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.30 Puma Special - o 1o calibre Wildcat nacional

por José Joaquim D'Andrea Mathias

Numa determinada tarde do longínquo ano de 1991, estávamos eu e o Laércio Gazinhato conversando sobre a próxima pauta da Revista Magnum. Laércio era o Editor Geral da revista e eu gostava muito de discutir com ele assuntos que seriam interessantes para a elaboração de nossos artigos. Nossas reuniões de pauta era um verdadeiro "brainstorm", que geralmente acabava numa divertida coleção de idéias malucas e projetos emocionantes. Num determinado momento, Laércio me perguntou direto: "qual seria o artigo dos seus sonhos, qual realmente lhe realizaria? Já pensou num artigo que lhe completasse como escritor e como atirador?"

 

Fiquei meio surpreso de início, mas esse era um assunto que eu já vinha a muito me perguntado: qual seria o artigo que me satisfaria como atirador e servisse para me deixar realizado como um "gunwriter tupiniquim"? Já havia pensado em teste de armas especiais, relatos de viagens e outros temas, mas nada que despertasse uma verdadeira paixão. Laércio me confidenciou, então, que seu sonho era encontrar uma peça de coleção, um revólver ou uma faca, que servisse para contar uma detalhada história de seu proprietário ou de uma ocorrência importante. Eu ainda não tinha uma idéia formada, mas já estava com a "semente" do artigo-sonho na cabeça.

 

Passado um ano daquela nossa conversa, ambos conseguimos escrever nossos artigos dos sonhos. Laércio acabaria encontrando seu tema ao pesquisar profundamente a história de um revólver Colt Army 1860 muito especial que lhe aparecera e lhe renderia o artigo "A procura de L. S. Blasdel". Eu toparia com uma situação de Caça que inspiraria  na criação de um calibre genuinamente nacional, o .30 Puma Special, que me renderia não um, mas dois bons artigos para a Revista Magnum. Foi um período romântico e muito promissor para o nosso mercado e ainda mantenho excelentes lembranças do meu trabalho na Magnum.

 

Acho que poucos autores tiveram a chance de atualizar um trabalho seu, escrito em outra época, procurando atender a curiosidade de seus leitores. A criação e desenvolvimento do calibre .30 Puma Special (também conhecido por .30 Zeca), foi um dos meus trabalhos mais famosos e reconhecidos pelos leitores da Revista Magnum. Considerado o 1° calibre Wildcat nacional, o meu pequeno calibre já produziu, além dos meus artigos dos sonhos, muitos bons resultados nos setores de Caça e Tiro esportivo. O ".30 Zeca", nome dado pelos meus amigos, também foi responsável por caçadas inesquecíveis e títulos nos principais campeonatos de Silhuetas Metálicas.

Oficialmente, foram publicados dois artigos sobre o .30 Puma Special. O primeiro foi o ".30 Puma Special: 1° Wildcat brasileiro", publicado na Magnum edição n° 29, seguido do "Caçando com o .30 Puma", apresentado na edição n° 38 da mesma revista. Além disso, continuei o desenvolvimento do calibre de forma a aperfeiçoa-lo para as atividades de Caça e Tiro esportivo. Nesse processo, elaborei diversas tabelas e notas sobre as características operacionais do pequeno calibre, com informações e histórias suficientes para a elaboração de outros artigos.

No presente artigo, fiz uma atualização do meu primeiro texto publicado na Magnum, o qual marcou o nascimento oficial do .30 Puma/Zeca, procurando ajustar os dados, lembranças e acontecimentos envolvidos em sua criação e desenvolvimento. Desta maneira, penso estar atendendo muito dos meus leitores, que se comunicam comigo procurando detalhes sobre o calibre e as vantagens de sua utilização no nosso país. Espero que desfrutem da leitura.

O amigo Leitor sabe que o termo "Wildcat" (gato selvagem) se aplica a um tipo de munição não comercial ou "standard" que geralmente é criada a partir de outros calibres. Todo aquele que pratica a Recarga de munição e se aprofunda nessa ciência-arte, cedo ou tarde sentirá o desejo de criar ou adaptar munições para um determinado fim. Isso está ligado à essência da recarga, ou seja, se é possível recarregar munições com desempenho igual ou melhor do que as de fábrica, porque não criar algo superior ou mesmo diferente do convencional?

Os "handloaders", ou recarregadores norte-americanos, criam munições tipo "Wildcat" praticamente desde o início do século 20. Os calibres oficialmente apresentados já somam várias centenas. É certo que dentro dessas centenas de munições "Wildcat", a maioria criada a partir dos anos 50, muitas apenas externam o desejo de seus "pais" de inventar algo diferente e que pudesse trazer de alguma forma fama e reconhecimento. Por outro lado, muitos calibres hoje consagrados, tais como o 7mm/08 Remington, o .35 Whelen e o 7mm BR, entre outros, foram no início "Wildcats", que provaram suas qualidades e se transformaram em munições comerciais.

Basicamente é necessário que três fatores ocorram na elaboração de uma nova munição "Wildcat: 1) a constatação de uma real necessidade de se optar ou superar um determinado desempenho, não possível de se conseguir satisfatoriamente com munições convencionais; 2) excelente conhecimento de recarga de munição por parte do recarregador, incluindo noções de metalurgia, balística interna e externa e o histórico do desenvolvimento de calibres; 3) bom suporte técnico de armeiros, ferramenteiros e equipamentos especiais, tais como cronógrafos, "dies" e estativas, além do acesso à bibliografia especializada. Em suma: é obrigatório que exista necessidade, conhecimento e tecnologia.

Ao consultar a bibliografia existente é possível verificar que 90% dos calibres criados no exterior são destinados à Caça, atividade essa que ainda se encontra, infelizmente, proibida no nosso país. Essa proibição, além das diversas restrições relativas a Armas de fogo, talvez explique o fato de que, oficialmente, aqui nunca se criou uma munição comercial ou "Wildcat" que atendesse às nossas características e necessidades.

O primeiro passo para a criação do calibre "Wildcat", cuja história relato a seguir, foi meu desejo em encontrar uma munição que, junto com a atual Arma longa de Fogo central mais popular do país, materializasse a combinação ideal para o tipo de caça brasileira. Convido-os, portanto, a conhecer a história da criação deste calibre, acompanhando os detalhes de seu desenvolvimento e a saber um pouco do talento dos armeiros e artesãos brasileiros envolvidos no projeto.

CALIBRES & CAÇA
A origem de toda a idéia da criação do meu calibre "Wildcat" teve início com a relativa insatisfação que sentia pelo desempenho de uma de minhas Armas longas. Como milhares de brasileiros eu era proprietário de uma carabina da Rossi Modelo Puma em calibre .357 Magnum, considerada única Arma longa de Fogo central eficiente de nosso mercado. Essa carabina possuía bom desempenho em precisão e potencial, ajudando-me inclusive a ganhar minhas primeiras medalhas na modalidade de Silhuetas Metálicas. Porém, ela apresentava, para mim, alguns defeitos tão irritantes quanto uma verruga no nariz.

De início, seu calibre, criado essencialmente para uso em revólveres, funciona de forma claramente adaptada na arma, pois esta necessita de uma câmara em formato cônico para facilitar a entrada dessa munição. Essa câmara cônica, sendo diferente da dos revólveres, resulta em estojos visivelmente deformados na parte inferior, próxima do culote. Não se trata de um defeito da arma, mas sim o resultado de uma adaptação, pois a principal intenção do fabricante da carabina é torna-la plenamente operacional e não facilitar a vida dos recarregadores.

Os estojos disparados nessa câmara cônica são submetidas a médias e altas pressões e apresentam pronunciada deformação, a qual resulta em drástica diminuição de sua vida útil pelo constante "stress". Alguns truques de recarga reduzem esse "stress", mas a munição poderá ficar com o aspecto de "grávida" por manter a deformação da câmara, impossibilitando sua introdução em revólveres.

Minha carabina Puma em .357 Magnum também encontrava dificuldades na operação de remuniciamento rápido, com a munição "encavalando" na rampa, inviabilizando disparos seqüenciais. Neste ponto basta observar os calibres originais da Winchester 92 (.25-20, .32-20, .38-40 e .44-40), arma inspiradora da nossa Puma, destacando-se que todas elas têm formato cônico. Essas munições, funcionando em perfeita harmonia com o mecanismo de sua arma, facilitam a alimentação e extração das estojos, sem a ocorrência do comentado "stress" na base do estojo.

Outro elemento motivador nessa história foi a experiência de uma caçada realizada ao início de 1991, numa fazenda no Paraguai, não muito longe da fronteira brasileira. Nessa caçada juntou-se bom número de caçadores paraguaios e brasileiros e os animais em vista eram as capivaras, cutias e antas existentes na fazenda. Nós, brasileiros, estávamos armados de carabinas Puma em .357 Magnum, as quais mostraram boa eficiência contra as pesadas capivaras. Numa determinada manhã, um dos brasileiros teve a oportunidade de abater uma cutia adulta e o desempenho da munição empregada possibilitou-me algumas considerações. O disparo fora perfeitamente localizado na paleta do pequeno animal, mas a munição, possuindo energia e projétil mais adequado à defesa pessoal, produziu considerável destruição de carne. Essa ocorrência deixava claro que o potente .357 Magnum agia com eficiência em animais mais resistentes como as capivaras e porcos selvagens mas, dependendo do projétil utilizado, resultava em exagerada destruição contra animais pequenos e frágeis, como as cutias e pacas.

Um pequeno estudo na fauna sul-americana irá nos mostrar que, com algumas exceções, a maioria dos nossos animais é de constituição reduzida, sendo mais correto o uso de munições de calibres "finos", com bom nível de energia mas baixo poder destrutivo.

CONSTATAÇÕES
Durante aquela caçada, outra constatação importante foi em relação às distâncias de disparo, as quais variavam muito, dado o tipo de vegetação da região. Numa situação de caça nem sempre é possível corrigir as miras com rapidez para determinada distância, sendo altamente desejável que a munição produza trajetória tensa o suficiente para cobrir várias distâncias razoáveis, evitando freqüentes correções de miras. O .357 Magnum possui, quando utilizado na carabina Puma, ótima energia e velocidade inicial, porém seus projéteis não são necessariamente os mais aerodinâmicos. A área frontal do projétil .357 Magnum e seu coeficiente aerodinâmico resultam em sensível diminuição de velocidade a 100 metros, produzindo trajetórias levemente "embarrigadas".

Posso supor que, nessa ocasião, surgiu a primeira das condicionantes para a criação de uma munição tipo Wildcat, ou seja, a necessidade. Na viagem de volta da caçada, vim pensando no modelo ideal de munição que, em minha opinião, se adequaria ao tipo de caça encontrado naquela região e na situação de tiro que meu companheiro encontrara. De início, essa munição ideal deveria servir em armas tipo "lever action", como o caso da Puma, e ser em desenho "garrafinha", ou cônico, para facilitar sua fácil operação na arma. Isto estava ligado, de alguma forma, à relativa insatisfação que eu sentia com minha carabina Puma, se bem que ao planejar a substituição de calibres não imaginava nada do tipo "Wildcat".

Minha munição ideal para caça brasileira deveria possuir projéteis leves, em diâmetro .25, .30 ou .32, para propiciar boa aerodinâmica, penetração e baixo recuo. Em relação a valores de energia inicial, a munição deveria ser capaz de produzir algo em torno de 950 libras-pé, valor esse conseguido com a média das cargas de .357 Magnum. A munição também deveria ter seus componentes facilmente encontráveis e a custo baixo para facilitar a recarga. Nesse ponto, eu desejava uma seleção de projéteis e pólvoras que mantivessem a flexibilidade encontrada no .357 Magnum. Minha idéia era obter uma munição que, combinando seus componentes, servisse para atirar tanto numa pomba selvagem quanto numa capivara, sem o risco de destruir o animal ou vê-lo fugir ferido.

Por essa época eu acompanhava com muito interesse, através de publicações norte-americanas, o renascimento do .32-20 (ou .32 WCF) na América do Norte. Esse pequeno calibre tem fervorosos admiradores, pois suas qualidades são facilmente ampliadas através da recarga, para uso em armas de construção moderna. O .32-20 "rejuvenescido" possui energia, penetração, custo reduzido, trajetória tensa e outras vantagens que favorecem-no como opção, nos EUA, para a caça de esquilos, coelhos, coiotes e "javelinas" (queixadas). E fácil notar que algumas das qualidades do " novo" .32-20 se encaixavam no meu perfil de munição ideal e é certo que esse calibre muito me influenciou. Porém, sempre achei que, nesses mais de 130 anos de existência do veterano calibre, era possível apresentar algo semelhante em desempenho, mas de concepção mais moderna, pois o ponto fraco do .32-20 localiza-se no seu antiquado estojo, frágil e passível de poucas recargas.

EM BUSCA DE UM CALIBRE
Decidido a substituir o calibre da minha carabina Puma por outro que se aproximasse de meu ideal, passei a pesquisar algo que fosse possível instalar na arma, respeitando as suas tolerâncias e evitando maiores custos. De fato, não era meu interesse fazer alterações complicadas e caras e, por isso, o culote da munição ideal deveria ser próximo das medidas do culote .38/.357, justamente para não exigir modificações no ferrolho da Puma. Outra dimensão importante era o comprimento total da munição em valor que não fosse superior ao do .357 Magnum, sob risco de inviabilizar sua operação pelo mecanismo da arma.

Estabeleci teoricamente que a pressão máxima de trabalho não deveria ser maior que 50.000 CUPs, entendida como limite máximo suportável pelo sistema de trancamento da Puma. O próprio nível de pressão máxima estabelecido pela SAAMI para o .357 Magnum, 35.000 CUPs, parecia-me ser o mais adequado como limite de operação para a munição ideal. Assim, seria possível desenvolver combinações com razoável margem de segurança.

Havia, é claro, a alternativa de outros calibres, tais como o .256 Winchester Magnum, o .218 Bee e mesmo o bom e velho .32-20 Winchester. Porém, cada um deles apresentava dificuldade na obtenção de estojos e projéteis, o que, em conjunto com algumas outras características particulares, não fazia interessante a opção. Essas e outras condicionantes reduziam drasticamente a lista de calibres candidatos à modificação, de forma que, lentamente, a idéia da criação de uma munição "Wildcat" foi tomando forma e se justificando.

"GATO SELVAGEM"
Ao rever todo o projeto para substituição de calibre, pude notar que aquilo que eu procurava poderia ser descrito como um ".32.20 Super" ou um ".32-20 Magnum" pelo desejo de reproduzir de forma potencializada as características daquela munição. A solução para a viabilização do calibre "Wildcat" me foi possibilitada ao tomar como base a estojo do .357 Magnum, resolvendo os problemas de comprimento e culote. Como no caso do ovo de Colombo, a idéia parece simples, mas só foi possível de ser viabilizada quando, ao trabalhar em outro projeto de recarga, obtive uma estojo .357 Magnum com o gargalo fechado para .312". O projeto era para preparar estojos que suportassem projéteis de cera para tiros de treinamento. Fique muito surpreso quando vi a forma que o estojo de .357 Magnum tomou ao passa-lo por um "die" preparado para reduzir o seu diâmetro. Comparando o novo estojo com os do .30 Carbine e do .32-20, constatei o aumento de volume interno resultante da transformação. O novo estojo, tendo maior volume interno, podia conter maiores cargas de pólvoras, resultando em aumento de velocidade com pressões controladas.

Usando diversos "dies" adaptados e vários projéteis .30 e .32 preparei os primeiros protótipos e, com base nas tabelas do manual da Speer, fiz uma previsão do desempenho do novo calibre. Mas existiam muitas dúvidas nas etapas técnicas envolvidas no projeto e mesmo se este teria sucesso. Buscando trocar idéias, apresentei os protótipos do novo calibre aos amigos do clube Piratininga de Tiro (São Paulo) - certamente a maior concentração de "recargamaníacos" deste país e ao Laércio Gazinhato da Revista Magnum. Todos incentivaram com entusiasmo meu projeto, oferecendo opiniões de como desenvolver o calibre. Para conseguir o necessário conhecimento, outra premissa para a criação de um "Wildcat", contei com minha experiência em recarrecador e a já vasta coleção de livros, manuais e revistas especializadas da minha biblioteca. Assim, iniciei o detalhamento técnico da " 1° Munição Wildcat do Brasil", conforme já intitularam meus colegas da Equipe Magnum.

PROTÓTIPOS ESTUDADOS
Uma das primeiras diretrizes que idealizei na construção do "Wildcat" foi a intenção de se converter estojos de .357 Magnum pela simples passagem destes no "die" calibrador. Após esse formato inicial, bastaria disparar o estojo na câmara da nova arma, realizando o "fire forming" para obter o formato final. O dimensionamento da região do gargalo era, portanto, a parte principal no desenho do "Wildcat".

O diâmetro adotado nos primeiros protótipos fora o calibre .32 (.312"). Porém, numa simples observação dos catálogos de projéteis dos fabricantes norte-americanos, é fácil notar a existência de grande variedade (na época, mais de 50 modelos) de projéteis leves em diâmetro .308". Decidi então adotar o diâmetro do projétil .308", levando em consideração sua maior disponibilidade e também a chance de poder utilizar projéteis em .312". O pequeno diferencial existente entre ambos possibilita o uso de projéteis .312" em canos .308" com bons resultados, o que não ocorre em situação inversa.

Seguindo os conceitos modernos de desenho de estojos, optei por um "pescoço" curto (75% do diâmetro .308") o suficiente para um bom suporte do projétil, deixando o máximo possível do estojo para formação da câmara. Para o "ombro" foi adotado o ângulo de 25 graus, próximo àquele naturalmente formado na 1° operação de calibração. Esse "ombro", somado ao culote do estojo, garante o "headspace" e assegura, em teoria, que a munição esteja corretamente alinhada na câmara da arma, favorecendo a precisão.

Para facilitar a alimentação e extração da munição na câmara da arma, adotei um pequeno diferencial de medidas entre o ponto do "ombro" e a base do estojo, dando uma imperceptível conicidade ao desenho desta. Selecionei a espoleta "small pistol standard" como básica para a munição, pois a pressão máxima de trabalho foi idealizada para ser de 46.000 CUPs, idêntica àquela do .357 Magnum, e isso dispensava espoletas especiais. Neste estágio de minhas pesquisas, eu tinha expectativa de que também as pólvoras consagradas para a recarga do .357 Magnum servissem bem para esse "Wildcat", principalmente as progressivas de base dupla. Dessa forma, seria atendida a expectativa de componentes comuns e facilidade de recarga.

Ao buscar muitas semelhanças e componentes do calibre Magnum, minha intenção era produzir um mínimo de alterações na carabina Puma e aproveitar a grande maioria dos elementos comuns já existentes no meu equipamento de recarga. Isso significa dizer que, para o novo calibre, pode-se fazer uso das estojos, espoletas, pólvoras, "shell holders" e outros itens do .357 Magnum, bastando conseguir um novo cano para a Puma, um jogo de "dies" e projéteis .308".

Ainda no desenho desse "Wildcat", a maior dificuldade foi fixar o comprimento máximo da munição montada, dada a grande variedade dos projéteis .308" e .312". Além do fato de evitar que não fosse ultrapassado o comprimento funcional da munição, também era necessário checar a "invasão" do projétil na câmara da estojo, fato que reduzia a capacidade de pólvora. Por fim, optei por dois comprimentos, o primeiro, de 1.680", para uso específico na carabina Puma e outro, de 1.950", planejando o emprego da munição em armas do tipo monotiro, tais como a carabina CBC de um tiro e pistola Thompson Center Contender. Posteriormente este segundo limite foi alterado para 2.100", visando aceitar os projéteis de 150 e 165 grains, destinados à prática de Silhuetas Metálicas.

Ao fixar o limite de 1.680" para a munição padrão, a seleção de peso e desenhos de projéteis em .308" e .312" ficou localizada na faixa de 85 e 130 "grains", embora possa-se alimentar a carabina Puma com munições montadas com projéteis mais longos (e pesados), visto que, nessa situação, a alimentação da arma se dará de forma manual. Como base para a munição, estabeleci o projétil de 110 "grains" como peso padrão e tratei de estudar todas as cargas comparativas a partir desse valor. Ao confrontar o .30 Puma com os calibres .357 Magnum, .30 Carbine e 32-20 Winchester, todos montados com o mesmo peso de projétil, a minha conclusão foi de que haveria significativo aumento de desempenho com a nova munição, fato que fortificava o meu empenho no projeto.

O protótipo definitivo do "Wildcat", com as tolerâncias, características e previsões de funcionamento ficou pronto em outubro de 1991 e se apresentava mais como uma "versão anos 1990" do .32-20 Winchester, mantendo suas qualidades, mas com muito mais fôlego, flexibilidade e potência.

DANDO NOME AO "GATO"
Enquanto me preparava para a 2° fase, ou seja, a confecção do cano e "dies", achei ser necessário batizar o novo calibre, pois ele era, até então, informalmente chamado de ".30 Zeca", por causa do meu apelido entre meus amigos. O nome do "Wildcat" recaiu quase que por consenso no ".30 Puma Special", pelo fato de .30 ser o diâmetro do projétil, Puma ser a arma que originou todo o processo e Special pelas características do projeto. Também fiquei preocupado que, se inventasse algo do tipo ".30 Puma Magnum", o Exército cismasse com o calibre e dificultasse a sua posterior homologação.

Nesse ponto do projeto surgiu uma dúvida que precisava ser esclarecida para não prejudicar todo o trabalho já desenvolvido: sendo a .30 Puma Special uma munição de solução tão lógica e natural para emprego em armas do tipo "lever action", não poderia existir algo semelhante desenvolvido por algum recarregador estrangeiro? Eu não tinha presunção de supor que minha idéia fosse totalmente original, nunca explorada, pois sabia muito bem o fanatismo que os norte-americanos nutrem por criarem munições "Wildcat". Ocorreu que, em toda a minha biblioteca, não obtive nada parecido na linha do .30 Puma Special, de forma que solicitei aos amigos que me auxiliassem na pesquisa. Eram tempos pré-Internet e a informação se constituía num artigo raro e difícil de se obter.

Por ocasião de uma viagem ao SHOT Show 1992, nos EUA, pude adquirir alguns quilos de livros especializados no assunto "Wildcat", os quais, somados à minha literatura e a de meus amigos, produziram algumas respostas. O universo de recarga nos EUA é algo realmente impressionante e pode-se afirmar que quase tudo relacionado a munição "standard" ou "Wildcat" já foi pesquisado, inventado ou experimentado pelos recarregadores locais. Por isso, fiquei apreensivo (mas não surpreso) quando constatei a existência de duas munições, o .30/.357 Paxton e o .30/.357 Hoskins, criadas com base no estojo .357 Magnum "estrangulado" para projéteis calibre .30. Encontrei referência a esses calibres no volume II do excelente livro "Handbook for Shooters & Reloaders", de P. O. Ackey e no Manual de Conversões de John Donnelly.

Os calibres eram semelhantes na idéia da utilização do estojo, porém apresentavam algumas diferenças importantes em relação ao .30 Puma Special: 1) possuíam dimensões diferentes, inclusive quanto à porção do pescoço e comprimento máximo; 2) eram munições desenvolvidas nos anos 1960 para emprego em revólveres e pistolas especialmente adaptadas e 3) por causa do último motivo não tiveram um desenvolvimento de combinação de pólvoras e projéteis mais completo. Não houve desenvolvimento desses calibres e nem estes se tornaram populares entre os recarregadores norte-americanos. Só posso imaginar que os mencionados "Wildcat" passaram quase desapercebidos dos norte-americanos dada a grande variedade de calibres e armas existentes naquele mercado.

A constatação dos dois calibres semelhantes ao .30 Puma em nada acrescentou ao seu desenvolvimento, pois o meu desenho final já estava definido. As características de formato e desempenho que eu havia imaginado para o meu "Wildcat" suplantavam os calibres norte-americanos, de forma que considerei meu projeto válido. O projeto do .30 Puma Special permanecia original e único em sua concepção de munição "Wildcat" para carabinas "lever action" com base em estojos .357 Magnum e projéteis .30.  Finda a minha fase de pesquisas, era hora de verificar do que era capaz este "gato", ou seja: era momento de converter a minha carabina Puma e finalmente dar o 1° tiro.

DOMANDO O "GATO"
A etapa seguinte, a transformação da carabina Puma, consistia na substituição do cano e a confecção de um jogo de "dies". Para isso, pedi a ajuda de um conceituado amigo especializado em armamentos, o qual, por modéstia e para assegurar sua privacidade, pediu-me para omitir o seu nome nos meus artigos. Com o conhecimento e talento desse amigo, defini as características construtivas do novo cano para a carabina Puma, visando tirar o maior proveito da conversão. Neste ponto é que começa a descrição da necessária tecnologia para a continuidade no desenvolvimento do projeto de "Wildcat".

Estabeleci que o máximo desempenho do .30 Puma deveria ser obtido no comprimento de cano de 22 polegadas, tendo este o diâmetro interno de .308" e passo de raiamento previamente estabelecido em 1:12". Para isso, tomamos por base um cano "em bruto" do fuzil FAL, pois este não só tinha todas as características necessárias de raiamento e diâmetro interno, como também asseguraria a robustez da arma. Para aqueles que não sabem, um cano de fuzil FAL resiste com segurança a pressões internas de até 100.000 CUPs, além de ser elaborado por técnica de martelamento a frio.

Para tornar a carabina mais leve, bonita e, principalmente, precisa, pedi que fosse cortado o carregador da minha Puma para comportar apenas 5 cartuchos. Afinal, já se foram os dias em que se combatiam índios as dezenas e sabe-se que numa caçada raramente são disparados mais de três tiros sobre um mesmo alvo. Além disso, o carregador tem enorme efeito na precisão nas carabinas "lever action". Sua redução deixa o cano mais livre para "vibrar" harmonicamente, reduzindo-se influências negativas no disparo.

Solicitei que a câmara do cano fosse preparada para receber projéteis "spitzers" de até 165 "grains", sendo que adotou-se o mesmo desenho de "gargalo" do .308 Winchester (7.62 x 51 NATO). Além disso, foi definido um valor de tolerância no pescoço da câmara que possibilitaria o emprego de projéteis .308" e .312" na mesma arma. Essa flexibilidade era uma das condicionantes do projeto original e provou-se algo muito prático, posteriormente.

 Meu amigo torneou o novo cano e fez sua instalação, junto com as demais alterações que pedi, em menos de um mês. A carabina transformada, ainda sem acabamento, e o jogo de "dies" ficaram prontos no início de dezembro de 1991, pouco após o nascimento da minha segunda filha - e o Leitor pode imaginar a época de emoções por que passei. O tiro inaugural foi disparado nos estandes do Clube Paulistano de Tiro, zona Norte de São Paulo. Confesso que estava com certo receio no momento do primeiro tiro, pois nem sabia se algo poderia dar errado e a arma estourar na minha cara. A teoria passada à prática tem um quê de aventura e risco. Lembro-me que fiquei encantado (e aliviado) com o correto funcionamento da arma, seu reduzido recuo e a fácil extração do estojo. Naquela tarde de dezembro, o meu .30 Puma Special dava seus primeiros gritos!

O jogo de "dies" era perfeito em usinagem e acabamento e seguia precisamente o projeto da munição. Rapidamente, pude converter 50 estojos de .357 Magnum da marca Midway sem problema algum, somente necessitando da correta lubrificação. Após o "fire forming", os estojos do .30 Puma possuíam a capacidade volumétrica, em água, da ordem de 25,1 "grains". Como o .30 Carbine possui capacidade de 20,5 "grains" de água e o .32-20, 22,5 "grains", pode-se constatar que o .30 Puma Special apresenta 21,9% a mais em volume de câmara que o primeiro e 13,1% a mais que o segundo calibre. Como já comentado, maior volume de câmara significa mais capacidade para pólvora e, consequentemente, maiores velocidades.

Todos os testes e desenvolvimento das cargas do .30 Puma foram realizados no Clube Piratininga de Tiro, localizado no bairro de Perus, zona Noroeste de São Paulo. Esse clube possui mesas fixas de tiro, sala de recarga e um excelente cronógrafo da marca Oehler. Em seqüência à conversão dos estojos, iniciei a combinação dos componentes que já haviam sido cuidadosamente escolhidos na etapa de projeto e pesquisa. Foram selecionados 8 projéteis (metade deles nacionais) e 6 tipos de pólvora. Nos projéteis de chumbo, selecionei três experimentais da empresa nacional Sniper (já extinta), sendo eles de 95, 110 e 130 "grains", os dois últimos com "gas check" em suas bases.

O projétil de 130 "grains" de chumbo se mostrou ser o máximo operacional no .30 Puma Special pela "invasão" da câmara e pela proximidade do comprimento limite da munição montada. Para preservar a precisão e evitar o "chumbamento", fixei como limites de velocidades 1.300 pés por segundo para o projétil sem "gas check" e 1.800 pés por segundo para os demais. Usando pólvoras nacionais de queima média Imbel Rex e Especial de Caça, foi fácil obter as velocidades e precisão para os projéteis de chumbo. Mas a verdadeira grande tarefa estava em desenvolver os projéteis encamisados e definir os limites de velocidade e pressão de câmara do .30 Puma. Eu havia decidido trabalhar com os produtos da Hornady e, durante o SHOT Show 1992, obtive boa quantidade de amostras dos projéteis 85 "grains" HP e 100 "grains" XTP em diâmetro .312", ambos destinados a recarga do .32 Magnum e do .32-20 Winchester. Como experiência para recarga da munição para "single shot", optei pelo projétil Hornady 123 FMJ em diâmetro .310" e também pelo projétil 130 "grains" da Speer, em .308".

Faltava, porém, um projétil encamisado de 110 "grains", que deveria ser tomado como padrão. Não existia nada semelhante no nosso mercado e os produtos estrangeiros eram quase impossíveis de se obter. Assim, desenhei o projétil que eu entedia como ideal para funcionamento na carabina Puma e solicitei ao João Marcondes, da Metalúrgica Marcondes, que produzisse esse projétil de forma experimental. O amigo João Marcondes prontamente respondeu às minhas expectativas e aperfeiçoou meu desenho, criando um excelente projétil semi-encamisado "soft point" com exatos 110 "grains". Esse projétil provaria ser adequado ao projeto e possibilitaria bons resultados em posteriores caçadas.

Com os projéteis definidos, obtive lotes controlados das pólvoras nacionais Imbel Rex 1624, Especial de Caça, BS Thor e as estrangeiras Hercules 2400, H110 e lMR 4198. Dessas, as que rapidamente se destacaram em velocidade e precisão foram a Especial de Caça e BS Thor para os projéteis de chumbo e H110 e Hercules 2400 para os encamisados. Particularmente, a H110 se mostrou excepcional para o .30 Puma Special, conseguindo facilmente as melhores marcas de velocidade e precisão com qualquer um dos projéteis. Diria até que a H110, junta com a Accurate 9 e Winchester 296, são as escolhas mais indicadas para o .30 Puma, dado os excepcionais resultados que esses componentes propiciaram.

TESTES E MAIS TESTES
Os exaustivos testes para a elaboração das tabelas de recarga realizados no estande do clube Piratininga de Tiro trouxeram inúmeras conclusões e descobertas. Em realidade, todas as expectativas de comportamento para o novo calibre foram superadas, pois diversas combinações provaram alto desempenho. Para aproveitar o máximo de cada combinação, montei uma luneta Tasco de 6 aumentos sobre a carabina Puma e somente realizei concentrações em alvos disposto a 50 metros de distância. Creio ter realizado mais de 100 combinações até obter uma tabela bem definida, contendo os limites ideais de utilização de cada projétil e pólvora.

Como nota de segurança, afirmo que uma das dificuldades em se elaborar tabelas para calibres "Wildcat" (os quais basicamente não possuem parâmetros pré-fixados) é saber qual seu real limite operacional. Isto porque, nesse tipo de munição, o recarregador apenas pode contar com os sinais clássicos de pressão para saber o máximo de cada combinação. A ausência de provetes para os ensaios de pressão de câmara exige maior cuidado no preparo das cargas de uma munição "Wildcat". Isto explica o consumo de 5 meses de trabalho e milhares de tiros disparados para elaborar as primeiras tabelas oficiais do novo calibre.


Nas tabelas que desenvolvi, facilmente pude notar que os campeões de precisão eram os projéteis 123 FMJ e o formidável 100 "grains" XTP, ambos da marca Hornady. Esses projéteis agrupavam muito bem a 50 metros de distância e trabalhavam em velocidades altíssimas, sem sinais de grandes pressões. Por falar em velocidade, foi relativamente fácil chegar próximo a 2700 pés por segundo com o projétil de 85 "grains" HP encamisado. Mas este projétil havia sido projetado para operar nas modestas velocidades do .32 Magnum e durante os testes apresentou expansão violentíssima. O projétil praticamente explodia ao tocar o madeiramento de suporte dos alvos, de forma que mantive sua velocidade abaixo de 2.600 fps. Um fato de destaque era a mudança nos pontos de impacto ou concentração de cada tipo de projétil. Os agrupamentos variavam muito em razão dos diferentes pesos e desenhos dos projéteis, fato que me fez considerar que as combinações deveriam mesmo se concentrar em projéteis específicos para controle do ponto de impacto no alvo.

 

Ao finalizar os testes e montar a 1a tabela definitiva, pude confirmar que o projétil da Marcondes justificava a expectativa de componente para carga padrão pois, além de ser muito bem elaborado, seu desempenho em velocidade, energia e precisão fez dele o melhor modelo de comparação perante os outros calibres. Seu bom desenho seria posteriormente aprovado em campo, quando fiz uso da carabina para caçar capivaras na fronteira da Bolívia.

Os projéteis de chumbo se mostraram excelentes para uso em tiros informais e constituem boas opções para caça pequena. Com eles, a carabina Puma apresentou baixíssimo recuo e um custo de recarga capaz de satisfazer a maioria dos recarregadores. Não foi observado nenhum "chumbamento" do cano nas velocidades estipuladas e as pólvoras nacionais provaram serem mais que suficientes para produzirem boas combinações.

Realizei alguns testes adicionais para certificar-me da necessidade de outra espoleta que não a "small pistol standard". Aparentemente nenhuma carga necessitou ou funcionou melhor com as espoletas Magnum ou com aquelas do tipo "rifle", isto, talvez, favorecido pelo desenho "garrafinha" do estojo do .30 Puma Special, que otimiza a queima da pólvora. Também tratei de dar acabamento à carabina, levando-a ao conhecido armeiro Sérgio Pele (já falecido) para instalar uma lindíssima coronha de imbuía e refazer o oxidado das partes metálicas. A carabina ficou um "show", principalmente pela instalação de uma soleira original de metal da Winchester e pelo trabalho de zigrinado elaborado pelo armeiro Sérgio.

Quando fiquei satisfeito com os resultados do desenvolvimento do meu calibre "Wildcat", encerrei a fase de testes, apurei as tabelas e pude escrever o meu artigo-sonho para a revista. Mas, mesmo nesse momento, eu já me preparava para direcionar novas pesquisas com o .30 Puma Special e realizar o seu teste definitivo, ou seja, a primeira caçada com o calibre "Wildcat". Esse foi o tema para o artigo "Caçando com o .30 Puma", que seria publicado na edição número 38 da Revista Magnum, em 1994. Porém, a data de nascimento oficial do .30 Puma Special seria julho de 1992, na publicação do primeiro artigo apresentando o novo calibre. O artigo foi um sucesso e realmente me realizou como escritor técnico e atirador. Enfim, eu conseguira o meu artigo-sonho.

 

Naquele artigo eu já demonstrava o desejo de ver a minha criação ser produzida pela industria nacional. Mas fui frustrado pelas circunstâncias. A CBC polidamente desconversou sobre a possibilidade de produzir a munição e os diretores da Rossi disseram que só estudariam o caso se houvesse demonstração de interesse pelo mercado. No artigo de 1992 solicitei que os leitores me retornassem com cartas para poder apresentar à Rossi e ver meu calibre ser produzido industrialmente. Mas o brasileiro é preguiçoso quando se trata em escrever. Tive dezenas de conversas telefônicas me congratulando pela criação e muitos parabéns dos atiradores nos clubes de Tiro,  mas recebi apenas duas cartas pedindo que a Rossi produzisse uma carabina no novo calibre. Com isso, o .30 Puma Special continuou como munição "Wildcat" e apenas algumas armas foram convertidas por interessados.

 

REALIZAÇÕES
Quando apresentava o projeto do .30 Puma Special aos amigos e interessados, estes me bombardeavam com perguntas técnicas e outras questões sobre o desenvolvimento do calibre. Porém, a única pergunta que me desconcertava era qual minha intenção em sua criação. Sinceramente, não tive aspirações comerciais nem de fama apoteótica. Tive apenas a intenção de criar algo que julgasse mais correto para o emprego numa arma nacional e no tipo de caça brasileira. Muitos afirmaram que meu calibre não teria emprego direto, pois a caça permanece fechada no Brasil. Mas o posterior desenvolvimento do calibre provaria suas qualidades como munição de precisão para a prática de Silhuetas Metálicas, fato que favoreceu o interesse de vários atiradores em efetuar a conversão de suas carabinas e pistolas Contender. Não tenho conta de quantas armas foram convertidas, pois os desenhos do calibre se tornaram público e liberei minhas ferramentas de formação de câmara para quem quisesse se aventurar. Sei, no entanto, que vários atiradores empregaram o .30 Puma/Zeca nas Silhuetas Metálicas e em pequenas caçadas na região sul do país. Não era bem o que eu desejava para o calibre, mas já me satisfaz saber que tem outros atiradores experimentando o meu .30 Puma Special.

Hoje, passado 16 anos do lançamento oficial do calibre, coleciono dezenas de boas realizações com o .30 Puma/Zeca. Empreguei o calibre em diversas caçadas, sempre com resultados excelentes. Já conquistei dois títulos brasileiros e um estadual com minha pistola Contender especialmente preparada. Também conquistei dois títulos internacionais nos EUA, quando venci na categoria Unlimited Standing e Unlimited Any Sight com minha Contender. Continuei a desenvolver outras combinações para o .30 Puma, com outros projéteis e pólvoras nacionais. Cheguei a fazer uma versão com estojo de .223 Remington cortado no comprimento certo, para ser empregado em pequenas carabinas semi-automáticas e pistolas Contender. Enfim, explorei muitas opções para o calibre, buscando conhecer melhor suas características, limites e desempenho. Após o .30 Puma Special, criei ainda mais dois ou três novos calibres, para carabinas "lever action" e pistolas semi-automáticas, mas sem o mesmo empenho que dediquei ao .30 Puma. Não que eu estivesse satisfeito ou desencantado com o universo dos "Wildcats", mas, como diz o ditado: o primeiro amor é o que sempre fica no coração...

Texto atualizado e modificado de material publicado na Revista Magnum e SHOTNET