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A Caça com Armas curtas

por José Joaquim D'Andrea Mathias


“Handgun Hunter”, ou sua tradução simples para o português como “Caçador com Arma Curta”, é uma expressão que significa, para muitos, competência, paciência e dedicação na arte da Caça. O Homem dedica-se a Caça com Armas de Fogo a pelo menos 650 anos, ou seja, desde a construção dos primeiros artefatos capazes de disparar projéteis propelidos pela queima de pólvora. No entanto, as Armas Longas desfrutaram durante séculos da posição de favoritas na escolha para a prática da Caça, fosse ela esportiva ou de sobrevivência. Para essa preferência muito contribuía a pouca precisão e potência das Armas Curtas construídas até o início do século 20, mais afeitas à Defesa pessoal e ao combate a curtas distâncias. Entretanto, como todo engenho essencial ligado à atividade humana, as Armas Curtas tiveram uma gradual e efetiva evolução, principalmente no presente século com o advento das modernas pólvoras “sem fumaça” e o desenvolvimento de elaboradas técnicas metalúrgicas. Assim, as Armas Curtas começaram a ser empregadas com mais eficiência no campo da Defesa pessoal, no uso militar, no Tiro esportivo e até mesmo na Caça.


Pode-se afirmar, com poucas chances de dúvidas, que a Caça com Armas Curtas teve o seu início “oficial” quase em seguida ao nascimento do primeiro Magnum em 1935. Antes do .357 Smith & Wesson Magnum, nenhum outro calibre tinha sido desenvolvido ou mesmo extensivamente testado com intenções declaradas para emprego em Caça. A prova dessa afirmação pode ser encontrada nos informativos e comerciais de divulgação da Smith & Wesson, no período de 1935-40, enfatizando o novo padrão de energia e flexibilidade de emprego do .357 Magnum ao comentar suas habilidades de “caçar com eficiência todos os animais de pequeno e médio porte do continente norte-americano”.


O Coronel D. B. Wesson, vice-presidente da Smith & Wesson nos anos 30 e 40 e considerado um dos verdadeiros “pais” do .357 Magnum, pessoalmente caçou por todo os EUA para provar a capacidade de se abater animais (de gatos selvagens a alces) fazendo emprego de um revólver S&W experimental com o novo calibre. O sucesso do revólver .357 Magnum da Smith & Wesson, sua conseqüente fama de calibre poderoso e eficaz e as experiências do Coronel D. B. Wesson serviram para “despertar” o interesse pela Caça com esse tipo de arma, provando que era possível abater diferentes variedades de animais bastando ter uma combinação que realmente reunisse precisão e potência. Outros “experts” iriam posteriormente confirmar a afirmativa da Smith & Wesson ao evoluírem a Caça com Armas Curtas para padrões antes impensáveis.


O universo de armas e munições com potencial para emprego na Caça foi gradativamente expandido com o lançamento dos calibres .44 Magnum (1955), .22 Winchester Magnum Rimfire (1959), .41 Magnum (1964), .22 Stinger (1977), .357 Maximum (1983) e de verdadeiros “monstros” em potência e recuo tais como o .45 Winchester Mag., o 454 Casull, o .50 Action Express e o mais recente .500 S&W. Antes mesmo do início dos anos 70, surgiram as pistolas Contender e Remington XP100, armas especializadas de desenho robusto e capazes de empregar munições tipo “garrafinha” antes destinados apenas aos fuzis. Essa combinação inusitada para a época - pistolas com calibres de fuzis - trouxe nova dimensão à Caça com Armas Curtas por possibilitar tiros extremamente potentes e precisos a longas distâncias.


Atualmente, ao completarmos 73 anos do despontar da “Geração Magnum”, contada a partir do lançamento do calibre .357 Magnum, muita coisa mudou na forma de se empregar uma Arma Curta, notadamente na Caça esportiva. As Armas Curtas não somente passaram a contar com calibres mais poderosos e configurações apropriadas para controlar esse ganho em eficácia como também receberam novos componentes e sofisticados aparelhos de pontaria capazes de melhorar significativamente sua precisão e maleabilidade de emprego. Com isso, muitos Caçadores passaram a visualizar as Armas Curtas como uma forma mais flexível e excitante de exercitar a Caça, trazendo novos horizontes para essa antiga prática humana.


Os “Handgun Hunters”, ou seja, aqueles Caçadores que se dedicam a caçar somente fazendo emprego de Armas Curtas, são uma das “confrarias” que mais crescem no panorama internacional. De acordo com os dados de diversos organismos norte-americanos de controle da Vida Selvagem e Caça esportiva, existem atualmente nos EUA entre 16 e 20 milhões de Caçadores, sendo que aproximadamente 3 milhões e 600 mil desses Caçadores são especializados em Armas Curtas ou fazem exclusivo emprego dessa categoria de arma. São, seguramente, números expressivos e que confirmam uma forte preferência pelo emprego das Armas Curtas em campo, uma prática de Caça considerada muito mais difícil, excitante e dinâmica que outras onde se utilizam Armas Longas.


A razão primária para que tantas pessoas pratiquem a Caça com Armas Curtas reside, possivelmente, no maior desafio e satisfação proporcionado por esse tipo de arma, frente à outras formas de Caça moderna, somado à algumas particularidades e facilidades não encontradas nas Armas Longas.


CONSCIÊNCIA DE CAÇA
Mas, quais as características dessa atividade que a faz ser tão distinta e valorizada no panorama da Caça esportiva? A resposta está na conjugação de diversos fatores e exigências relacionadas com a Caça, os quais são elevados a um grau de exigência muito maior dado ao tamanho e potência média de uma Arma Curta.


Para um Caçador munido de um fuzil de razoável potência, independente de seu grau de conhecimento e destreza, caçar um animal é uma atividade facilitada pela própria configuração de sua arma. Se esse Caçador possuir um fuzil montado com mira ótica ou com calibre de trajetória tensa, basta seguir a trilha de um animal, acha-lo e disparar num ponto sensatamente vital sem a necessidade de ter que se aproximar muito. Para o Caçador com Armas Curtas todas as técnicas para localizar o animal, efetuar uma perfeita e dissimulada aproximação e disparar num ponto perfeito para uma morte rápida e eficiente são condicionantes indispensáveis para o sucesso da caçada. Obviamente, essa afirmação não tira o mérito, as vantagens e as qualidades das Armas Longas, mas é uma forma de explicar o nível de dificuldade (e até o motivo da sedução) apresentado pelo emprego de Armas Curtas na Caça.


Como um desafio, a Caça com uma Arma Curta, seja ela um revólver, pistola de tiro singular ou uma pistola semi-automática, força o Caçador a ser mais integrado, informado e consciente do meio em que está adentrando, ser conhecedor do tipo de animal que esta caçando, estar bem treinado com sua arma e, finalmente, paciente e disciplinado para efetuar um bom tiro. Em suma, uma reunião de todos os predicados que o bom Caçador deve ter.


A prática da Caça esportiva com responsabilidade exige muitos esforços por parte do Caçador, a começar com o estudo dos hábitos e características do animal escolhido e seu meio ambiente para não se contar apenas com a sorte no momento da caçada. O tipo de animal, seus costumes e habitat irão influenciar na arma e no calibre a ser escolhido e mesmo na forma de se encontrar a presa. No caso da Caça com Armas Curtas, essa escolha fica mais complexa pelas relativas limitações em alcance, precisão e potência desse tipo de arma. Caçar um cervo em pleno descampado, por exemplo, somente será possível se o Caçador contar com um revólver ou pistola bem regulado, em calibre razoavelmente potente e miras óticas de excelente qualidade. Por outro lado, disparar quase “a queima roupa” num pequeno esquilo com um calibre Magnum é certeza de não ter nenhum “troféu”, se não apenas fragmentos, para apresentar a um amigo.


A potência da munição empregada nas Armas Curtas, em geral algo menor que a maioria dos fuzis, também força o Caçador ser mais cuidadoso em dissimular a sua presença no meio. Como é necessário efetuar um disparo em distância muito próxima do animal, as Armas Curtas exigem uma aproximação ou posicionamento cauteloso para não espantar o animal caçado. Além da potência, o grau de precisão de uma Arma Curta exige autocontrole para que se execute um disparo muito bem colocado no alvo, evitando a fuga ou sofrimento de um animal ferido. Para isso, é necessário compreender as capacidades da relação arma-munição escolhida, bem como o conhecimento prévio das técnicas de camuflagem e aproximação, se for o caso, e os pontos vitais a serem atingidos no animal.


Se formos analisar o lado da conveniência, um Caçador com Arma Curta tem mais mobilidade e carrega menos peso durante sua jornada que um Caçador com Arma Longa. Ao transportar seu revólver ou pistola semi-automática num cinturão ou coldre axilar, o Caçador terá as duas mãos livres para transpor árvores caídas, contornar cercas, subir morros, cortar cipós e entrar em locais densamente arborizados. Todas essas atividades ficam algo prejudicadas quando o Caçador carrega um pesado e longo fuzil, além de seu equipamento. Somente quem entrou numa densa floresta atrás de um animal perigoso sabe o transtorno e risco que representa uma arma de cano longo enroscando em cipós, galhos e folhagem.


Em síntese, pode-se afirmar que a caça com Armas Curtas representa uma nova e desafiante alternativa para o desportista que quer adicionar mais emoções nas suas aventuras, valorizando ainda mais o troféu obtido.

Atualização do texto originalmente apresentado na revista Hunter no 12 e no SCI-Brasil