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Meu tiro perfeito

por David Clifford (EUA) - versão transcrita por José Joaquim D'Andrea Mathias


A maioria das pessoas que tem ou tiveram contato com Armas de Fogo podem se lembrar de situações em que conseguiram disparar um tiro particularmente excepcional e marcante. Esse tiro pode ter sido disparado em alguma competição, durante uma disputa com amigos ou mesmo num momento de descontração onde o atirador consegue uma proeza com sua arma. Atiradores veteranos podem até se esquecer das diversas medalhas e troféus que receberam em sua carreira e caçadores podem não se lembrar de quantos animais já teve o prazer de abater com suas armas. Mas um tiro particularmente difícil ou de excepcional resultado é sempre relembrado por anos como algo marcante e síntese de todo o trabalho de se dominar as técnicas do Tiro.


Por diversos anos tenho participado de provas de benchrest do Clube de Tiro de minha cidade e bem sei o valor de um tiro perfeito. Benchrest é uma modalidade de tiro esportivo que requer precisão em quase tudo, pois fazemos uso de fuzis em calibres específicos para atingir alvos a distância que um atirador normal consideraria pouco lógica. A categoria de minha preferência é a “Hunter”, onde se dispara com fuzis medianamente alterados em alvos dispostos a 400 metros de distância. Existem categorias em que os fuzis são completamente alterados (chamados de “iron monsters – monstros de aço”) e os alvos ficam a espantosa distância de 1000 jardas (914 metros). A competitividade é tão grande que o desempate das provas se dá pela medição entre os pontos de impactos nos alvos, ou seja, o ponto em que o bico do projétil tocou o alvo. Mesmo disparando a grandes distâncias, as marcas se situam dentro de poucos milímetros, daí a necessidade de se obter o máximo em termos de precisão das nossas armas e munições.


Mas atirar em estandes abrigados e com a arma totalmente apoiada em mesas especiais é algo totalmente diferente de se disparar no campo aberto, quando dezenas de fatores podem afetar o bom desempenho de seu tiro. É por esse motivo que sempre que posso faço pequenas caçadas com meu fuzil em fazendas de conhecidos, procurando aperfeiçoar as técnicas de aproximação e tiro em campo.

O SULTÃO
Trabalho na região de Detroit, numa empresa que produz peças para a industria automobilísticas e periodicamente me inscrevo para caçar numa das fazendas de caça existentes na borda sul dos grandes lagos (Michigan, norte dos EUA). Como a procura pelas melhores fazendas é grande e o excedente de meu salário tem que ser disputado com minha esposa, as oportunidades de uma grande caçada se dá a cada 2 ou 3 anos. Nos intervalos das minhas aventuras procuro melhorar meu perfil de atirador, modificando minhas armas de caça e desenvolvendo munições eficientes.


Por diversas vezes, as minhas caçadas se fixaram no veado “whitetail”, um animal que quase beirou a extinção nos EUA, mas que agora se encontra em crescente nível populacional. Mas a minha esperança era poder caça um “elk”, o chamado sultão das montanhas. O elk é um dos maiores cervídeos das Américas, somente perdendo em tamanho e peso para o grande alce. Ele é chamado de “sultão das montanhas” pelo fato do macho reunir um harém com grande número de fêmeas e ter um porte majestoso e imponente, investindo com coragem quando alguém adentra os seus domínios. Eu já estava cansado de caçar os “fáceis” whitetails e meu sonho de conquistar um elk somente esbarrava no seu preço como peça de caça. No meu estado, whitetails se contam aos milhares, mas elks somam poucas centenas, daí o seu alto preço nas fazendas de caça.


Grandes sonhos requerem planejamento minucioso, reserva preliminar de dinheiro, estudo das possibilidades e condicionantes e longas horas de conversa com sua esposa. Mas após 2 anos de planos, consegui a reserva numa fazenda indicada por amigos meus e obtive as licenças necessárias para a grande aventura. Com mais dois companheiros de trabalho fazendo parte do meu planejamento, armas e munições a postos, somente faltava contar os dias para a abertura da temporada de caça.


Quando o esperado dia chegou, fomos trabalhar já vestidos para a viagem, com todas as nossas tralhas embarcadas na perua de um dos meus amigos. Na minha cidade ninguém estranha quando se aproxima a abertura da temporada de caça e muitos vão trabalhar mais parecendo lenhadores que técnicos, engenheiros ou executivos de empresas. Assim, não gastamos tempo retornando para casa para trocar de roupa e logo pegamos estrada quando termina o expediente.


Subir as montanhas da região dos grandes lagos já pode ser considerada uma viagem maravilhosa, pela linda paisagem que se apresenta a cada curva da estrada. E a medida que se distancia das marcas que caracterizam a proximidade das cidades, tudo faz crescer a expectativa do momento de entrar na mata atrás de um belo troféu. No fundo acho que é isso que sempre me fascina numa caçada: deixar para trás as coisas da cidade e entrar na mata, respirar ar puro, ver o verde e me sentir caçador novamente, com os mesmos sentimentos vividos por milhares de gerações de caçadores. Sempre achei que deve haver um elo entre o homem moderno e nossos ancestrais, pois ainda ficamos fascinados quando nos sentamos em frente de uma fogueira ou entramos excitados no escuro de uma floresta atrás de um animal.


Mas eu começava a me sentir estranho a medida que a viagem prosseguia, pois comecei a espirrar e sofrer de uma irritação persistente na garganta. Trabalhar em escritórios fechados tem seu preço, principalmente quando esses escritórios são alimentados por monstruosos sistemas de ar condicionado. Procurei me distrair com a viagem e não pensar em ficar doente. Não quando essa viagem era a aventura dos meus sonhos.


Mas a medida que prosseguíamos no trajeto, comecei a ter calafrios e sentir os primeiros sintomas de que tinha apanhado uma gripe. Quando chegamos na entrada da fazenda de caça, após 10 horas de viagem, eu já tinha certeza de que meus planos seriam atrapalhados por uma seqüência de febre, espirros e dores de corpo, sintomas dessa antiga e estúpida doença. Mas eu estava decidido que uma reles gripe não iria me tirar o prazer de realizar um sonho tão duramente planejado e desejado. Insisti em acompanhar meus amigos no descarregar do carro e no preparo de nossas acomodações na fazenda. No dia seguinte eu estaria melhor e começaríamos a procurar nossos troféus.

FEBRE
Com o raiar do dia minha situação não tinha melhorado. A gripe é uma doença que se não mata nos faz desejar morrer, pois sem remédios adequados o mal estar é quase insuportável. Com febre e espirros constantes, além da dor de garganta que me acompanhava, tomei o café da manhã e pusemo-nos a prepara o equipamento para a primeira saída de caça. Fui apresentado ao guia que me acompanharia, pois por medida de segurança somente saímos em duplas e em setores diferentes da fazenda. Meu guia, um índio de meia idade com um boné de motorista de caminhão e um colete laranja sobre sua roupa camuflada, logo notou que eu estava em ponto de nocaute. Mas insisti com ele que essa empreitada era muito importante para mim e eu iria de qualquer jeito atrás de meu elk.


Com as equipes de caçadores e guias já definidos, saímos da sede por várias trilhas que nos levaria atrás das montanhas e para dentro da parte selvagem da fazenda. Porém, com poucos minutos de caminhada eu tinha noção de que as coisas não seriam fáceis para mim. Minha cabeça doía, meu corpo doía e precisava das duas mão livres para assoar o nariz com o rolo de papel que trouxera da fazenda. A cada assoada de nariz ou ameaço de espirro meu guia diminuía a marcha e virava lentamente a cabeça para mim, talvez pensando o que esse “pateta da cidade” viera fazer ali.


Acho que o único ponto de sorte daquela manhã fora a escolha do meu guia, pois ele demonstrava ser um dos melhores na sua profissão, silencioso o tempo todo e atento no seu trabalho de andar na trilha sem fazer ruído. Meu guia era um elemento da região, talvez um índio puro, a se julgar pela cor de sua pele e pela fisionomia austera e quase indecifrável de sua face. O guia logo demonstrou seu talento de batedor, pois dentro da mata fechada ele me fez estancar e com sinais lentos e calmos indicou algo que se movia por entre as árvores. As pessoas da cidade, talvez por estarem acostumadas a ver milhares de objetos em movimento todos os dias, não conseguem vislumbrar nada que se mova de forma sutil numa paisagem estática de uma floresta. Mas aqueles que habitam a zona rural são capazes de ver até passarinhos se movimentando em galhos de arvores distantes, provavelmente pelo fato de que seus olhos se acostumaram com pouco movimento e sua atenção é logo despertada. No meio da mata, o guia percebeu um excelente elk vagando calmamente e que aparentava não ter se apercebido de nossa presença.


A distância de tiro não poderia ser mais de 100 metros, mas eu mal conseguia ver o elk quanto mais controlar as reações de meu corpo. Procurei me apoiar numa arvore próxima e enquadrar o animal na minha luneta de tiro. Mas a combinação de adrenalina, coriza e febre pareceu-me ser demasiada para mim e o disparo saiu errado, passando por debaixo do animal. Este logo percebeu que a encrenca era com ele e tratou de fugir o mais rápido possível.


Não posso descrever a sensação que senti ao ver que errara o meu tiro! Anos de prática, equipamento do melhor nível e grande conhecimento armazenado tinham sidos desperdiçados num disparo nervoso e errado. Após uma seqüência de espirros pude olhar para o meu guia que nada falava, mas tinha uma expressão na cara que não deixava dúvidas do que pensava. Mesmo sabendo que eu estava com meu desempenho comprometido pela gripe, eu não podia parar de sentir que falhara desgraçadamente num tiro que tinha tudo para ser fácil. Eu tinha falhado!


Batemos as matas e ravinas por mais duas ou três horas, quando tive a certeza de que seria inútil continuar por esse dia no estado em que me encontrava. Assim retornamos à fazenda por volta do meio dia. Após almoçar qualquer coisa que, pela minha doença, mais tinha gosto de borracha, fui me deitar e esperar a noite, quando teria que relatar meu fracasso aos meus companheiros.


As minhas esperanças de que um novo dia me trouxesse melhorias na saúde se desvaneceram após uma noite mal dormida e a constatação de que continuava ruim ao despertar. Pacientemente, meu guia iniciou sua caminhada pela floresta como se nada tivesse ocorrido no dia anterior. Caminhamos por mais de duas horas, quando o guia me acenou, por cima de um crista, para que eu me aproximasse para observar algo do outro lado de uma ravina. A distância era razoável, mas através dos binóculos era possível distinguir um magnífico elk pastando com algumas fêmeas próximo a uma barreira de arvores. Seria um trabalho de aproximação, me disse o guia, pois teríamos que contornar a ravina pelas arvores circundantes, tentando chegar mais próximo do animal e em posição que ele não nos visse e nem sentisse o nosso cheiro.


Por aproximadamente 30 ou 40 minutos caminhamos lentamente por entre as árvores procurando o melhor angulo de visada para atingir o elk. Mas eu continuava a passar mal e o esforço dos dois dias de caminhada agora cobravam o seu preço, pois começava a sentir forte cansaço, dores musculares e vertigens. Mas, por milagre, conseguimos chegar a um ponto quase ideal de tiro, sem que o elk e suas fêmeas se apercebessem de nossa proximidade. A distância de tiro era aproximadamente uns 150 metros, uma sopa para um atirador de benchrest, pensei eu. Porém, eu estava somente em espírito naquela ravina e mesmo esse espírito sonhava com uma cama boa e quentinha. Procurei me acomodar o melhor possível, ajoelhando no meio das moitas, ajustando a bandoleira e a luneta do meu fuzil para se acomodar à posição de disparo. O elk parecia tremer descontroladamente através da retícula da luneta, mas na realidade era eu que tremia. Não conseguia controlar a arma para colocar perfeitamente o meu tiro e isso começava a me desesperar. Num esforço enorme e percebendo que o tempo já se esgotava, puxei o gatilho com a melhor das preces na minha boca, somente para ver galhos caindo por cima das costas do espantado elk. Eu não podia acreditar! Dois erros em dois dias de caçada! O tiro fora imperfeito pelo meu descontrole com a arma, mas nenhuma desculpa me consolaria ou me desculparia perante o olhar desalentado do meu guia. O grupo de elks disparou acelerado para dentro da mata fechada.


A decepção fora demais para mim. Eu não sabia se no meu estado conseguiria chegar até a fazenda e o meu guia me conduziu até uma outra ravina, próxima a uma trilha de pedras, onde ele chamou um jipe da fazenda para nos pegar.

REMÉDIO
Aquela seria mais uma noite insuportável para o meu ego ferido, pois após um primeiro dia infrutífero, meus dois amigos tinham conseguido abater um elk cada um. Embora não fossem troféus de bom tamanho, eram belos exemplares e eles estavam felizes com a suas conquistas. Quanto a mim, procurei não desperdiçar a paciência de todos com um rosário de desculpas para as minhas duas falhas e procurava pensar se talvez meus ancestrais não seriam agricultores em vez de caçadores. Estávamos em volta de uma fogueira no pátio da fazenda e a conversa de todos somente girava em torno das emoções do dia e outras histórias de caçadas. Quanto a mim, procurava ficar imóvel, curtindo a minha decepção e minha inseparável gripe sem prestar muito atenção nas vozes alegres ao meu redor.


Pouco antes das dez, o meu guia chegou tão silencioso como quando andava dentro da mata, mas ele vinha agora acompanhado de um outro homem. Um pouco menor que o guia e bem mais velho que ele, mas certamente um índio, o visitante mais parecia um daqueles curandeiros que se vê nos filmes. O guia se aproximou de mim e disse em voz baixa que nós tínhamos somente mais um dia de caçada e seu tio poderia curar-me para que eu pudesse aproveitar esse dia. Perguntei se ele poderia fazer por mim o que um coquetel de pílulas não tinha conseguido fazer e ele somente me disse que confiasse no remédio de seu tio. O velho índio não gastou muito tempo com apresentações e perguntou apenas quais os meus sintomas e o que eu tinha comido no jantar. Depois seguiu com o seu sobrinho para a cozinha da fazenda, sem grandes comentários. O dono da fazenda olhava toda a ação com um leve sorriso nos lábios e se aproximou de mim quando os dois índios se afastaram. “Sei o que o velho vai fazer por você”- disse-me ele. “Pode confiar no tratamento dele. Nada do que ele fizer vai lhe prejudicar mais do que você já está” – disse-me rindo.


O guia e o velho índio retornaram para o nosso grupo trazendo um copo com uma bebida que mais parecia chocolate quente, pelo vapor que se elevava contra a luz da fogueira. “Tome”- disse-me o velho índio. “O que tem nesse copo?” perguntei. Aqui tem coisas que você pode saber e coisas que não quer saber” – falou o guia. “O que você pode saber é que aqui tem mostarda, raiz forte, alho, folhas de chá e mel. O que você não vai querer saber são coisas que não são da cidade, mas que pode lhe ajudar a sarar.” - disse o guia. “Coisas que não são da cidade” me pareceu algo como unhas de cobras ou chifres de morcego, de forma que decidi não perguntar mais e estimulado pelo dono da fazenda fiz o grande sacrifício de tomar aquela beberagem.


Sem muito mais conversa os dois índios se retiraram e eu fui me preparar para dormir, esperando que a mistura do velho curandeiro realmente funcionasse. Tive uma das piores noites de que me lembro, transpirando muito e com um sono agitado. Acordei antes do raiar do dia com as roupas de cama literalmente ensopadas de suor, mas me sentindo algo melhor. Levantei-me como se estivesse num sonho e fui me barbear. Após o café da manhã e enquanto esperava o guia chegar fui me sentindo melhor, como se tivesse saído de um longo pesadelo e agora retornasse ao mundo dos vivos. A bebida do velho índio tinha dado resultado, afinal!

O ELK
Meu guia chegou sem muitas falas e logo determinamos o setor da fazenda que iríamos percorrer atrás dos elks. Começamos a percorrer as trilha de subida das montanhas e eu ia caminhando ainda com a sensação de entorpecimento nas pernas e braços e um sentido de fraqueza que caracteriza as gripes fortes. Acredito termos passado por umas três ravinas e iniciarmos a subida de uma longa elevação quando o meu guia levantou a mão em sinal de parada. Ele ficou olhando para o outro lado da elevação por alguns instantes, como se esperasse alguma coisa se mexer e lentamente me apontou para uma pequena mancha quase na crista do morro sem árvores que circundava a ravina. Com meus binóculos pude ver que era um elk em lenta caminhada acima. Não era apenas um elk, mas era o maior elk que eu já tinha visto até então e aparentava ser muito velho e grande, a se observar o tamanho de sua galhada e seu andar pesado. Mas a distância era enorme, algo em torno de 500 ou 600 metros e em leve subida. Meu guia sussurrou que seria difícil nos aproximarmos do elk a partir do ponto onde estávamos, pois até o topo do morro era todo descampado e o vento estava a favor do animal, levando o nosso cheiro direto para as suas narinas.


Decidi arriscar tudo num tiro a longa distância e comecei a desmontar minha mochila e ajeitar-me sobre um pequeno monte de pedras. A princípio o guia ficou olhado para o elk protegido pela distância, mas logo se deu conta dos meus preparativos. Novamente, a expressão de sua face falava mais que as palavras e parecia me dizer “você ficou louco de vez?”. Esse guias profissionais são treinados para impedir que um caçador mais inexperiente tente um tiro arriscado em que o animal possa vir a ser apenas ferido. Pelo seu conhecimento, ele deve saber se um determinado caçador tem ou não chances de acertar adequadamente um animal, pois o pior que pode ocorrer numa caçada é procurar por um animal ferido dentro da mata fechada.


Acredito que eram esses os pensamento que passavam pela cabeça do meu guia naquele momento: “Se esse pateta da cidade não conseguiu acertar dois alvos parados em distâncias menores que aquela e em situações mais propícias, o que ele espera conseguir?” Mas quais fossem os seus pensamentos, ele não esboçou nenhuma reação, procurando apenas me observar enquanto eu me posicionava para fazer o meu tiro. Provavelmente achava que seria mais um desperdício de munição.


Tentei não pensar nas decepções dos dias anteriores e não sentir o olhar do guia sobre minha nuca. Minha atenção deveria se ater apenas no que eu sabia fazer bem: um tiro de precisão! Com a arma bem apoiada sobre a mochila procurei mentalizar a distância em que o elk estava e nas condicionantes de tiro. O vento estava fraco e a favor, de forma que pouco interferiria no disparo. O animal caminhava lentamente da direita para a esquerda, subindo o morro, mas apresentando boa parte de sua lateral para minha visada. Calculei que o tiro seria próximo de 600 metros e abri o máximo da ampliação da minha luneta, ajustando a regulagem do paralax para a distância calculada. O calibre do meu fuzil, o .280 Remington, possuía trajetória tensa e precisa em médias distância, mas eu teria que confiar no seu projétil de 165 grains “boat tail” para atingir um alvo a mais de 500 metros com pouca queda e perda de energia.


Com a bandoleira ajustada no meu braço esquerdo e procurando esparramar o meu corpo o melhor possível sobre a relva para dar mais solidez à posição de tiro, comecei a contar mentalmente o tempo para disparo. Eu estava acompanhando o elk em sua lenta caminhada com a retícula da luneta e instintivamente fiz a visada num ponto de sua nuca, próximo à cabeça. Com o andar do elk e a queda do projétil eu esperava que o impacto se desse no meio da sua espádua, conferindo maiores chances de uma morte rápida.


Com o elk na visada não mais sentia a decepção dos dias anteriores e nem o mal estar de minha recente doença. Na minha cabeça somente passavam cenas vividas nas provas e campeonatos que participara e sentia o gosto das minhas caçadas de whitetail. Era um gosto que lembrava a confiança e a emoção de quem aposta com convicção de que pode ganhar. Pensando nisso, puxei lentamente o gatilho sem perder o ponto em que visava. O tiro saiu como um trovão num dia de sol, com o eco retornando de todos os lados da ravina. Rapidamente procurei pelo elk com a luneta e ainda pude ver o tufo de fumaça levantar da espádua do animal e seu tropeço com o impacto. O elk ainda deu dois passos e desabou de frente, tombando de lado com sua majestosa galhada.


Voltei-me imediatamente para o guia e a expressão que vi em sua face seguramente não era a expressão de um índio. Ele olhava para o ponto que parava de se mexer à distância e retornava o olhar para mim com a boca aberta e um olhar de quem não podia acreditar no que via. “Esse safado passou dois dias errando tudo o que atirou e agora acerta um tiro difícil desse” – deve ter pensado. Só então dei um grito que também ecoou pela ravina e marcou o triunfo da conquista do meu troféu.


Desnecessário dizer que meu elk foi recorde daquele ano e seria motivo de conversas em frente de fogueiras por muito tempo naquelas paragens. Quanto a mim, interpretei todo o meu sofrimento como mais um pagamento para receber um troféu que a muito desejava. De todos os tiros que já dei e ainda darei na minha vida, o tiro do elk, o sultão da montanha, será um dos meus tiros perfeitos e, por isso mesmo, inesquecível.


O rascunho desta história me foi passado no verão de 1990, num encontro reservado de caçadores na residência do meu querido amigo Raul Natividade, talvez um dos maiores Caçadores e colecionadores brasileiros. Naquela ocasião, a história do tiro perfeito me foi oferecida para publicação, sendo que somente teria que corrigir o texto, tratar de alinhar as idéias e "romancear" o relato. A oportunidade de publicar essa história é uma homenagem ao meu saudoso amigo Raul Natividade, o qual continua caçando nas eternas planícies...