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Mecanismos de disparo em armas semi-automáticas

por José Joaquim D'Andrea Mathias


O mecanismo das pistolas semi-automáticas sofreu rápida e progressiva evolução desde o seu aperfeiçoamento no princípio do século 20, principalmente depois que os maiores exércitos do mundo começaram a adotar como padrão esse tipo de Arma curta. Vários sistemas de operação, travamento e alimentação foram desenvolvidos para tornar as pistolas cada vez mais práticas e funcionais. Uma das áreas das pistolas semi-automáticas que recebeu notáveis aperfeiçoamentos foi a dos gatilhos ou mecanismos de disparo. No início complicadas engenhocas capazes de expor o proprietário de uma pistola a situações de perigo, quanto a disparos acidentais, os mecanismos de disparo evoluíram para sofisticados exemplos de maquinaria fina. Atualmente, os gatilhos da modernas pistolas semi-automáticas são tão ou mais confiáveis que os revólveres, aceitam ajustes e são virtualmente seguras em qualquer situação.

 

As pistolas semi-automáticas, quanto ao seu mecanismo ou sistemas de disparo, podem ser divididas em três grupos básicos:

1 - gatilhos em ação simples
2 - gatilhos em ação dupla
3 - gatilhos em situação “ready” (pronto)

Pistolas semi-automáticas que disparam em ação simples são aquelas que tem o seu percussor ou cão “preso” no momento do movimento do ferrolho, quando se manobra o ferrolho para colocar o primeiro cartucho na câmara ou se efetua um disparo. No movimento do ferrolho da arma, seja por ação manual ou recuo de um disparo, o percussor fica retido pelo mecanismo de disparo estando pronto para ser liberado para o tiro seguinte pelo simples pressionamento do gatilho. Atualmente, pistolas em ação simples são mais restritas ao Tiro esportivo, pois na moderna concepção de armas de defesa, tais tipos de gatilho são mais perigosos de se portar “armados” e relativamente demorados de serem preparados para imediato emprego, principalmente se houver falha de munição. Mais recentemente, observa-se que o Exército norte-americano ainda tem certa preferência pelas pistolas modelo Colt, em ação simples, talvez pela tradição e confiança no uso desse armamento ou mesmo pelo padrão de treinamento que se mantém em determinadas unidades militares. Porém, deve-se considerar que o emprego dessa armas em ação simples se dá por militares, em situações de enfrentamento, ataque e não em porte para defesa pessoal.


As pistolas semi-automáticas com gatilhos em ação dupla, a exemplo dos revólveres, podem disparar por ação simples, quando o Atirador deve engatilhar o cão da arma antes do disparo, ou por ação dupla, quando se dispara a arma apenas puxando o seu gatilho. Uma boa parcela das pistolas de desenho moderno opera com mecanismos de ação dupla, principalmente pelo fato deste sistema propiciar maior rapidez de acionamento e segurança de manuseio. No entanto, até mesmo as pistolas com mecanismo de disparo por ação dupla operam por ação simples depois do primeiro tiro. Isso ocorre porque, após o primeiro disparo, ou mesmo quando se manobra o ferrolho para levar munição para dentro da câmara, o cão da pistola fica retido pelo mecanismo de disparo, estando pronto para atuar, bastando o acionamento do gatilho. Essa duplicidade de acionamento muitas vezes surpreende um Atirador novato por ocasionar dois tipos diferentes de posicionamento de gatilho.


O gatilho em dupla ação apresenta alguma dificuldade quando se manobra o ferrolho da pistola semi-automática e se deseje passar o cão do modo “ação simples” para “ação dupla”. Neste ponto, encontramos três situações:


- arma que necessita ser desconectada acionando-se o gatilho enquanto se segura o cão (sistema obsoleto);
- arma com sistema de segurança do tipo “bloqueante”, a qual desconecta o cão fazendo-o bater sobre uma peça interna, travando o percussor (ex. Walther; Bersa);
- arma com sistema de segurança tipo “decoking lever”, onde uma tecla desconecta todo o mecanismo de gatilho e derruba o cão sem bloqueá-lo para uma posterior utilização (ex. SIG Sauer, Taurus, HK, Smith & Wesson).


As pistolas semi-automáticas com mecanismo de disparo do tipo “ready”, são representadas pela geração das armas Glock, Springfield XD e S&W Sigma, onde o percussor permanece retido, após o movimento do ferrolho, num meio caminho para atingir a munição. Como o percussor já se encontra “semi-recuado”, basta um curto acionamento do gatilho para recuar o restante do circuito e liberar o disparo da arma. Esse tipo de mecanismo de disparo é extremamente engenhoso na sua concepção, embora não tenha a mesma flexibilidade que os gatilho em ação dupla.


Gatilhos e empunhaduras
Das seções que compõe a empunhadura de uma moderna Arma Curta, a primeira que o Atirador provavelmente irá se defrontar é o “comprimento de puxada”, termo que representa a medida tomada do gatilho até a face traseira da empunhadura, no ponto de apoio da mão da pessoa. Numa arma de ação dupla, deve ser observado que existem duas posições diferentes de gatilho e, consequentemente, duas situações ligeiramente distintas de posicionamento do dedo indicador e da mão do Atirador. Assim, o “comprimento de puxada” depende do fato de uma pistola semi-automática estar sendo disparado em ação simples ou ação dupla. Muitas vezes uma boa posição do dedo indicador para disparo em ação simples, quando o gatilho está todo recuado, pode ser longa para disparo em ação dupla, podendo também ocorrer o contrário. Em realidade, o limite de “comprimento de puxada” é fornecido pelos contornos da própria estrutura da arma, a qual chamamos de “perfil traseiro” e “perfil dianteiro” da empunhadura.

 

Como na maioria das pistolas semi-automáticas o próprio chassi faz a função de empunhadura, muitas soluções de ergonomia e desenho para controle do disparo tem que conviver com problemas técnicos, tais como, o espaço destinado ao carregador e acesso às teclas de segurança e liberação do ferrolho. Esses detalhes já deram muita dor de cabeça aos projetistas dessas armas, cabendo ao usuário decidir qual pistola se acomoda melhor às dimensões de suas mãos. Se necessário, é possível substituir as talas de empunhadura por outras mais adequadas, da mesma forma que nos revólveres. Em algumas pistolas, tipo Beretta Panther, HK e Springfield XD, não existem talas de empunhadura, mas o "perfil traseiro", aquele que se molda à palma da mão do atirador, pode ser substituído por outras peças de forma e desenho mais ergonômico. Em teste, as modernas pistolas semi-automáticas já são "armas modulares", tal a capacidade de alterações em suas partes, principalmente as empunhaduras, miras e acessórios montados em trilhos.

 

Qual o melhor sistema de gatilho para pistola semi-automática? A resposta dependerá do tipo de uso destinado ao armamento e até o nível de treinamento do usuário. A linha de mecanismo "ready", iniciada pela famosa Glock, parece ser a concepção que mais se desponta no atual mercado. Mas deve-se enfatizar que somente um eficiente treinamento e intimidade com esse tipo de sistema de disparo vai trazer segurança e vantagens ao seu portador.


Texto atualizado do originalmente apresentado no jornal GUN NEWS, edição no 1