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A Guerra da Amazônia

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Os jornais já impressos e prontos para serem distribuídos naquela madrugada de julho continham diversas notícias, algumas delas de forte interesse nacional. Afinal, a Copa Mundial de Futebol estava em andamento e a seleção brasileira conseguira naquela tarde uma vitória, embora sofrida e bem apertada, de 1 X 0 sobre a colorida seleção do Nebuquistão. Essa vitória estava estampada nas primeiras páginas de quase todos os jornais brasileiros e as fotos das matérias retratavam os torcedores comemorando festivamente a passagem da seleção brasileira para as finais da Copa do Mundo.

Outras notícias também revestidas de importância para o momento, embora com conotações sinistras e de gravidade crescente, estavam dispostas em locais deslocados das primeiras páginas ou mesmo "acomodadas" nas folhas internas dos jornais. Essas notícias, ao contrário da festa e alienação proporcionadas pela Copa do Mundo, anunciavam mais um fracasso consecutivo nas colheitas dos países da Europa oriental e Ásia e a perda de rebanhos inteiros, motivada por um tipo ainda desconhecido de praga. Elaboradas por nervosos correspondentes internacionais, algumas dessas notícias davam conta da crescente fome, princípios de saques, revoltas e crises de desagregação política e social por que estavam passando diferentes países do hemisfério norte, países estes nem um pouco interessados na Copa do Mundo. Os paises ainda tentavam se recuperar de uma gigantesca crise financeira que fizera quebrar inúmeros mercados e destruir a riqueza de nações altamente populosas e problemáticas.

A informação mais preocupante e tratada talvez com excesso de diplomacia e delicadeza por parte dos governos da América do Sul era o crescente protesto e evidente rancor por parte dos conturbados países europeus e asiáticos em relação ao desperdício e displicência no aproveitamento de matéria prima e alimentação encontrados na América Latina. Em especial o Brasil, com sua exuberante natureza, grande extensão territorial e péssimos administradores, era o principal alvo das críticas pelo pouco que estava fazendo para diminuir a pavorosa situação dos países do hemisfério norte.

Auxiliado pela crescente fome e super população, um forte movimento religioso de tendências extremistas começava a tomar o poder dos governos, antes moderados, fazendo com que esses desesperados países iniciassem a questionar ferozmente a ONU sobre a justiça de se ter tamanha fartura em terras, minérios e energia, como no caso do Brasil, se essas dádivas da natureza eram mal aproveitadas e não serviam para apaziguar as necessidades de um mundo excessivamente populoso e faminto. Diversos líderes religiosos ultra-nacionalístas defendiam abertamente o emprego da força como forma de tomar os alimentos necessários para reduzir o sofrimento de seu povo.

Mas, no Brasil, essas notícias funestas não chegavam a abalar a alienação e a festa da Copa do Mundo, sendo tratadas pela própria imprensa como movimentos, crises e assuntos muitos distantes para comprometer a alegria generalizada.

A LEI DO DESARMAMENTO
No entanto, o leitor menos "ufanista" e mais atento não iria se deparar somente com artigos e notas dos jornais dizendo repetidamente "O Hepta é nosso!", "Vencemos mais um", "O Nebuquistão foi moleza!" ou "Agora falta pouco!". Nas páginas destinadas aos assuntos nacionais ainda persistia a grande polêmica em torno da lei sobre o confisco total de armas aprovada pelo Legislativo e em execução desde o ano anterior. Essa lei, muito defendida pelas associações "anti-armas" e as charmosas "campanhas de desarmamento pela paz", era de autoria do proeminente deputado Severino Heischell, do recém formado Partido Ecológico Social Trabalhista dos Excluídos - PESTE.


Como se completava um ano da implantação dessa controvertida lei, alguns poucos articulistas explicavam que, ao contrário de diminuir a criminalidade e violência nas ruas, o que a sociedade estava agora enfrentando era uma mal disfarçada e feroz batalha urbana contra o banditismo cada vez mais armado, audacioso e seguro de sua força e impunidade.

Nem mesmo a informação de que a criminalidade crescera 85% nos últimos 6 meses parecia abalar o eloqüente deputado na fé de que tinha criado condições de, desarmando o cidadão, terminar com a violência urbana. Pouco adiantavam as críticas das pequenas Associações esportivas, profissionais da área e personalidades "pró-armas" de que a violência urbana jamais terminaria com a simples promulgação de uma lei. Uma solitária minoria continuava a dizer que tinta sobre papel ou a saliva dos eloqüentes discursos jamais teriam força para impedir que as pessoas fossem roubadas, estupradas ou mortas.

Para o deputado Severino Heischell, sempre cercado de fortes guarda-costas, o aumento de estupros, assaltos e assassinatos era "coisa inventada e explorada por grupos internacionais interessados em vender armas". O fato da bandidagem ter fácil acesso a um vasto suprimento de armas e munições também não demovia a idéia geral de que o cidadão deveria entregar sua segurança nas mãos do Estado como prova de "civilidade" e "evolução social".

Algumas das matérias questionando a lei de desarmamento, publicadas de forma tímida nas páginas internas dos jornais, se apresentavam como solitários exemplos de que alguns jornalistas ainda tinham capacidade de raciocínio e visão crítica imparcial. Numa retrospectiva, esses artigos relembravam que a lei do deputado Severino Heischell, intitulada por ele mesmo de "Lei do desarmamento pela paz", forçava indistintamente todos os cidadãos a entregarem suas Armas de Fogo e respectiva munição para a guarda do Exército, praticamente extinguindo a comercialização desses artigos em todo o território nacional. Essas armas e munições ainda eram consideradas propriedade do cidadão, mas somente seriam liberadas em casos muito especiais, cercados de burocracia, negativas, pesadas taxas e devido apadrinhamento.

O porte pessoal fora terminantemente proibido a todo civil ou policial fora de serviço e somente se permitiu a posse residencial de tubos de gás lacrimogêneo ou pistolas de descarga elétrica para cidadãos com idade acima de 25 anos, munidos de "competente" avaliação policial de suas condições técnicas, sociais e econômicas. Os tubos de gás lacrimogêneo e pistolas de descarga elétrica foram uma "concessão" colocada na lei, pois o deputado Severino Heischell dizia que se todos se aplicassem pela paz, ninguém precisaria de armas ou objetos para se defender. Nesse sentido, diversas campanhas foram feitas nas rádios FM e nos principais jornais do país, mesmo a despeito de se saber que a maior parte da população de baixa renda não tinha contato com esse tipo de mídia. Pouco adiantou explicar aos seguidores do nobre deputado do PESTE que os bandidos e traficantes não estavam interessados em campanha nenhuma e jamais se sensibilizariam com pedidos de paz feitos por jovens bonitos e bem alimentados.

Obviamente, a Recarga de Munições e o Tiro Esportivo com "armamento pesado" foram duramente perseguidos e somente alguns desportistas ainda conseguiram manter a guarda de seus preciosos equipamentos e, mesmo assim, de maneira quase clandestina. De pouco adiantou o protesto dos Atiradores brasileiros de que seu esporte não constituía perigo para a Sociedade e sim oferecia formas de diversão e prestigio nacional. Também não adiantou aos Atiradores procurar espaço na mídia para explicar o enorme perigo por que passava a Sociedade ao se desarmar totalmente uma população com tantas e tremendas pressões sociais. O Exército também não via com bons olhos a lei de desarmamento, pois se encontrava sobrecarregado com a responsabilidade de guardar uma enorme quantidade de armas e munições. Além disso, os novos oficiais de alta patente, com formação mais aberta, moderna e consciente, sabiam do perigo de se deixar uma sociedade totalmente desarmada e do absurdo de se colocar um exército para "caçar armas e patrulhar" cidadãos de bem.

A lei somente fora aprovada por força da enorme pressão produzida pela mídia nacional, além de movimentos "pacifistas" liderados por deslumbrados artistas de TV e pessoas com evidentes interesses particulares e eleitoreiros. Como de costume, os grandes fabricantes de Armas & Munições não se incomodaram muito com a anulação do mercado interno, pois seus olhares estavam somente dirigidos para as exportações, menos trabalhosas e mais lucrativas. Dessa forma, a lei de desarmamento implantada no Brasil teve o mérito de realmente tirar, por meios fascistas, o direito de autodefesa de todo cidadão brasileiro, sem que, no entanto, o Estado tivesse capacidade ou condições de proteger com eficiência a sociedade. Como qualquer cidadão comum podia comprovar, a Policia não era onipresente e a bandidagem, sempre em evidente vantagem, crescia em audácia e ferocidade.

AMANHECER DE CHUMBO
Os assuntos dos bares, fábricas e escritórios daquele dia de julho, pelo menos os que funcionariam após mais uma vitória da seleção "canarinho", seriam mesmo a Copa do Mundo e, em menor escala, os problemas de fome mundial, banditismo brasileiro e desarmamento. Isto é, seriam, se naquela madrugada uma grande ameaça não estivesse em curso para alterar brutalmente a quase indisfarçada situação mundial de desespero, cobiça e intolerância.

Deslocando-se silenciosamente no escuro da noite para pontos pré-determinados ao longo da costa brasileira, uma enorme força-tarefa, constituída de dezenas de naus sem marcas ou bandeiras que identificassem os países que a compunham, avançava para executar um audacioso plano de invasão. Acompanhada silenciosamente pelos satélites espiões dos EUA, OTAN e por conseguinte, da ONU, a força-tarefa dividiu-se após o meio do oceano Atlântico em três corpos de ataque que rumariam para o norte, centro e sul da costa brasileira. As grandes potências, temerosas (para não dizer, apavoradas) de que a insustentável situação da faminta Europa oriental e dos altamente populosos países da Ásia pudesse descambar para uma guerra mundial generalizada e com emprego de armamento atômico, fazia "vistas grossas" ao deslocamento dessa poderosa força-tarefa, tentando apenas controlar o desenrolar dos acontecimentos para que estes não pudessem interferir com seus interesses locais. A imagem de mais de 1 bilhão de esfomeados com o dedo sobre o botão de disparo do Apocalipse atômico era uma ameaça muito mais apavorante que a agressão a um país sul-americano. Assim, a força-tarefa combinada, com suas naus de desconhecidos países, pôde entrar despercebida na faixa de 200 milhas da costa brasileira e se posicionar para sua missão.

Antes mesmo do aparecimento dos primeiros raios de sol naquela manhã de ressaca futebolística, dezenas de modernos jatos de combate Mig, além de aviões e helicópteros de apoio, decolavam de seus porta-aviões rumo a alvos devidamente escolhidos. A agressão que estava para se iniciar é conhecida no jargão técnico como "Guerra total" e tinham as mesmas conotações históricas de surpresa e oportunismo do famoso ataque japonês a Pearl Harbor, no início da II Guerra Mundial. A única diferença desta vez era que o motivo para o ataque era a FOME e não a necessidade expansionista ou pura ideologia.

ATAQUE DE SURPRESA
Voando inicialmente em velocidade supersônica, os sofisticados aviões de combate rapidamente chegaram aos seus alvos e começaram aquela que seria chamada posteriormente de "A Guerra da Amazônia". Os alvos primários dos invasores foram as bases militares próximas às grandes capitais, determinados aeroportos de médio e grande porte, centros de energia e fábricas de armamento e munições.

As primeiras baixas foram as pequenas fragatas que faziam patrulhamento na costa brasileira e não constituíram páreo para os pesadamente armados navios dos invasores e seus mísseis de longo alcance. Outros navios brasileiros seriam destruídos ou encurralados em seus portos no desenrolar dos ataques, com especial destaque para o venerável porta-aviões Minas Gerais, torpedeado e posto à pique por um submarino nuclear de médio porte logo quando levantava ferros para se lançar em alto mar.

Tragicamente, uma conhecida fabrica de munições, próxima à principal cidade do país, foi eficientemente bombardeada quando seus funcionários começavam a entrar para trabalhar. De uma só tacada os invasores conseguiram, no meio das pavorosas explosões provocadas por mísseis "inteligentes", destruir não somente a única fabrica de munição do país, como também aniquilar ou ferir um grande número de operários especializados e simplesmente "zerar" a capacidade de remuniciamento do Exército brasileiro.

Outra fábrica praticamente neutralizada pelos Migs produzia armamento militar e pólvora para munição de armas pesadas, sendo posta fora de funcionamento pela simples destruição de todas as principais vias de acesso e algumas importantes linhas de produção. Apesar de ser distribuída de forma a dificultar um eventual bombardeio, essas linhas de produção e estocagem não eram passíveis de serem protegidas das eficientemente mortais "bombas inteligentes", as quais praticamente escolhiam onde tinham que impactar-se. A planta do local e suas instalações já era algo amplamente conhecido pelos atacantes e também a sua condição de única fabrica militar facilitou o desmuniciamento que viria se instalar no país. Nos estágios posteriores da guerra, o Exército brasileiro teria que contar somente com munição e armamento importado de países vizinhos.

Tomadas quase de total surpresa, as guarnições militares tentavam desesperadamente reverter o quadro de destruição e anarquia que gradativamente os aviões invasores iam despejando em suas bases. Mas, com todo o sistema politico-militar anestesiado e disperso pelas atividades da Copa do Mundo, uma reação articulada era quase impossível, principalmente pelo fato dos militares terem escassos sistemas de proteção antiaérea e contar com pouquíssimas e ultrapassadas aeronaves para fazer frente aos sofisticados Migs e helicópteros de ataque.

A segunda leva de aviões invasores, com longo raio de ação, rapidamente avançou para o interior do país, atacando estratégicas bases militares, entroncamentos rodoviários e ferroviários e linhas de distribuição de combustível, chegando ao ultraje supremo de bombardear o centro do poder e Patrimônio da Humanidade, Brasília. Em ataques rasantes que estilhaçavam todas as fachadas de vidro daquela capital, os Migs despejavam com impressionante precisão suas bombas e mísseis nas edificações que representavam o controle e símbolo do poder político da nação. Felizmente a perda em vidas foi reduzida, pois todos os esforçados políticos estavam fora da capital, acompanhando a Copa do Mundo em suas "bases políticas".

Nessas operações de bombardeio, os Migs não saíram sem algumas baixas, proporcionadas pelos corajosos pilotos brasileiros encarregados da defesa da cidade, os quais, mesmo contando com antigas aeronaves Mirage III e caças F-5, tecnologicamente inferiores aos aviões invasores, lutavam com extrema intrepidez e fúria, derrubando vários deles. Essas escaramuças foram um principio de reação aos ataques já identificados nas cidades costeiras do país, mas representava pouco frente ao que ainda viria a se desenrolar.

Com as principais bases militares em chamas, grandes aeroportos desativados, rodovias bloqueadas e a capacidade de rearmamento do pais praticamente extinta em poucas horas de ataques, era momento do início da invasão por terra. Assim, as três pontas da Força Tarefa começaram a desembarcar suas tropas nas principais cidades costeiras, além das forças especiais que já estavam agindo em solo, descarregadas por helicópteros pesadamente armados. Os pontos chaves eram aeroportos de média capacidade, centrais de energia poupadas de maneira estratégica, silos de alimentos, complexos petrolíferos, estoques de água e todos os entroncamentos importantes que pudessem auxiliar a rápida invasão. Dado a extensão do país, não era de interesse dos invasores controlar todo o território e sim partes realmente cruciais para a organização politico-militar, desmantelando qualquer iniciativa de uma eficiente resistência. O grande prêmio dessa invasão seriam basicamente os estoques de alimentos, as enormes reservas de água potável, as pastagens e plantações de cereais e as grandes jazidas de minérios, além, é claro, do controle da Amazônia, fonte inesgotável de recursos.

Evidentemente, houve heróicas resistências por parte de algumas guarnições de Infantaria, tropas de elite e divisões blindadas, as quais conseguiram se reorganizar depois das primeiras levas de bombardeiros. Esses pequenos contra-ataques, organizados graças à iniciativa de alguns oficiais de grande valor, na realidade pouco poderiam fazer para reter as tropas invasoras, por serem estas altamente motivadas, bem equipadas e com grande experiência em combate. Também pesava contra os soldados defensores a falta de equipamento moderno, experiência em situações de fogo real e treinamento adequado, fruto de dezenas de anos de descaso oficial, baixos soldos e verbas reduzidas por que passaram as Forças Armadas brasileiras.

CAOS NAS CIDADES
A estratégia de invasão era simples: isolar em enormes bolsões as regiões de produção do país, controlando vias de acesso, energia, alimentação e combustíveis. Dessa maneira, a capacidade de reação do Exército seria grandemente prejudicada e haveria tempo para consolidar a invasão, isolar os estados do centro e norte do resto do país e fornecer sólida situação para posteriores barganhas com as grandes potências, as quais assistiam os acontecimentos sem interferência efetiva. Os invasores sabiam que até poderiam ser futuramente expulsos das terras conquistadas, mas não antes de retirarem tudo o que necessitavam para seus países.

Nas grandes cidades o pânico já começava a se alastrar, principalmente em torno das bases militares atacadas. Uma situação tragicômica se desenrolou numa folclórica cidade do norte do país, onde os exaustos, suados e embriagados torcedores da seleção brasileira de futebol ainda se restabeleciam das comemorações da vitória do dia anterior. Com as primeiras explosões produzidas pelos aviões atacantes, a massa de torcedores simplesmente achou que se tratava de mais uma sessão de fogos de artifício e todos passaram a dançar e cantar em meio ao caos de gritos dos soldados, seus tiros contra os aviões invasores, rugidos de turbinas e chuva de estilhaços.

Nas grandes cidades, gradativamente paralisadas pelo corte de energia, água e combustíveis, uma situação de colapso urbano começava a tomar forma. Como uma substancial parcela da Policia Metropolitana e Militar tinha sido remanejada para defender os pontos estratégicos que ainda restavam, uma horda de bandidos e saqueadores passou a varrer os bairros de classe média e centros comerciais dessas cidades. Cenas de saques, estupros, morte e destruição começaram a ganhar força, principalmente quando essa massa descontrolada percebia a pouquíssima resistência dos organismos policiais e o pequeno perigo que podiam oferecer os cidadãos atacados. Os sem terras, os sem dinheiro e os sem comida se juntaram aos sem escrúpulos e, certos da total impunidade, começaram a cobrar das cidades todas as benesses que sempre lhes foram negadas.

Para as pessoas cercadas em suas casas e propriedades a dúvida era como resistir a um saque em massa armados somente de facas e porretes ou, na melhor das hipóteses, com os famosos tubos de gás lacrimogêneo permitidos pela lei de desarmamento. Com apenas algumas horas de blecaute, as cidades ficaram a mercê das descontroladas turbas de saqueadores e logo incêndios começaram a despontar em vários pontos. Muitos foram desenterrar suas armas criteriosamente escondidas para poder defender de alguma forma suas famílias e propriedades. A lei do deputado Severino Heischell felizmente não tinha retirado todas as armas dos cidadãos, pois muitos tinham se recusado a serem "obedientes cordeiros" quando da execução da lei de desarmamento e, assim, puderam ter algo com que se defender.

Lembrando-nos do nobre deputado, este estava apavorado e sozinho com a família em sua residência durante todo o desenrolar do ataque inicial, visto que os seus seguranças tinham debandado para proteger os próprios lares e parentes. Isolado e esquecido, o ilustre deputado Severino Heischell, baluarte e expoente máximo no combate as armas, promotor da paz nas cidades e feroz oponente da "Sociedade armada", tinha muito que pensar. Enquanto escutava a furiosa turba destruir, matar e saquear a vizinhança, enquanto se preparava para o momento que também começariam a forçar os portões de sua rica propriedade, o deputado pensava nas palavras daqueles que defendiam o direito de autodefesa do cidadão e no conceito Universal de que a Liberdade de uma Sociedade e os Direitos individuais do cidadão somente sobrevivem em culturas capazes de manter um equilíbrio entre o caos e a civilidade.

Uma frase dita por um Atirador não lhe saia da cabeça: "O preço da Liberdade é a eterna vigilância". Somente nesse momento, o deputado entendia o significado dessa frase e percebia que as Armas de Fogo possibilitavam o equilíbrio entre bons e maus e eram ferramentas que também podiam ser empregadas para preservar o estado de direito e a defesa da Liberdade.

 

Só nesse trágico e último momento, o deputado da "Lei do desarmamento pela paz" conseguiu então compreender o Direito Universal de cada ser humano poder defender-se. Ele até desejava possuir uma Arma de Fogo, qualquer arma, desde que assim pudesse ter com que proteger sua família dos bárbaros horrores pelo quais iria passar em poucos instantes.

Anotações de J.M., correspondente de guerra, num "bunker" avançado no norte de Goiás, relembrando o segundo aniversário, as causas e conseqüências da "Guerra da Amazônia".
 


Nota: Pode parecer estranho para o Leitor que um escritor sempre ligado à artigos eminentemente técnicos escreva um conto de ficção tão negro e pesado. No entanto, não encontrei melhor forma de apresentar minha visão extrema (absurda, talvez?) do que pode ocorrer num futuro apocalíptico sob o total banimento das armas. Esse pequeno conto esteve praticamente pronto em minha imaginação por dois anos e serve de protesto e alerta para dizer o quanto os "anti-armas tupiniquins" estão cegos e enganados ao lutar para desarmar as pessoas erradas. O Leitor mais paciente poderá ver as principais diretrizes que escolhi para criticar a Sociedade brasileira, a saber: o gosto pela alienação, o desperdício das riquezas nacionais, a cegueira dos anti-armas, a falta de coragem em realmente combater o banditismo, o desleixo no preparo das defesas do país e o perigo do delicado equilíbrio entre as camadas sociais brasileiras.
Os fatos e seqüências da "Guerra da Amazônia" são pura ficção e até apresentam condições intencionalmente exageradas, pelas quais peço desculpas se eventualmente incorri em erros de estratégia e política. As situações apresentadas no texto são ferramentas a que recorro para poder passar a mensagem do perigo e desrespeito aos direitos individuais representado pelo desarmamento puro e simples do cidadão. A liberdade da ficção também me serve para mostrar como pode constituir em erro a elevação do Estado como único defensor da Sociedade e detentor do controle da Lei e da Ordem.
O deputado Severino Heischell é evidentemente um personagem fictício, mas o seu partido, o PESTE, bem poderia abrigar a maioria dos políticos e "anti-armas" deste país!


Texto publicado originalmente no website SHOTNET