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SIG Sauer P229

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Um dos meus primeiros artigos na Revista Magnum foi um comparativo entre dois clássicos calibres, o 9 mm Luger e o .45 ACP. Escrito na forma de uma luta de boxe, o artigo apresentava ponto a ponto as qualidades e deficiências de cada calibre, culminando com a conclusão sobre qual seria, na época, a munição mais eficiente para porte pessoal. Era o final dos anos 80 e a discussão entre os dois calibres estava acirrada, visto que o Exército norte-americano decidira substituir o venerável .45 ACP pelo controverso 9 mm Luger. A grande contenda se dava entre poucas opções de mercado, sendo que o .357 Magnum reinava absoluto como munição defensiva mais eficiente (mas não mais prática) para emprego em Armas Curtas. Naquele artigo, o 9 mm Luger aparecia como a melhor opção para munição defensiva, principalmente pelo fato de aproveitar melhor os mais recentes avanços em tecnologia de projéteis de alto desempenho.


Hoje constatamos que muitas coisas mudaram no vasto segmento de Armas de Defesa. O .357 Magnum ainda é visto como uma das munições mais eficientes do mercado, mas existem alguns “recém-chegados” que disputam com suficiente eficácia o título de “melhor opção em defesa”. Já no princípio dos anos 90, um calibre nascido das pesquisas levadas a cabo pelo FBI chegava ao mercado com força total. O .40 S&W poderia ser classificado como o “calibre dos anos 90” tal o efeito que causou no segmento das Armas Curtas, sendo empregado inclusive nas atividades esportivas com o mesmo sucesso encontrado na prática defensiva. Também nos anos 90, outro pequeno calibre nasceria como uma proposta de munição defensiva que viria a desbancar os tradicionais calibres encontrados no mercado. O .357 SIG se destacaria das demais munições pelo seu desenho tipo “garrafa”, à semelhança das munições de fuzil. O destaque também se daria pelo excelente desempenho balístico do .357 SIG, cuja proposta inicial era se tornar quase um .357 Magnum para pistola semi-automática compacta.


Ambos os calibres, o .357 SIG e o .40 S&W, assumem atualmente a mesma posição de contendores que o 9 mm Luger e o .45 ACP tiveram no meu antigo artigo. Nenhuma discussão séria sobre munições defensivas estará completa se não incluir o .357 SIG e o .40 S&W como opções realmente válidas. Então, por que não fazer um comparativo entre os dois calibres para que possamos vislumbrar as qualidades de cada um sob a ótica das modernas munições defensivas? Esta é a proposta deste artigo, fazer um experimento comparativo entre o .357 SIG e o .40 S&W, procurando passar ao leitor as principais características e condicionantes que esses dois calibres apresentam. No entanto, aprimorando mais a idéia, seria ideal que os dois calibres fossem experimentados em armas que possuíssem idênticas particularidades de tamanho, constituição e funcionamento, procurando dar os mesmos parâmetros pa-ra análise das munições. A resposta para essa preocupação está na adoção de uma única arma que faça uso dos dois calibres, visto que o estojo do .357 SIG tem origem no estojo do .40 S&W e ambos são muito próximos em termos de dimensionamento e energia de recuo.


Das diversas pistolas semi-automáticas encontradas no mercado inter-nacional, acredito que a SIG Sauer P229 tem garantido destaque, não somente pelo fato de ser o “berço” natural do .357 SIG, mas também por ser uma digna representante de arma defensiva dos anos 90. A P229 nos serve bem para o propósito de testar tanto o .357 SIG como o .40 S&W, visto que a mesma arma pode disparar os dois calibres, bastando para isso a simples substituição do cano. Assim, a escolha para este artigo não poderia escapar de recair na SIG P229, uma excelente pistola semi-automática que, confesso, faz parte da minha lista de “objetos de desejo”.

O .40 Smith & Wesson
Antes de partirmos para teste em campo, é importante ver um breve histórico de cada munição e observar suas características de funcionamento. Comecemos com o .40 Smith & Wesson, o atual padrão mundial de munição defensiva. Dizer que o .40 S&W nasceu como uma versão reduzida do 10 mm Auto parece ser um desmerecimento ao calibre, visto que muitos especialistas apontavam para o projétil .40 (.400”) como a melhor alternativa entre o 9 mm (.355”) e o .45 (.452”). Mas é bem certo que os testes realizados pelo FBI para escolha da sua munição oficial influenciaram na criação do .40 S&W, mais especificamente nas elaboração das suas características balísticas. O FBI chegou a conclusão que o 10 mm Auto possuía diversas qualidades que o tornava adequado para enfrentar toda a gama de barreiras encontradas no trabalho policial. Porém, sua energia de recuo era excessiva, além do pronunciado desgaste encontrado nas armas que o disparavam. Através de infindáveis testes, os técnicos do FBI ponderaram que uma versão “light” do 10 mm Auto, chamada de “carga reduzida”, seria, pelos padrões do departamento federal, uma munição eficiente em termos defensivo. A Smith & Wesson, que acompanhava atentamente o trabalho do FBI, rapidamente apresentou o seu .40 S&W como resposta às necessidades dos policiais federais. O nascimento do .40 S&W foi, portanto, uma soma de desenvolvimento balístico com oportunismo e esperteza de marketing da Smith & Wesson.


Operando exatamente nos níveis de velocidade inicial e energia da “car-ga reduzida” especificada para o 10 mm Auto, o .40 S&W padrão constava de um projétil de 180 grains deslocado a 980 pés por segundo, uma combinação que provaria ser bem eficiente. O .40 S&W logo se destacou no mercado, não somente pelo empenho da Smith & Wesson em apresentar sua munição como alternativa às munições tradicionais, mas também por reunir as qualidades do 9 mm Luger e do .45 ACP sem apresentar as deficiências destes dois calibres. Comparando-se com os dois clássicos calibres de defesa, o .40 S&W possui a facilidade de servir em armas de alta capacidade, por suas dimensões de estojo, e ter um projétil que une a penetração de uma 9 mm com o impacto próximo de um pesado .45.


Após sua rápida aceitação no mercado de munições defensivas, o .40 S&W começou uma carreira como munição para emprego esportivo (IPSC), sendo suas principais qualidades a facilidade de obtenção do necessário fator competitivo, velocidade de ciclo da arma e baixo custo de componentes para recarga de munição. Mas o sucesso viria mesmo com a adoção do .40 S&W como munição de emprego policial, substituindo, em alguns casos, o 9 mm Luger como opção regulamentar. É o caso da Polícia Militar de São Paulo, que substituiu até as suas pistolas de serviço e metralhadoras de mão em 9 mm Luger por armas em .40 S&W.

O .357 SIG
Do outro lado do ringue (ops!), temos o .357 SIG, que começou sua carreira mais como um elemento exótico em seu meio, mas logo se destacou por suas qualidades. Descontando-se algumas munições tipo “wildcat” ou caseiras, o .357 SIG é o primeiro calibre comercial em formato “garrafinha” a aparecer no mercado de Armas Curtas nos últimos 80 ou 90 anos. Provavelmente, os parâmetros mais próximos para comparação com o .357 SIG sejam os calibres 7,63 mm Mauser, 7,62 Tokarev e 7,65 mm Luger, todos portadores de alto desempenho balístico e do mesmo desenho de estojo tipo “garrafa”. Os alemães, criadores das primeiras pistolas semi-automáticas do mundo realmente eficientes, já sabiam em 1900/1910 que munições tipo “garrafinha” possuíam excelen-tes características balísticas e facilitavam a alimentação das armas, mesmo sob precárias condições. É interessante ver como boas idéias não perecem, mesmo após décadas de aperfeiçoamentos e inovações.


A SIG-Sauer e a Federal atuaram juntas para desenvolver o .357 SIG, apresentado oficialmente ao mercado no verão de 1994. Inicialmente lançado como alternativa para o mercado civil, gradativamente o calibre vem conquistando aceitação em diversas agências policiais e órgãos federais dos EUA. Embora seu emprego não tenha a mesma rapidez de aceitabilidade encontrada pelo .40 S&W, o.357 SIG oferece um desempenho tão distinto que não se pode deixar de analisar suas habilidades balísticas.


O estojo do .357 SIG é algo semelhante ao .40 S&W, visto que o .357 SIG pode ser descrito como um estojo .40 S&W fechado (afunilado) para aceitar um projétil 9 mm (.355”). No entanto, essa simplificação descritiva não é de todo correta, pois o .357 SIG possui um estojo ligeiramente mais comprido (.850” contra .860”) que o .40 S&W, dificultando a pura conversão dos estojos deste último para atender propósitos de recarga de munições. Além disso, o estojo do .357 SIG tem uma construção interna que o habilita a suportar as pressões de câmara na ordem de 40.000 psi SAAMI, enquanto o .40 S&W trabalha no patamar de 35.000 psi, o mesmo que o 9 mm Luger. As demais características construtivas do .357 SIG e do .40 S&W, tais como tamanho e tipo de espoleta, ranhura de extração e diâmetro da base do estojo, são praticamente idênticas.


O .357 SIG e o .40 S&W produzem, com projéteis de 135 grains, idênticas marcas de 500 ft/lbs de energia. Porém o .357 SIG se destaca quando a aplicação da munição exige projéteis com característica de penetração e eficiente expansão. Mas, o principal destaque do .357 SIG é a sua espantosa eficiência balística com reduzidíssimo recuo da arma em disparo. Ed Sanow, famoso pesquisador especializado em Stopping Power comentou sobre o .357 SIG: “A pistola Glock 31 disparando .357 SIG de 125 grains encamisado ponta oca tem o mesmo recuo sensitivo que uma Glock 22 disparando .40 S&W de 180 grains. Com 50% mais energia, o.357 SIG tem melhor penetração tática”.


Alguns autores chegam a dizer que seria mais apropriado comparar o .357 SIG com o venerável .357 Magnum do que oferecer o .40 S&W como oponente. Essa afirmação pode estar baseada no fato de que o .357 SIG foi inicialmente previsto para repetir o bom desempenho do .357 Magnum com projéteis leves de 125 grains. De fato, quando comparado com revólveres portando canos de 4 polegadas de comprimento, uma pistola semi-automática em .357 SIG tem quase o mesmo desempenho balístico. Além disso, uma pistola semi-automática supera um revólver em diversos parâmetros, tais como maior capa-cidade de fogo, compacidade e portabilidade.

SIG-SAUER P229
A pistola semi-automática SIG-Sauer P229 foi apresentada no mercado norte-americano em 1991, inicialmente em calibre 9 mm Luger. Com um ferro-lho constituído em aço inoxidável feito nos EUA e chassi produzido na Alemanha, a P229 é o que se pode chamar de arma globalizada, pois ela é somente montada na América, com partes européias, para ser comercializada em todo o mundo. A P229 é uma evolução da P228 e se situa na faixa de chassi intermediário ou compacto da linha de Armas Curtas da SIG-Sauer. Os calibres a disposição para a P229 são o 9 mm Luger, o .357 SIG e o .40 S&W, sendo que esses dois últimos podem ser empregados numa mesma arma, visto que fazem uso do mesmo carregador, mola de recuperação e sistema de extração. A SIG-Sauer sabiamente comercializa canos suplementares de .357 SIG e .40 S&W para os proprietários de P229 que desejem possuir os dois calibres numa mesma pistola. Trata-se de um formidável apelo de vendas que contrabalança o relativo alto custo da P229 no mercado internacional.


As opções de mercado que concorrem com a P229, principalmente no calibre .357 SIG, são as excelentes pistolas Glock. Mais recentemente, a própria SIG-Sauer apresentou um modelo que vem concorrer ferozmente com a P229. Trata-se da bem elaborada linha SIG Pro, modelo P2340, o qual reúne toda a experiência da SIG-Sauer em armas semi-automáticas de porte pessoal. O modelo P2340 possui chassi de polímero em vez de liga de alumínio da P229. Trata-se de uma evolução tecnológica que se deve ter em consideração no momento da escolha, pois a P2340 tem o perfil mais de uma arma tipo “sis-tema”, onde o proprietário pode modificar ou implementar a pistola com a adição de novos perfis de empunhadura, mini-lanternas e miras lazer.


Pessoalmente, tenho preferência pela P229, por esta ter uma configuração mais tradicional e também pelas suas excelentes características construtivas. Acredito não ser exagerado afirmar que considero a P229 uma das melhores pistolas semi-automáticas já desenvolvidas, extremamente fácil de se usar, bem desenhada, com bom balanço e muito precisa. Por esse motivo, busquei entre colecionadores uma pistola P229 que estivesse com os dois calibres, como forma de possibilitar a confecção deste artigo dentro da intenção de se comparar o .357 SIG com o .40 S&W. Com a posse de uma P229 cedida por um colecionador de São Paulo, o maior desafio seria a obtenção da munição para teste.


A arma cedida para o teste apresentava o ferrolho em aço inoxidável com acabamento negro em Nitron, um tratamento desenvolvido especialmente para a SIG-Sauer, que deixa o metal impregnado com um material que dá aparência fosca e resistência à ferrugem e a abrasão. É na empunhadura da P229 que encontramos uma das principais qualidades das armas da SIG. O desenho da empunhadura, sua angulação e acabamento da superfície fazem com que a arma seja naturalmente apontada em perfeito alinhamento com o alvo. Qualquer que seja o saque e o tipo de visada, a P229 facilita o rápido enquadra-mento de miras pela natural configuração da empunhadura. Não se trata de uma qualidade restrita ao modelo P229, visto que os demais produtos da SIG têm a mesma tradição de desenhos de empunhaduras bem elaborados. Trata-se mais da confirmação da excelência deste fabricante em desenvolver bons projetos de armas.


A puxada de gatilho da P229 apresentou, em dupla ação, o “peso” de 5.40 kg, enquanto em ação simples o “peso” ficou na média de 2 kg, ambas marcas adequadas para uma arma de porte pessoal. A P229 não possui sistema de travas de gatilho, pois a SIG optou por dotar a pistola com o seu elaborado sistema de “decoking lever”, o qual destrava o cão, batendo-o sem perigo de percutir a munição. Aliás, os atiradores acostumados com armas de configuração tipo Colt e Beretta devem se familiarizar com a P229 antes de partir para municia-la. Essa familiarização é necessária quando se observa que o liberador do ferrolho se encontra após a alavanca de “decoking” e não no meio do chassi, como é o normalmente encontrado. Mesmo assim, não existe o perigo de se acionar inadvertidamente o “decoking lever”, quando em ação, bastando um breve treinamento para se acostumar com a posição das teclas.
A P229 possui um excelente acabamento, miras adequadas e boa distribuição de peso, sendo que, no meu ponto de vista, esta arma seria perfeita se seu chassi fosse feito no bom e resistente aço forjado.

PREPARO DE MUNIÇÃO
Encontrar munição .357 SIG no Brasil é quase uma impossibilidade e sabemos tristemente que o .40 S&W não é obtido nas lojas, mesmo sendo a empresa brasileira CBC uma das principais fabricantes dessa munição. Desta forma, a recarga da munição é a alternativa mais viável para se poder testar a P229. Com exceção dos estojos para o .357 SIG, todos os outros componentes são facilmente encontrados no nosso país, inclusive alguns bons projéteis para o .40 S&W.


Numa recente pesquisa apresentada na Internet sobre munição recarregada, o .357 SIG aparece em 23o lugar em preferência, atrás de calibres não tão eficientes ou conhecidos do público em geral, tais como o 9 mm Makarov, .22 K-Hornet e .357 Maximum. Essa constatação não depõe de forma alguma contra o .357 SIG, mas demonstra uma dificuldade na ampla adoção desse calibre pelo mercado. A recarga do .357 SIG, um procedimento essencial para o barateamento da munição e sua popularização, encontra resistências pelo fato de que o desenho do estojo requer conhecimentos de recarga acima da média. O pescoço do estojo do .357 SIG é bem pequeno e limita o tipo de projétil a ser empregado. Ao contrário do se pensa, o .357 SIG não é um 9 mm “vitamimado”, embora faça uso de projéteis do mesmo diâmetro (.355”). Como os projéteis para o 9 mm Luger são muito “bicudos”, dado a especificação dessa munição, alguns desenhos de pontas não são adequadas para a recarga do .357 SIG. Esse fato se dá pela pouca área lateral do projétil em contato com o curto pescoço do estojo do .357 SIG. Assim, é necessária a busca por projéteis que tenham um desenho mais rombudo ou tipo “cone truncado”, de forma a possibilitar um adequado suporte no pescoço do estojo. Para elaborar a munição de teste, tive a sorte de encontrar dois modelos de projéteis destinados aos calibres .380 ACP e .38 Super, que se mostraram mais que satisfatórios para o .357 SIG. Esses projéteis eram fabricados pela extinta Karol e parece-me que agora são produzidos pela Metalúrgica Marcondes. Um dos projéteis (para .380 ACP) tinha desenho tipo ponta oca e o outro tipo “cone truncado”, pesando respectivamente 96 grains e 124 grains. Os projéteis tinham diâmetro de .356”, muito próximo do valor de .355” especificado como padrão para o .357 SIG.


Como propelente, escolhi as pólvoras Accurate Arms no9 e a conhecida Imbel Rex 1624. Estas pólvoras foram escolhidas tendo em vista uma observação encontrada num site de discussões da Internet, onde uma dica para se evitar o deslocamento do projétil para dentro do estojo no momento de alimentação é fazer uso de pólvoras que preencham totalmente a câmara. O desloca-mento do projétil no calibre .357 SIG é algo muito perigoso, pois o pequeno pescoço do estojo nem sempre consegue dar perfeita tensão de suporte ao projétil. Se este entrar dentro do estojo, altíssimas pressões de câmara poderão ocorrer, com possibilidade de acontecer danos sérios na arma e ferimentos no atirador. Analisando as pólvoras disponíveis, chequei a conclusão que a AA no9 serviria a contento para acelerar o leve projétil ponta oca de 96 grains, enquanto a Rex 1624 se prestaria para o projétil de 124 grains, mais pesado. Os testes posteriormente provaram que a escolha das pólvoras foi correta.


Um aviso importante deve ser dado àqueles que desejem recarregar o .357 SIG: antes de municiar a arma proceda um teste com a munição para ver se o projétil esta firmemente suportada pelo pescoço do estojo. Com a munição apoiada sobre uma superfície sólida, deve-se forçar o projétil para dentro do estojo, procurando observar se a tensão de gargalo é suficiente para manter o projétil no seu posicionamento. Somente assim teremos confiança der que, no momento da alimentação da arma, o projétil não entre para dentro do estojo e cause excesso de pressão. Se possível, um cravamento do tipo “taper crimp” deve ser aplicado no .357 SIG, possibilitando um melhor suporte ao projétil.


Um dos tópicos também criticados no processo de recarga do .357 SIG esta relacionado com a etapa de retífica do estojo, visto que o calibre tem desenho tipo “garrafa” e requer prévia lubrificação antes de ser passado no “die”. Essa operação, lubrificar antes de se retificar o estojo, demanda posterior limpeza para a retirada do óleo de repuxo, tarefa que atrasa a velocidade da re-carga e faz desesperar os atiradores mais afoitos. No entanto, nós, os brasileiros, sempre inventamos formas de contornar problemas chatos. Descobriu-se que, como a base do estojo do .357 SIG é idêntica em dimensões ao .40 S&W, para acelerar o processo de retifica do estojo bastava passa-lo sem lubrificação dentro de um “die” de um calibre antes do outro. Assim, antes de se realizar a seqüência de recarga do .357 SIG, somente é necessário passar os estojos no “die” do .40 S&W para se calibrar a sua porção central. Como o “die” do .40 S&W tem anel de tungstênio, a etapa de lubrificação dos estojos é evitada e o pequeno pescoço do estojo .357 SIG pode ser retificado direto no seu “die”, sem a necessidade de óleo de repuxo.


Para o .40 S&W não foi necessário buscar combinações exóticas, pois esse calibre já é conhecido do nosso mercado e a combinação de projétil cone truncado de 180 grains com pólvora CBC 207 se mostra mais que apropriado para os nossos propósitos.

TESTANDO A P229
Para fazer uma boa avaliação da P229 e dos seus dois calibres, decidi por solicitar a participação de alguns instrutores do CFAPP – Centro de Formação Profissional Pires, localizado em Guarulhos, região da grande São Paulo. Como esses instrutores são especializados em treinamento de Agentes de Segurança, entendi que suas opiniões sobre a arma e os calibres poderiam trazer pontos de vista mais voltados para o emprego prático do armamento, afora as ponderações técnicas que eu possa apresentar. Assim, além de poder contar com a excelente estrutura de estandes de tiro do CFAPP, seus instrutores poderiam me transmitir, com suas experiências, considerações mais voltadas ao emprego real da P229.


Os instrutores Carlos Rodrigues, Marcelo Oncala, Alexandre Cruz e Reginaldo Pereira Junior gastaram um bom tempo analisando, desmontando e se familiarizando com a P229 e suas munições. A etapa de testes com a P229 também contou com a participação do Diretor do Grupo Pires, o Sr. Marcos Prado e o Gerente Geral do CFAPP, o Sr. Galvão França, ambos responsáveis por facilitar sobremaneira o trabalho da Magnum dentro do centro de treina-mento e o bom desenvolvimento de nossas tarefas. Após essa etapa de reconhecimento, partimos para experimentar a combinação arma-munição numa série de testes.


Foram feitas concentrações em alvos fixos, tiros em alvos metálicos, testes em plastilina, para visualizar o comportamento das munições, e disparos em diferentes blindagens de carros. Para esta última experiência, contamos com a facilidade de estarmos próximos da Pires Blindagem, uma das empresas do Grupo Pires, especializada em blindagem de veículos. Os testes tomaram dois dias e algumas caixas de munição, sendo que as conclusões dos instrutores foram sendo recolhidas no processo de experimentação da P229.


Do ponto de vista do trabalho de Agente de Segurança, a P229 é o sonho tornado realidade. Essa é a conclusão unânime dos instrutores do CFAPP, os quais de pronto destacaram o perfeito balanceamento e a portabilidade da pistola semi-automática. A ausência de travas desnecessárias e a limpeza do desenho da P229 causaram boa impressão entre os instrutores do CFAPP. Também foram destacadas a facilidade de porte da P229 e sua facilidade de enquadramento de miras. A munição .357 SIG era desconhecida pelos instrutores e trouxe uma certa dose de curiosidade pelas suas características construtivas e balísticas. O .40 S&W já era empregado em certos treinamentos do CFAPP e somente recebeu maiores atenções quando na sua comparação com o .357 SIG.
Iniciamos a experimentação da P229 montada com o cano em .40 S&W, quando procurou-se observar o comportamento da arma em disparos pausados e seqüência de tiros rápidos em alvos dispostos na distância de 5 metros. Foi fácil constatar o baixo recuo sensitivo transmitido pela P229 e o rápido enquadramento de miras. O bom controle de disparo com a P229, mesmo fazendo uso de uma munição forte como o .40 S&W, pode ser creditado à bem desenhada empunhadura e ao material de suas talas, o qual facilitava uma excelente “pega”, sem erros de posicionamento da mão.

FORTES IMPRESSÕES
Mas a surpresa se deu quando passamos a testar a P229 com o cano em .357 SIG. Embora fosse visível que a munição estava apresentando um alto nível de desempenho, com um forte “blast” (deslocamento de gases) na boca da arma, esta “pulava” na mão de forma extremamente controlada, sem a sensação de forte recuo. Mais parecia uma .380 +P do que uma representação do famoso “.357 Magnum para pistolas compactas”. Como essa etapa dos testes se deu dentro de um estande semi-fechado, a sensação de forte deslocamento de gases foi reforçada, com a constatação de que as duas cargas escolhidas para serem disparadas na P229 produziam uma visível chama na boca da arma, mesmo sob a luz do sol.


Testamos as munições .40 S&W e .357 SIG num bloco de plastilina, sendo que o grande destaque se deu com este último calibre fazendo uso do projétil leve ponta oca de 96 grains. Para um projétil desenhado para expandir a velocidades inferiores a 1000 fps, ser acelerado a mais de 1500 fps causou um efeito no mínimo “chocante” no bloco de plastilina. Para o .40 S&W, observou-se uma maior capacidade de penetração, sem grandes efeitos de expansão, visto que o projétil adotado não era do tipo ponta oca. Efetuei uma série de disparos num alvo disposto a 15 metros de distância para analisar a capacidade da P229 em concentrar seus tiros com precisão. Ambos calibres ofereceram um razoável padrão de precisão, embora eu tenha percebido uma tendência do .40 S&W em desgarrar alguns tiros à direita, sinal mais ou menos claro de que esta munição tem alguma ação de torção (torque) na mão do atirador. Concluído os testes em estande fechado, passamos a experimentar a P229 na pista de treinamento de direção defensiva, onde poderíamos trabalhar de forma mais dinâmica e livre.


Na pista de direção defensiva do CFAPP, experimentamos as munições em blindagens de veículos, com destaque novamente para o .357 SIG e sua capacidade de penetração. Se for possível concentrar dois ou três disparos exatamente num mesmo ponto, consegue-se transfixar um vidro blindado nível 3 com o .357 SIG. Já o .40 S&W não possibilita uma efetiva transfixação do vidro blindado, provavelmente por possuir um projétil com maior área frontal e deslocando-se a menor velocidade inicial. Porém, o peso de seu projétil possibilita a penetração em chapas de metal balístico, principalmente quando em disparos sobrepostos.


Quando testados em placas de Twaron, o revestimento empregado dentro da estrutura dos carros, nenhum dos dois calibres conseguiu atravessar as placas nível 2 oferecidas pela Pires Blindagem para nossos experimentos. Compostas por uma composição de poliaramida impregnada com resina, as placas de Twaron resistem bem aos disparos de armas leves por possibilitar a irradiação da energia do projétil, dissipando-a e evitando o rompimento da estrutura da placa.


Os instrutores do CFAPP realizaram uma série de procedimentos de saque e disparo em alvos metálicos, quando se confirmou as qualidades da P229 como armamento defensivo/ofensivo. O recuo controlado, rápido enquadra-mento de miras e potência das munições encantou a todos os instrutores, os quais ficaram a se lamentar pelo fato de que, no Brasil, armas do tipo P229 ainda são proibidas para emprego civil. “É como passar doce na boca de uma criança e não deixa-la comer”, disse o Instrutor Oncala, namorando demoradamente a P229. “Esta seria a arma perfeita para o trabalho do Agente de Segurança, leve compacta e funcional”, comentou o Instrutor Junior com a aprovação dos demais instrutores.


Finalizando a seqüência de teste, ficou a forte constatação de que a P229 é uma das melhores opções em termos de pistolas semi-automáticas no mercado internacional. Quando aos dois calibres empregados na P229, fica a certeza de que temos um honroso empate técnico, pois tanto o .357 SIG como o .40 S&W provaram obter um elevado nível de eficiência e características balísticas que fazem ambos serem excelentes escolhas como munição defensiva.

 

 

Composição das munições desenvolvidas para os testes

Projétil

Pólvora/carga

Velocidade inicial

Detalhes

.357 SIG

Karol 96 grains ponta oca encamisado total

Accurate Arms no9

15 grains *

1530 fps

Comprimento total: 1135”

*espoleta Small Rifle

Karol 124 grains cone truncado encamisado total

Imbel Rex 1624

7,9 grains

1300 fps

Comprimento total: 1140”

.40 Smith & Wesson

Karol 180 grains cone truncado encamisado total

CBC 207

6,4 grains

997 fps

Comprimento total: 1130”

 

Tabela comparativa entre munições para Armas Curtas

Munição

Velocidade inicial

Arma empregada

Comprimento do cano

.357 SIG

Speer 125 grains Gold Dot

1374 fps

SIG P229

3.86”

9 mm Luger

Federal 135 grains Hydra-Shok

1037 fps

Glock M26

3.50

.357 Magnum

Winchester 125 grains JHP

1375 fps

S&W M66

4.00”

.38 Super

Remington 115 grains JHP

1303 fps

Colt 1991

5.00”

.38 Special

Winchester 158 grains +P

900 fps

S&W M65

4.00”

.40 S&W

Winchester 180 grains

980 fps

SIG P229

3.86”

.45 ACP

Federal 230 grains Hydra-Shok

850 fps

Colt Gold Match

5.00”

 

 

Ficha técnica

Nome da arma e modelo

SIG Sauer P229

Tipo

Pistola semi automática

Sistema de operação

Ação dupla semi-automática

Calibre

.357 SIG e .40 S&W (dois canos)

Capacidade

10 tiros + 1

Regime de fogo (s/n)

---

Peso vazia

790 gramas

Peso municiada

870 gramas (.357 SIG)

Comprimento total

7.1” (18 cm)

Comprimento do cano

3.9” (10 cm)

Miras

Regulagem lateral tipo combate

Empunhadura

Talas de material sintético

Raias (numero e passo)

6 à direita

Velocidade inicial

980 fps (munição comercial .40 S&W)

Cadência de tiro (s/n)

---

Acabamento

Ferrolho em aço inoxidável com acabamento em Nitron; chassi em liga de alumínio anodizado negro

Obs.: Possui versões em 9 mm Luger, .357 SIG e .40 S&W; também em acabamento “saia e blusa” (dois tons) - ferrolho em aço inox polido e chassi anodizado negro




Texto publicado originalmente na Revista Magnum. As Empresas Pires faliram em dezembro de 2007 e o CFAPP acabou sendo fechado. Decidi manter o texto original com as participações dos instrutores do CFAPP por respeito ao trabalho desses profissionais.