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Administrando o recuo

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Como no futebol, quase todos têm opiniões e teorias formadas sobre recuo das Armas de Fogo e como controla-lo. Também como no "esporte bretão", a maioria das observações são controversas, mal embasadas e produzem confusões numa área notadamente complexa pelo número de conceitos físicos e matemáticos.
A Física nos indica que o recuo de uma Arma de Fogo é algo indissociável de uma arma, sendo necessário entendê-lo para melhor conviver com ele. Mas existem diversas definições de recuo, além daquela descrita pela Ciência pois, apesar de ser produzido por máquinas, quem absorve o recuo é um ser humano passível de "sentir", de incontáveis maneiras, o que ocorre durante um disparo.
Para melhor iniciarmos nossa explanação, é necessário destacar duas definições básicas, em relação a recuo, dentre as diversas existentes entre os teóricos do assunto. Primeiro existe o recuo físico, ou energia de recuo quando posto em números, e que representa de forma quantitativa, calculada matematicamente, o que uma arma sofre em seqüência à percussão da espoleta.
O recuo físico pode ser calculado (posto em números) e ser alterado pelas variações do peso da arma e potência da munição. No recuo físico não são levados em consideração fatores ergonômicos e construtivos da arma e mesmo a constituição física e mental do Atirador. Este reage individualmente a determinada combinação arma/munição, de forma que se entende que existe algo que podemos chamar de recuo subjetivo, para melhor definir o que o Atirador realmente sente no disparo. O recuo subjetivo é algo quase impossível de ser medido ou calculado, pois é uma sensação individual, onde uma pessoa pode tranqüilamente absorver o recuo de um disparo que outra pessoa considera excessivo.
Com a junção das duas interpretações sobre recuo, o físico e o subjetivo, teremos as seguintes realidades sobre esse assunto: 1) qualquer variação em tamanho e formato de uma arma ou na carga de sua munição resultará em valores diferentes que o Atirador terá que absorver e 2) duas pessoas "sentem" de forma e intensidade diferentes o recuo produzido por determinada arma.
O recuo físico ou energia de recuo tem inicio no exato instante em que o projétil se desloca por ação dos gases em expansão da queima da pólvora. Assim, a velha lei de Dinâmica - ação e reação - é posta em funcionamento e a arma se desloca para trás, obviamente com velocidade e energia menores que as do projétil, dada a grande diferença de massa e conseqüente inércia que existe entre os dois. O problema em absorver energia de recuo está na configuração física das Armas de Fogo, que transferem de forma "desalinhada" o recuo para a mão do Atirador.
Como a energia de recuo irá atuar em linha oposta á saída do projétil, a transferência do recuo é dificultada pelo fato da linha central do cano estar acima da linha do ponto da empunhadura da mão do Atirador. Em outras palavras: o recuo atua no sentido do eixo do cano, mas por existir diferença deste com o ponto médio de empunhadura, ocorre uma "rotação" da arma (para cima), que será maior quanto mais distantes forem as duas linhas. Essa "rotação", em adição a "pancada" do recuo físico, são os efeitos negativos do disparo de uma arma que todo Atirador procura conviver ou reduzir.

EMPUNHADURAS
Que a energia do recuo, ou recuo físico, existe. ninguém duvida. Mas como é possível conviver com ele e como melhor controla-lo? Apesar de não ser preocupação recente, o controle do recuo somente teve especial atenção com o aparecimento da "geração Magnum" de Armas Curtas. Até então, os calibres existentes eram de recuo suportável e mesmo o uso das Armas Curtas não era algo tão intenso como hoje.
Dos vários componentes que encontramos à disposição para amenizar e controlar o recuo, o primeiro a sofrer notável evolução foi a empunhadura. Nada mais natural, pois esse elemento é responsável pelo contato do Atirador com a arma e, consequentemente, importante na transferência da energia de recuo, bem como no controle do disparo. As soluções para problemas tais como a "rotação" da arma, controle do disparo e melhor distribuição da energia de recuo, principalmente nos revólveres de ação dupla, iniciaram-se em conjunto com o aparecimento das primeiras armas de moderna configuração no final do século XIX. Por muitos anos as empunhaduras de fábrica para revólveres de ação dupla consistiam em simples talas de madeira ou borracha vulcanizada que apenas se encaixavam nos recessos do chassi da arma. Essas empunhaduras, presentes em revólveres de ação dupla a partir de 1880, possuíam um perfil muito fino e acentuavam os efeitos negativos do recuo. A evolução foi lenta, pois calibres tais como o .44-40 (ou .44 WCF) e .45 Long Colt, os mais fortes de sua época, não produziam uma "batida" tão rápida e severa que necessitasse de mudanças no desenho das empunhaduras.
O aparecimento das pistolas semi-automáticas não trouxeram "refresco" em termos de desenho, visto que as empunhaduras dessas armas também eram simples talas acompanhando o perfil do chassi da arma. Porém, no caso das pistolas semi-automáticas, os calibres até a metade deste século não produziam um recuo maior que o veterano .45 ACP, de relativo fácil controle.
Entre 1930 e 1935, a Smith & Wesson cria o desenho "Magna" para possibilitar melhor uso dos calibres .38-44 e .357 Magnum, este último muito mais forte em todos sentidos que qualquer outro calibre em uso na época. O desenho de empunhadura "Magna" se diferencia do anterior por ter uma extensão das talas, formando maior área na seção do "ombro" da empunhadura, transferindo assim melhor o recuo para a parte média da mão do Atirador. Esse desenho ainda era de perfil fino e seguia o contorno do chassi da arma, mas tornava o disparo da munição Magnum um pouco mais confortável.
Por volta de 1950, empunhaduras tipo "Magna" eram padrão em quase todas as armas da Smith & Wesson, com exceção dos modelos de chassi N. A empunhadura tipo "Magna" foi extensivamente copiado por todas as fábricas de armas e até hoje continua sendo empregado em armas compactas com calibres pequenos e médios, dadas as características simples e econômicas de seu desenho.
Pessoas de mão grandes não se dão bem com empunhaduras tipo "Magna", principalmente porque esta força o contato do dedo médio com a parte traseira do guarda-mato do revólver. Em alguns casos isso torna o ato de disparar algo doloroso. Com o recuo, o guarda-mato do revólver esmaga a falange do dedo do Atirador, resultando em dor e alterando o comportamento da arma. Por esse motivo, a partir do final dos anos 30, surgiu um adaptador simples, feito de borracha ou alumínio, que era instalado na face dianteira da empunhadura e favorecia o suporte da arma, além de evitar o contato do dedo com o guarda-mato. Muitos policiais da velha guarda ainda são favoráveis ao uso desse adaptador pelo fato de ser possível melhor suporte da arma sem aumentar o perfil da sua empunhadura, mantendo as características de porte dissimulado.

RECUO TIPO MAGNUM
No inicio dos anos 50, o aumento da popularidade e consumo de munição Magnum orienta a Smith & Wesson e a Colt a desenvolverem os seus modelos de empunhadura tipo "Target", de dimensões ampliadas, baseados no desenho criado pelo conhecido Atirador Walter Roper. Esse desenho, hoje familiar em quase todo revólver de calibre médio/forte, segue o perfil da face traseira da empunhadura, fecha a face dianteira, dando suporte ao dedo médio, e se estende na parte inferior, criando mais área de contato e transferência do recuo com a mão do Atirador. O aparecimento de empunhaduras com entalhes para dedos facilitou sobremaneira o correto posicionamento da mão e o melhor controle da arma por evitar que a mesma escorregue numa "pega" mais relaxada. Por isso a Smith & Wesson desenvolveu nos anos 80 o seu desenho "Combat", que praticamente reúne todo o conhecimento da empresa em projetos de empunhaduras. Seu modelo seguinte, o "Round Butt Combat", foi desenvolvido para os modelos M29 e M629 em .44 Magnum, visando dar boa "pega" com um perfil mais fino, agradando aqueles que achavam o desenho "Target" no chassi N muito largo na seção inferior. Como o desenho da empunhadura Round Butt Combat" é bem arredondada na seção inferior, a arma pode sofrer "rotação" na mão do Atirador com mais facilidade, aliviando muito do recuo sensitivo.
Nos últimos anos, as munições não pararam de crescer em potência e, consequentemente, em recuo, mas o controle das armas que portam esses calibres foi facilitado pelo desenvolvimento das empunhaduras em neoprene. Unindo desenhos corretamente ergonômicos com materiais duráveis e "macios", os recuos de monstros tais como .44 Magnum, .445 Supermag, .357 Maximum e .454 Casull puderam ser mais confortavelmente absorvidos.

PESO X RECUO
O peso de uma Arma Curta é importante para reduzir o valor da energia de recuo, mas nem sempre isso é observado, pois sabe-se que muitos preferem pistolas ou revólveres que sejam leves para o porte, mesmo que em prejuízo do controle de disparo. Qualquer um sabe que armas leves recuam mais severamente que as pesadas, em função de que estas oferecem uma inércia maior ao recuo físico. Hoje nota-se que até os revólveres "snubby" são mais encorpados em suas dimensões, visando trazer mais massa para facilitar o controle do recuo. Antigamente um cidadão de "bem" podia se sentir armado com um bom e pequeno revólver em .32 S&W Long; hoje em dia, é normal considerar como padrão de defesa armas em .38 Spl, 9 mm ou .40 S&W, com munição +P e em grande capacidade de disparos.
A relação de peso x recuo também sofreu evolução na sua compreensão e, a exemplo das empunhaduras, foi pressionada pelo aparecimento da "Geração Magnum". Identifico três fases distintas na evolução das Armas Curtas em calibres Magnum: na 1° fase, nos anos 30, não se sabia como o .357 Magnum atuaria com a metalurgia da época e, por isso, foi empregado o chassi N da Smith & Wesson, originalmente destinado a calibres largos como o .44 Special e o .45 Colt. Essa arma, o primeiro Magnum moderno, era pesada, volumosa e de difícil porte, mas relativamente agradável de se disparar.
A 2° fase se inicia em 1956, quando é lançado o modelo 19 da Smith & Wesson, revólver em calibre .357 Magnum montado no chassi K, de configuração média, muito empregado em armas que calçam munições convencionais tais como .38 SPL, .32 S&W Long e .22 LR. Esse arma tornou-se o padrão clássico de revólver Magnum até os dias de hoje e ajudou a difundir essa classe de munição, graças ao seu menor peso, em relação ao chassi N, e a praticidade de uso e porte. Os problemas se iniciaram com o aumento do consumo de munição .357 Magnum, pois era idéia presente nos anos 50/60 que o proprietário de um M19 praticasse com munição .38 SPL, reservando o .357 Magnum para uso especifico. Como os proprietários do revólver M 19 faziam uso constante de cargas Magnum, esta acelerava o "stress" tanto da arma quanto da mão do Atirador.
Nos anos 80, surge a 3° fase de armas Magnum com o lançamento do Smith & Wesson M 586 - chassi L - que mantinha as boas características de ergonomia de empunhadura do chassi K, aumentando porém a dimensão geral de diversas seções da arma com a intenção de se obter maior massa e peso. O Modelo 586 e outras armas de sua classe não são necessariamente fáceis de se portar, mas tornam o disparo de munição Magnum muito mais aceitável e controlável, mesmo para Atiradores inexperientes. Atualmente encontramos muitas modalidades de tiro, como lPSC e Silhuetas Metálicas, que empregam munições potentes e necessitam do efetivo controle da arma e redução do "stress" físico do Atirador. Nesses casos, é quase imperioso que os revólveres e pistolas semi-automáticas tenham adequado peso para reduzir os efeitos nocivos do recuo produzido pela sua potente munição. O peso dessas armas de uso esportivo, aliado a um bom desenho de empunhadura, possibilita que um determinado Atirador dispare 500 tiros seqüenciais de .45 ACP, com carga fator maior, ou duas séries de 40 tiros de .44 Magnum em Silhuetas Metálicas sem precisar colocar a mão num balde de gelo no final.
Modalidades como o NRA e Saque Rápido fazem uso de armas cada vez mais pesadas, não tanto para absorver o recuo mas também para manter a arma constantemente em linha de visada, reduzindo a sua tendência de "rotação". Para essas modalidades, é muito importante o rápido alinhamento de miras e o peso da arma "absorve" parte do recuo da munição.

COMPENSADORES
Compensadores de tiro são elementos relativamente novos e formam uma opção extraordinária de controle da "rotação" de uma arma. O primeiro sistema a apresentar resultados práticos foi o famoso Mag-na-Port, que nada mais era do que um conjunto de orifícios ou rasgos, nos últimos centímetros do cano, por onde escapavam os gases em expansão derivados da queima da pólvora. Como os rasgos eram direcionados para cima, o escape de gases forçava a arma a manter seu cano para baixo. Comparando-se duas armas idênticas em modelo, peso, calibre e comprimento do cano, aquela que tivesse executado o serviço de Mag-na-Port teria a redução do efeito de "rotação" em torno de 30 a 35%.
Mas deve-se observar que o Mag-na-Port, bem como outros sistemas de compensadores, não reduz o recuo físico e sim o recuo subjetivo, por forçar a linha de recuo da arma a estar mais próxima da linha média de empunhadura.
O lPSC foi a modalidade de Tiro que mais evolução apresentou em matéria de sistemas de compensadores. Alguns destes apenas se apresentam como peças malucas, com desenhos mais exóticos que eficientes, mas muitos são realmente eficientes, ajudando no controle do efeito de "rotação" da arma. No caso desses compensadores, os gases da queima da pólvora também são usados mas, diferentemente do Mag-na-Port, esses gases chegam numa câmara no final do cano, onde são finalmente direcionados.
Nesses compensadores nota-se mais eficiência quando combinados com calibres de grande velocidade e volume de gases, tais como o 9 x 11mm, .38 Super e o .40 S&W. O bom e velho .45 ACP somente produz resultados com projéteis de 185 "grains", que consome mais pólvora, produzindo gases em maior quantidade e com mais velocidade de expansão. Deve-se realçar que sem velocidade e volume de gases não existe eficiência no uso de compensadores em pistolas semi-automáticas. Por esse motivo é que considero compensadores em pistolas .380 ACP mais como peças decorativas.
Na área de revólveres, encontramos compensadores em armas destinadas ao Saque Rápido e NRA cumprindo a mesma função dos sistemas empregados em IPSC, ou seja, manter a ponta do cano mais baixa, disparo a disparo. Até recentemente, o único revólver que saía de fábrica com compensador era o Dan Wesson, o qual possuía um elaborado sistema de captação e orientação dos gases incorporado à camisa do cano, destinado a controlar calibres pesados como o .445 Supermag. As Forjas Taurus inovaram no mercado internacional ao oferecer como arma de linha revólveres em diversos calibres com compensador incorporado ao cano, forçando com que outros fabricantes criassem modelos semelhantes. Os revólveres com compensador incorporado da Taurus realmente restringem a "rotação" da arma, resultando numa redução de 30 a 35% na elevação final do cano.

ELEMENTOS DIVERSOS
Como o Leitor pode perceber, o recuo físico pode ser controlado ou orientado através de empunhaduras, peso de arma e sistemas sofisticados de aproveitamento de gases. A isso pode-se juntar diversos outros elementos que aliviam o sensação de "pancada" no momento do disparo. O uso de luvas de tiro, por exemplo, longe de serem um modismo, constituem real auxilio no combate do "stress" palmar provocado por calibres muito pesados em constantes disparos.
As armas semi-automáticas possuem a vantagem de possibilitar a troca da mola recuperadora, cuja resistência pode amortecer a velocidade de recuo do ferrolho. Essas armas também podem receber adição de "choke buffer", que é uma pequena peça de borracha instalada no tubo-guia da mola recuperadora e evita a pancada de metal contra metal no fim de curso do ferrolho.
Outro estratagema no combate do recuo é a escolha da correta carga da munição, pois é aqui que toda a ação se inicia. De maneira simplificada, pode-se dizer que entre um projétil pesado e um leve, montados para um determinado padrão de potência, existe igual valor de energia de recuo. Porém o projétil leve, por produzir energia de recuo por um período de tempo menor, ou seja, sai mais rápido da arma, produz recuo subjetivo menor que a munição com projétil pesado. Isso explica a procura por projéteis leves em certos calibres de IPSC, como por exemplo o .45 ACP e o .40 S&W. Essa relação de peso do projétil e tempo de deslocamento no cano nos favorece responder uma questão muito comum: um projétil pesado concentra num alvo abaixo ou acima das concentrações de um projétil leve? A questão também está relacionada ao recuo, mas deve ser respondida em duas condicionantes de distância. Em médias distâncias, o projétil pesado e lento tende a agrupar num ponto acima do alvo, pois leva mais tempo para se deslocar e sair da arma, enquanto esta já se encontra sofrendo o efeito do recuo, portanto com o seu cano em elevação. Como o projétil leve sai mais rapidamente da arma, o cano desta ainda não se elevou muito e a concentração se dará num ponto mais baixo no alvo. Em distâncias maiores, a situação se inverte, pois o projétil pesado e lento "cai" mais rapidamente que o projétil leve e rápido, marcando o alvo em ponto inferior ao deste último. E óbvio que essa breve descrição teórica está ligada as velocidades de saída e perfil aerodinâmico dos projéteis, mas serve para explicar o porquê das diferenças de pontos de impactos com armas de miras fixas.
Uma última pergunta que, imagino, seja geral : qual arma recua mais: revólver ou pistola? Para responder, usarei uma interessante experiência realizada pelo "staff" da conceituada revista norte-americana "Gun & Ammo". Nessa experiência foram empregados o revólver Ruger GP 100 e a pistola Smith & Wesson M52, que possuem pesos e comprimentos de canos semelhantes e disparam a mesma munição. Analisadas em laboratório, ao atirar com munição .38 SPL canto vivo, a pistola M52, por contingência do funcionamento de seu ferrolho, obteve um efeito de "rotação" 17 a 18% maior que o revólver. Quanto à energia de recuo, ambas as armas eram idênticas, mas os integrantes do teste notaram um recuo subjetivo de 10 a 20% maior no revólver. Moral da história? "Na prática, a teoria é outra"!

Versão atualizada de artigo publicado originalmente na Revista Magnum edição n° 31.