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.380 ACP com "Músculos"?
 

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Se um brasileiro tentar explicar para um norte-americano que a munição "mais forte" legalmente permitida para arma semi-automática de porte no Brasil é o pequeno .380 ACP, certamente receberá uma expressão de espanto e incredulidade. Essa reação é plenamente justificada, pois nos EUA as leis respeitam o direito de escolha do cidadão de bem e a sociedade confia que esse cidadão será responsável pelos seus atos. Para os norte-americanos, o .380 ACP é o mínimo aceitável em defesa pessoal e mesmo assim armas nesse calibre são quase somente empregadas como " backup gun" ou arma de reserva.

Enquanto isso, no nosso país, somos praticamente obrigados a aceitar um calibre comprovadamente anêmico ou marginal para padrões de defesa, forçados por uma legislação que considera existir uma divisão entre "calibres que matam mais e calibres que matam menos". Se somos forçados a conviver com essa situação, ou seja, aceitar o .380 ACP como munição de defesa, o melhor que pode-se fazer é tentar melhorar o desempenho desse calibre e procurar a melhor relação de energia, velocidade e impacto. Críticas a parte, pode-se encontrar qualidades no .380 ACP que facilitam o seu emprego como elemento de defesa pessoal.

Muitos compradores de pistolas em calibre .380 ACP começam a melhorar o comportamento de suas armas de defesa adicionando ou trocando peças e componentes. Mas, mesmo que uma pistola receba um "banho de loja" e venha a se assemelhar a uma "race gun" de IPSC, seu desempenho será sempre condicionado à munição que irá empregar. Infelizmente, não encontramos grande variedade de munições de alto desempenho em nosso mercado e as opções oferecidas pela CBC - Companhia Brasileira de Cartuchos parecem operar na faixa mais "comportada" de velocidade e pressões. Isso não deve ser interpretado como critica à decisão da CBC em trabalhar com padrões "standard" de desempenho, pois entende-se que ainda existe centenas de armas de concepção antiga e precária em circulação e seria temerário fornecer munição de alta pressão para essas frágeis pistolas. No entanto, o brasileiro portador de uma arma nova e robusta ainda não se beneficia de munições com características de última geração, contando apenas com produtos de procedência estrangeira comprado (ou importabandeado) em viagens ao exterior. Das munições encontradas no mercado exterior se sobressaem a fortíssima Cor-Bon, a Federal "Hidra Shock", a Remington "Golden Saber" e a já tradicional Winchester "Silvertip". Nessa seqüência, essas marcas representam o que existe de melhor em termos de munição de defesa no calibre .380 ACP.

Em muitos casos, com emprego de munição de última geração, é possível observar armas em calibre .380 ACP superarem fatores de energia e impacto de outras armas em calibres mais "pesados", como os revólveres "snubbies" em calibre .38 Special, por exemplo.

Todos "experts" em armamento de emprego defensivo recomendam energicamente que no porte da arma se utilize apenas munições de fábrica, muito mais confiáveis de funcionamento pela homogeneidade de suas dimensões externas e padronização de componentes. Respeitando o bom censo, munição recarregada em arma de defesa somente deverá ser aceita como elemento para treino com baixo custo ou último recurso quando não for possível a obtenção de outra munição.

Mesmo não sendo recomendada para porte constante, a munição recarregada apresenta duas características favoráveis ao seu emprego: proximidade com o desempenho da munição de fabrica e a possibilidade de se obter quantidade ilimitada de tiros com baixo custo. O "segredo" de um bom relacionamento com munição recarregada em níveis de alto desempenho é trabalhar com padrões controlados de pressão, escolha de componentes adequados e cuidados nas etapas de recarga.

CONDIÇÕES DE RECARGA
A recarga do .380 ACP não encerra grandes mistérios, sendo muito fácil de se conseguir qualidade e padronização, desde que se escolha componentes de boa procedência. O único ponto de observação mais atenciosa é quanto a tensão do "gargalo" (boca do estojo) onde se fixa o projétil no estojo. Como o projétil tem pouca área lateral para contato com o estojo, é necessário uma calibração ajustada para o seu diâmetro e, de preferência, o auxílio de "dies" para fazer um fechamento tipo "taper crimp". Esses cuidados tem a função de evitar que o projétil seja empurrado para dentro do estojo durante a operação de alimentação da arma, condição muito perigosa pelo aumento tremendo de pressão que pode gerar.

Muitas armas em calibre .380 ACP tem o costume de deformar severamente os estojos, mais especificamente na região próxima do culote. Essa deformação, fruto de câmaras cônicas desenhadas para facilitar a entrada e extração dos estojos, é mais visível nas pistolas Glock 25. Isso exige controle do número de disparos que um determinado lote de estojos pode dar e, em alguns casos, requer "dies" especiais para forçar a calibração total do estojo.

Dado à pouca capacidade interna de seu estojo, o .380 ACP requer o emprego de pólvoras de queima rápida do tipo Bullseye, Red Dot, Winchester 231, CBC 216 e PV-2P. Dessas pólvoras, a mais tradicional e de melhores resultados na recarga do .380 ACP é a Winchester 231, de queima rápida e base dupla. Das pólvoras nacionais, consegue-se bom desempenho com a Imbel PV-2P, Imbel Rex 1200 e a CBC 216, todas de queima rápida e base simples. Destas, destacam-se a Imbel PV-2P e a boa CBC 216 pelas qualidades de constância e alta velocidade. No entanto, essas pólvoras devem ser empregadas com controle e bom censo pois trabalham em altos níveis de pressão de câmara.

Na maioria das cargas destinadas ao .380 ACP não se tem muita margem para erro, pois a pressão obtida é sempre próxima do máximo previsto para o calibre (21.500 CUPs SAAMI). Por esse motivo, é altamente recomendado a redução em 10% das cargas publicadas em tabelas de recarga e aumento progressivo em .01 ou .02 "grains" para acompanhamento do acréscimo de pressão. Nesse ponto, deve-se observar que não adianta procurar carregar o .380 ACP na esperança de se atingir fatores para qual o calibre não foi criado. Se a intenção é reproduzir numa arma em .380 ACP o mesmo desempenho encontrado numa pistola 9 mm Luger ou .38 Super, o mais certo é a troca de arma, pois o risco de se trabalhar em altíssimas pressões de câmara pode ser prejudicial a arma e ao Atirador, quando não forçar um final trágico.

TREINO CONSTANTE
A vantagem possibilitada pela munição recarregada se dará na possibilidade de treinar mais e constantemente com um custo bem reduzido quando comparado com o emprego de munição de fabrica. Tão importante quanto ter uma arma ajustada para as preferências de seu proprietário, com munição de alto desempenho, é a certeza de que numa emergência esse armamento será capaz de acertar o alvo. De nada adianta um tiro de "hidra-super-shock+P+" disparado no vazio quando um tiro bem colocado, mesmo de calibre inferior, poderia salvar a situação. Por esse motivo é que se dá especial ênfase ao treinamento constante com a arma de porte para que esta seja tão íntima de seu proprietário que este tenha certeza e confiança de seu funcionamento.

Junto a este artigo apresento uma tabela de recarga constando diversas cargas de alto desempenho elaboradas para explorar o melhor em termos de "Stopping Power" do calibre .380 ACP. No entanto, essas cargas são produtoras de um maior "stress" nas armas pelo alto nível de pressão com que atuam. Por esse motivo, recomendo a redução de 10 a 15 % em cada carga como forma de se preparar munição de treino menos "estressante" ainda com padrão de alto desempenho.

Armas modernas e robustas, como a Glock 25 e a Imbel MD 1, podem facilmente aturar uma dieta constante de munição de alta pressão. Mesmo assim, deve-se ter em conta que essa prática cobra um custo em durabilidade da arma e ninguém pode afiançar a segurança e controle dessa combinação.

Como forma de treino, recomendo a situação de múltiplos alvos, em número de três, padrão IPSC, dispostos em distâncias variadas de 5 até 10 metros. Essa simulação de treino reproduz uma condição real com múltiplos atacantes quando o Atirador deverá sacar a sua arma e efetuar dois disparos por alvo, procurando concentrar os impactos na parte central. O Atirador deve iniciar o treino com a arma devidamente descarregada e somente partir para tiros com munição real quando tiver total controle e desenvoltura para repetir as operações de saque e visada sem erros ou vacilações. Executado com observação das normas básicas de segurança, esse simples treino irá possibilitar ao Atirador visualizar possíveis falhas de saque ou acionamento da arma e lhe dará condições de sanar os problemas encontrados. Diversas vezes tive a oportunidade de observar Atiradores veteranos, com armas totalmente preparadas, se embaraçarem nesse simples treino, com falhas de acionamento de travas, carregadores soltos, peças que enroscavam em partes do vestuário e mesmo falta de munição na câmara. Se a situação fosse real....

Em resumo, o pequeno .380 ACP, conhecido também como 9 mm Corto, 9 mm Kurtz, 9 mm Short e 9x17 mm Browning Short, embora não seja o calibre dos sonhos da maioria das pessoas, ainda é a melhor alternativa em munição para arma semi-automática de nosso mercado. Com munição de boa procedência e alto desempenho e um adequado treinamento o cidadão pode transformar a sua arma .380 ACP num companheiro fiel e confiável para Defesa pessoal.

 

380 ACP - CARGAS ESPECIAIS
Projétil
[ marca, tipo e peso ]
Pólvora
[ marca e quantidade ]
Velocidade inicial
[ em fps/Arma ]
Comprimento total
da munição
Winchester
85 "grains" SEPO
Carga de fabrica p/ comparação 966 fps
PT-58S
----
Remington "Golden Saber"
88 "grains" EPO
Carga de fabrica p/ comparação 1022 fps
PT-58S
----
CBC
90 "grains" SEPO
Carga de fabrica p/ comparação 847 fps
Bersa M85
----
Federal "Hidra Shock"
90 "grains" EPO
Carga de fabrica p/ comparação 953 fps
PT-58S
----
Cor-Bon
90 "grains" EPO+P
Carga de fabrica p/ comparação 1106 fps
PT-58S
----
Sniper
90 "grains" CH/BPOG
CBC 216
2,8 "grains" lote 156/93
942 fps
Bersa M85
.980"
CBC
90 "grains" ETOG
Rex 1200
3,6 "grains" lote 1
940 fps
PT-58S
.944"
Buffalo
95 "grains" OG/BP
Rex 1200
3,8 "grains" lote 1
980 fps
PT-58S
.944"
Marcondes
97 "grains" EPO/BP
CBC 209
3,2 "grains" lote 137/92
1064 fps
Bersa M85
.940"
Marcondes
97 "grains" EPO/BP
W 231
4,0 'grains' lote L 231107Xf71
1041 fps
Bersa M85
.940"
Marcondes
97 "grains" EPO/BP
CBC 216
2,8 "grains" lote 156/93
972 fps
Walther PPK-S
.940"
Marcondes
97 "grains" EPO/BP
Imbel Tucano
3,9 "grains" lote 49
1094 fps
Bersa M85
.940"
Marcondes
97 "grains" EPO/BP
CBC 207
4,0 "grains" lote 176/93
900 fps
Bersa M85
.940"
Marcondes
97 "grains" EPO/BP
Imbel PV-2P
4,0 "grains"
1066 fps
Bersa M85
.940"
Marcondes
97 "grains" Nylon PO/BP
Imbel PV-2P
4,0 "grains"
1058 fps
Bersa M85
.940"
Celgon
105 "grains" OG/BC
CBC 209
3,0 "grains" lote 137/92
984 fps
Bersa M85
.960"
Celgon
105 "grains" OG/BC
W 231
3,5 "grains" lote L231107XF71
948 fps
Bersa M85
.960"


ATENÇÃO:
Todas as cargas sugeridas nesta tabela operam em níveis de alta pressão. Inicie a recarga reduzindo 0,5 "grains" e efetue acréscimos gradativos de 0,1 "grains" até o valor de cada carga, observando os sinais de aumento excessivo de pressão. O autor não se responsabiliza por erros de recarga e/ou utilização inadequada das cargas sugeridas. Para a elaboração dessa tabela foram utilizados estojos CBC e espoletas Winchester "small pistol".

Texto originalmente publicado na Revista Magnum, edição no 44