelente treino para o Atirador, ao habituá-lo com o "peso" e curso de acionamento do gatilho. Mesmo assim, deve-se recomendar parcimônia nesse tipo de atividade, pois o mecanismo de disparo e a estrutura da arma estarão sendo exigidos de uma forma para a qual não foram necessariamente preparados.


4- O que é melhor: percussor fixo ao cão ou flutuante?
Nos presentes dias existem dois sistemas de percussão num revólver: o direto, representado por armas do tipo Smith & Wesson e Rossi, e o sistema de percussão indireta ou flutuante, encontrado em armas da Taurus, Colt e Ruger, por exemplo.

No sistema de percussão direta, o pino percussor localiza-se no cão, como nas antigas armas dos séculos XIX e XX, mas possui movimento suficiente para impedir que se quebre quando percutir uma câmara vazia. Quando liberado pelo gatilho, o cão e seu percussor atingem diretamente a espoleta. No caso do sistema de percussão indireta o cão atinge uma barra de transferência, a qual transmite o impacto para um pino percussor flutuante que detonar a espoleta.

O sistema de percussão direta é confiável no sentido de se poder atingir a espoleta mesmo quando a arma estiver com excessiva sujeira ou com sua mola-mestra fraca. Por outro lado, o sistema indireto se apresenta como mais lógico de construção e menos sujeito a quebras. Ambos são sistemas igualmente confiáveis de emprego e convivem em paralelo, de acordo com a filosofia tecnológica adotado pelas empresas que o usam em seus projetos.


5- Devo amaciar o gatilho de meu revólver?
Ajustar o gatilho de qualquer arma para atender preferências pessoais é algo plenamente possível e justificável. Como toda máquina de uso individual, o revólver pode receber "afinamentos" que o tornam mais adaptáveis às necessidades de seu usuário, facilitando o emprego. Contudo, certas regras de bom senso devem ser seguidas no "amaciamento" de um gatilho visando garantir resultado positivo, não prejudicar a arma e nem causar acidentes irreparáveis.

Diversos especialistas em Armas curtas recomendam que não se inicie nenhum tipo de "amaciamento" antes da arma disparar aproximadamente 500 tiros. Esses tiros podem ser substituídos por algumas centenas de disparos "em seco" pois a intenção desse trabalho é fazer com que o mecanismo interno da arma se movimente repetidamente, perdendo aquela "dureza" e rebarbas de peça nova recém saída da linha de montagem. Partir para "amaciar" gatilhos de revólveres sem uma etapa de acomodação do mecanismo de disparo pode trazer decepções quanto ao resultado final.

O passo seguinte será estudar junto a um armeiro competente os "pesos" de gatilho desejados sempre tendo em mente que gatilhos excessivamente "leves" são mais adequados à prática de Tiro ao Alvo e podem causar acidentes quando indevidamente empregados. Também se deve alertar que cortar aleatoriamente e sem conhecimento alguns elos das molas internas do mecanismo de disparo pode ser uma fonte segura de dor de cabeça. Como as molas trabalham em equilíbrio, somente um armeiro experiente poderá saber como "aliviar" o peso do gatilho e polir as peças internas de maneira correta. Pessoalmente prefiro revólveres com gatilhos “pesando” 900 a 1000 gramas para ação simples e algo em torno de 4.500 gramas para ação dupla.


6- Porque tiros com munições diferentes causam variações no alvo?
As Armas Curtas reagem imediatamente e em proporção à energia de recuo produzida pela sua munição. Esse fenômeno já foi assunto de extenso artigo com o título "Administrando o recuo" na edição no 31 de MAGNUM. Naquele artigo foi explicado que a variação de concentrações dos impactos com uma mesma arma e munições diferentes está relacionada à ação do recuo. Como o revólver começa a se movimentar tão logo a munição é disparada, o projétil mais pesado leva maior fração de tempo para sair do cano e deixa-lo quando o mesmo estiver em movimento de ascensão. Por outro lado, projéteis mais leves deixam o cano mais rapidamente e tendem, por esse motivo, a se concentrar em pontos mais baixos dos agrupamentos obtidos pelos projéteis pesados. Esse efeito é mais aparente nos revólveres, pois eles possuem uma maior diferença entre a linha do centro do cano e o eixo imaginário do braço do Atirador. Como num mesmo revólver é possível empregar inúmeras variantes de munições em diferentes níveis de potência, é também recomendado que o usuário treine constantemente com sua arma, principalmente se esta for utilizada em Defesa Pessoal e possuir miras fixas.


7- Cano maior tem vantagem?
Essa questão será sempre relacionada ao emprego destinado a determinada arma. Ninguém deve esperar que aquele seu revólver de 4 polegadas seja um "ferramenta de múltiplo uso" e sirva para a prática de todas as atividades do Tiro. Mesmo os revólveres de constituição equilibrada como aqueles em calibres Magnum e cano de 6 polegadas, terão mais vantagens de emprego em determinadas atividades do que em outras.

Todos sabem que o comprimento de cano pode favorecer o aproveitamento da potência da munição por oferecer mais espaço para a expansão dos gases e aceleração do projétil. Mas daí pensar que um revólver com cano de 8 polegadas de comprimento pode ser a resposta definitiva como armamento de Segurança Pessoal, se afigura como um exagero sem propósito.

Mesmo sendo compactos e de fácil porte e dissimulação, revólveres com comprimento de 2, 2 1/2 e 3 polegadas de cano não conseguem acelerar plenamente sua munição. Por esse motivo não se deve esperar que certas munições do tipo "ponta oca" funcionem com eficiência total, pois esses projéteis necessitam atingir determinada faixa de velocidade para se expandir.

O comprimento de 4 polegadas se aproxima da medida ideal para emprego em situações de Defesa, por favorecer um equilíbrio entre aproveitamento de munição, relativa facilidade de porte e maleabilidade. Embora apresentem desembaraço em ação, armas com canos de 4 polegadas de comprimento somente serão eficientes em caça de médio porte se forem em calibres Magnum. Para Tiro de precisão então, os revólveres de 4 polegadas de cano não conseguem apresentar os mesmos resultados que armas com comprimento superior. O motivo é a menor distância entre miras, que não facilita a precisão em repetidos alinhamentos com o alvo.

Canos de 6 e 8 polegadas são mais indicados para a prática de Tiro Desportivo e Caça, por favorecer a precisão e aproveitamento da potência da munição. Além disso, a maior distância entre miras possibilita um alinhamento justo e repetitivo, necessário para múltiplos disparos num mesmo alvo. Em Defesa, esses comprimentos de cano tornam-se desconfortáveis e de emprego desajeitado, além de serem mais difíceis de porte.


8- Empunhaduras anatômicas valem a pena?
Como acontece com o "amaciamento" do gatilho, a empunhadura de uma arma pode se escolhida ou adaptada para se ajustar às exigências ou anatomia de seu proprietário. Para isso existem diversos fabricantes e artesãos especializados em empunhaduras, oferecendo uma vasta gama de produtos de forma a atender qualquer gosto e orçamento. O assunto foi extensamente comentado na edição no 31 de MAGNUM no artigo "Empunhaduras de Armas Curtas", onde procurei descrever todos os pontos e detalhes desse tipo de componente e apresentar os seus principais fabricantes.

Empunhaduras em plástico, borracha ou neoprene são ideais em "peças de serviço" por resistir a maus tratos e favorecer a aderência na mão da pessoa, mesmo em situações de umidade e "stress". Por outro lado, empunhaduras de madeira são imbatíveis em beleza e acabamento, apresentando ainda a vantagem, nas mãos um bom artesão, de serem adaptadas às necessidades ergonômicas de seu usuário. Pessoalmente, tenho preferência para desenhos do tipo "Combat", com entalhe para dedos, pelo fato dessa empunhadura ser de fácil emprego em qualquer atividade do Tiro.


9- Devo portar uma câmara vazia como forma de segurança?
Isso ainda é um assunto polemico, com raízes na época em que os revólveres tinham percussor fixo no cão e não possuíam sistema de travamento no mecanismo de disparo. Em revólveres "antigos", de fabricação antes dos anos 1970, era mais seguro portar uma câmara vazia, na posição do percussor, de maneira a se evitar que este ficasse em contato com a espoleta da munição e viesse a disparar acidentalmente em caso de queda da arma. Hoje em dia esse tipo de procedimento é dispensável, pois todos os revólveres modernos saem de fabrica com um aperfeiçoado sistema de disparo, portando bloqueadores de percussão, os quais impedem o disparo acidental, a não ser que se esteja pressionando o gatilho.

Algumas instituições policiais do Brasil ainda exigem dos seus membros o porte de suas armas com uma câmara vazia para prevenção de acidentes, visto que esse fato já foi ocorrência relativamente comum no passado. Deve-se dizer que em muitos desses casos de disparos acidentais, a maioria por motivo de queda das armas, o caso se deu com revólveres em má conservação, modelos antigos ou com adiantado desgaste. É certo que, para essas instituições, o uso de uma câmara vazia aumenta a segurança do revólver, mas por outro lado, deixa o policial em situação de desvantagem em questão de volume de fogo frente a bandidagem.


10- Quantos tiros meu revólver "agüenta"?
É comum surgir perguntas tais como "quantos mil tiros posso dar?" ou "meu revólver agüenta tantos mil tiros?". Como qualquer outra ferramenta, o revólver tem um nível de desgaste de acordo com a forma de emprego e grau de conservação. Se o proprietário de uma Arma de fogo somente fizer uso de munição "soft" para Tiro ao alvo, seu revólver (ou pistola) poderá disparar dezenas de milhares de tiros antes de começar a sair dos padrões de tolerância. Se, no entanto, o atirador somente fizer uso de munições "quentes" em sua arma, esta certamente terá um tempo de vida útil menor e deverá ser avaliada periodicamente quanto à exatidão de seu funcionamento. Esse desgaste será mais agravado se o atirador conservar mal sua arma, por desleixo ou por erros nas etapas de limpeza.

Num revólver, o desgaste pode ser observado nas folgas entre o tambor e o cano, além de uma excessiva erosão no cone de forçamento do cano. Outras partes podem ser afetadas, tais como a força de ação das molas e a condição física do pino percussor. No entanto, mesmo com o emprego de munições de alto desempenho, somente será aparente alguma forma de desgaste após 4 ou 5 mil tiros, valor raramente alcançado pelo cidadão comum.

E qual o limite de uma Arma de fogo? O limite de emprego, ou seja, quando uma arma deve ser analisada quanto ao seu desgaste, se dará no momento em que as suas principais partes começarem a apresentar folgas e desalinhamento, comprovando que as tolerâncias normais encontram-se comprometidas. Nesse estágio, alcançado após muitos milhares de tiros, o proprietário deve levar sua arma a um competente armeiro para avaliação, possíveis ajustes e reparos. Como forma de ilustração, já tive em mãos um bem conservado revólver Smith & Wesson com mais de 145.000 tiros, o qual, após o devido recondicionamento, pôde continuar atirando normalmente. De uma maneira razoável, pode-se considerar algo entre 5.000 e 10.000 tiros como um tempo de vida normal para uma Arma de fogo, o mesmo que rodar 100.000 km com um automóvel. E carros com 100.000 km não vão direto para ferro velho, vão?

Duas pequenas histórias ilustram bem as diferenças e qualidades entre revólveres e pistolas semi-automáticas. Durante uma caçada, um companheiro descarregou sua Glock .380 ACP sobre uma capivara em campo aberto e, além de não acertar nada, teve que ficar catando seus preciosos estojos no meio do mato. Nessa mesma ocasião, saquei do meu S&W 686 de 6 polegadas de cano em .357 Magnum e derrubei a capivara com apenas um disparo a 30 metros de distância. Noutra ocasião, um colega da Editora Magnum reagiu a um assalto com seu Taurus snubby .38 Special e derrubou um assaltante com quatro disparos. Como havia outro assaltante e meu colega percebeu que lhe sobrara apenas um tiro, a solução foi correr para atrás de um abrigo torcendo para o 2o assaltante ir embora. Seu snubby se tornou honrosamente uma “arma de cabeceira”, defendendo sua casa, mas na semana seguinte ele comprou uma pistola Bersa de 15 tiros...

Versão atualizada de artigo originalmente publicado na Revista Magnum edição no 42.