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Caça amadora protege espécies ameaçadas

por Roberto Kishinami - O Estado de São Paulo

Cresce no mundo a adoção da atividade amadora para proteção de habitats

A extinção cotidiana de espécies é um grave problema em todo o mundo. Uma comparação entre as práticas de proteção às espécies no Brasil e nos Estados Unidos mostra que os brasileiros têm de repensar o sistema vigente. A começar pelo papel da caça amadora na proteção aos sítios de diversidade biológica. O sistema americano, baseado na caça esportiva, mantém o número de espécies de mamíferos e aves ameaçados estável há mais de duas décadas. No Brasil, onde a caça esportiva é proibida - com exceção do Rio Grande do Sul - esse mesmo número cresce ano a ano. E a experiência em todo mundo mostra que a caça amadora, devidamente regulamentada e controlada, pode trazer a economia de mercado para uma das principais causas da atualidade: conservar plantas, animais e microrganismos para as gerações futuras.

O que faz esse modelo funcionar é um 'ovo de Colombo': a caça amadora exige investimentos grandes - dos caçadores em suas armas e quinquilharias de uso pessoal, dos investidores nos hotéis, nos meios de transporte e nas terras - que só retornam se houver caça durante décadas seguidas. Ou seja: uma vez iniciado o processo, caçadores e empreendedores trabalham para conservar as espécies. O mesmo vale para a pesca esportiva, que o Brasil já experimenta com sucesso no Médio Amazonas.

Não só nos Estados Unidos, mas em todos os países que preservam suas espécies animais e vegetais, funciona esse modelo. Dois exemplos recentes são China e Cuba, que recebem número cada vez maior de caçadores de todas as partes do mundo. Na América do Sul, Uruguai, Argentina, Bolívia e Peru adotaram o sistema. No contexto internacional, o Brasil é uma solitária exceção.

No único Estado brasileiro em que a caça amadora é regulamentada, ela assume características de privilégio. Um erro que pode custar caro às espécies e ao País. Perigo - O Ibama divulgou na semana passada uma lista de plantas e animais sob ameaça de extinção no Brasil. A lista, feita por mais de 200 pesquisadores, usou pela primeira vez os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), principal entidade voltada à proteção de plantas, animais e microrganismos em todo o mundo. No total, estão nessa lista 627 plantas, animais vertebrados, invertebrados, répteis e outro seres vivos com algum grau de ameaça de extinção.

Das diferentes ordens e classes de seres vivos, os mamíferos e as aves são as únicas em que os estudos científicos cobrem a totalidade das espécies conhecidas. Por isso, são as únicas que permitem comparar situações de ameaça a espécies em diferentes países ou regiões do planeta. Nessa lista do Ibama, estão 69 espécies de mamíferos e 153 de aves sujeitas a algum grau de ameaça em território brasileiro.

É a primeira vez que o Ibama divulga uma lista com os critérios da IUCN e a lista anterior, elaborada em 1979, não era atualizada anualmente. Por isso, a lista do Ibama ainda não permite ler uma tendência no número de espécies ameaçadas. Mas essa tendência está na lista da própria IUCN para o Brasil, onde há 81 espécies de mamíferos e 114 de aves ameaçadas em 2001. E mais importante, esse é um número que vem crescendo ao longo da última década.

Como em outras partes do planeta, a principal causa do sinistro crescimento é a expansão agrícola e a urbanização, que desaparecem com os hábitats.

Nos Estados Unidos, a IUCN considera 37 espécies de mamíferos e 55 de aves na mesma situação. Comparados com os números brasileiros, além de menores, os valores americanos estão estáveis pelas últimas duas décadas.

Sistema de proteção - Mas o que produz essa diferença? Com certeza não é porque a expansão agrícola e urbana lá seja menor ou menos agressiva do que aqui. Toda diferença está no sistema de proteção coordenado pelo FWS (Fish & Wildlife Service) e que tem - no caso de mamíferos e aves - a caça amadora como o seu elemento de sustentação humana e financeira. Para entender esse sistema, pode-se começar pelo que a FWS publica na internet (www.fws.gov).

"Respeitando os períodos de caça e seus limites, adquirindo todas as licenças exigidas e pagando as taxas de consumo federais sobre equipamentos de caça e munição, os caçadores individuais (...) contribuem com centenas de milhões de dólares para programas de conservação que beneficiam muitas espécies selvagens, tanto caçadas quanto não caçadas."

Ainda segundo a FWS, a arrecadação de apenas uma das taxas, a Federal Duck Stamp (selo do pato), exigida de todos os caçadores de aves migratórias, já permitiu a compra de mais de 2 milhões de hectares de terras de banhado para constituírem um sistema de refúgio das espécies, caçadas e não caçadas.

A principal diferença entre os sistemas americano e brasileiro está, portanto, na constância com que os americanos investem, ano a ano, na proteção das suas espécies silvestres. Para isso, contam com recursos que vêm diretamente de quem usufrui dos ecossistemas naturais.

Esse princípio, que rendeu US$ 610 milhões em taxas e licenças de caça em 2001, vale também para a pesca e para as demais atividades ao ar livre (caminhadas, biking, canoagem etc.). No total, o governo federal arrecadou mais de US$ 1 bilhão diretamente da caça, da pesca e das atividades ao ar livre, através de licenças e taxas, federais e estaduais.

Os números - Esses valores, entretanto, constituem ainda uma pequena parcela da economia que movimentam na sociedade americana. E são montantes tão significativos que, a cada cinco anos, a FWS realiza um censo da caça e da pesca amadoras e das demais atividades recreativas ao ar livre em território americano.

Na caça esportiva, o último censo FWS, de 2001, identificou 13 milhões de pessoas, de 16 anos de idade ou mais, que gastaram US$ 20,6 bilhões. Uma média de US$ 1.581 por pessoa.

No total, as licenças e taxas foram apenas 3% das despesas. Os equipamentos - armas, barracas, roupas e apetrechos - representaram 50%, enquanto as relacionadas à viagem - hospedagem, transporte etc. - somaram 16% dos gastos.

Por trás desses valores há empregos e investimentos que dependem da conservação das espécies. Sem ela, essa parte da economia não se sustentaria.

Para além dos números, o resultado que realmente importa: nos EUA o número de espécies de mamíferos e aves ameaçados ou em perigo de extinção está estável pela última década. Isso poderia ocorrer também no Brasil. E isso não tem preço

Texto publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo 22/12/2002