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Walther PPK-S

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Na edição no 30 de MAGNUM tive a honra de apresentar a linha de pistolas Walther trazidas ao Brasil pela Rossi de Moraes Imports, empresa que infelizmente não mais atua no nosso mercado. Lembro-me de ter sentido naquela ocasião uma grande expectativa em poder testar aquelas pistolas, por entender que elas representavam um importante marco na retomada das importações de Armas de Fogo ao nosso país, interrompidas desde o final dos anos 50.

Das armas testadas no artigo de apresentação, a PPK-S foi a mais agradável de se empunhar e disparar, pelo fato de possuir uma empunhadura melhor dimensionada. O único senão que pessoalmente fiz a PPK-S testada naquela ocasião era quanto ao seu calibre 7,65 mm Browning, o qual, apesar de ainda manter seus admiradores, não possui adequado nível de “stopping power” necessário para ser minimamente efetivo em defesa pessoal.

Após aquele heróico inicio das importações, a Rossi de Moraes Imports nos anunciava a ampliação da sua linha de produtos estrangeiros com a chegada ao Brasil do primeiro lote de pistolas Walther PPK-S em calibre .380 ACP e acabamento em aço inoxidável. Apesar de não ser fabricada na Alemanha e sim nos EUA, a PPK-S em aço inoxidável apresentava todo o carisma de peça fina e bem acabada que sempre foi marca registrada da casa Walther. O aço inoxidável apenas trouxe mais refinamento a uma arma tradicionalmente conhecida pela sua qualidade e funcionalidade.

MELHORANDO A RAÇA
A pistola focalizada neste artigo é fruto de uma evolução natural de armas semi-automáticas iniciada em 1929 com a Walther PP em .380 ACP, arma de médias dimensões e desenho agradável e elegante. A partir dessa pistola foi criada em 1931 a PPK, iniciais de “Polizei Pistole Kriminal”, a qual tinha ferrolho e empunhadura de menores dimensões que a PP, de forma a torná-la mais compacta e portável. Esses dois modelos da Walther tiveram pequenas variações e aperfeiçoamentos no início de suas carreiras, mas mantiveram-se praticamente idênticos em suas características técnicas até os dias de hoje.

Entretanto, em 1968, o Senado dos EUA institui o “Gun Control Act” ou Ato de controle de Armas, cujas diretrizes visavam limitar a importação e comercialização de determinadas armas no território norte-americano. Uma das diretrizes “Gun Control Act” restringia a importação de armas curtas classificadas como “suicide special”, ou seja peças baratas e de diminutas dimensões, e estipulava a medida de 75 “points” (106 mm) como limite mínimo de altura total. Como a pistola PPK possui altura de apenas 73 “points” (100 mm), sua importação foi interrompida, forçando a Walther rapidamente preparar um novo modelo para permanecer no mercado norte-americano. O resultado seria a interessante pistola PPK-S, combinação feita com o ferrolho curto da PPK e a empunhadura da pistola PP. Com essa solução a Walther pode apresentar uma arma medindo 77 “points” (109 mm), dentro portanto da nova legislação norte-americana. Ela tinha ainda a vantagem de portar um tiro a mais que a conhecida PPK, sem a perda das suas características de portabilidade. Mesmo após o relaxamento das diretrizes do “Gun Control Act” a PPK-S manteria a preferência do mercado norte-americano frente a tradicional PPK.

Em 1979 a casa Walther, através de sua representante nos EUA, a Interarms, autoriza a produção sob licença da variação da PPK-S denominada “American” cujas principais diferenças em relação à outros produtos daquela empresa alemã era ser produzida em território norte-americano e ser constituída totalmente em aço inoxidável. A PPK-S normal em aço carbono continuaria a ser produzida na Alemanha, mas agora em pequenas quantidades, pois, apesar de ser comercializada em todo o mundo, o principal centro de consumo desse modelo são os EUA. É de se notar também que os fabricantes europeus de Armas de Fogo evitam produzir modelos em aço inoxidável pelo fato de existir, naquele continente, um alto custo de ferramentaria e matéria prima.


UM MODELO TORNADO CLÁSSICO
Como observado anteriormente, a PPK-S segue um projeto que não sofre alterações à algumas décadas, evidenciando um desenho simples e bem elaborado. Esse desenho influenciou diversas outras armas tais como as pistolas Sterling, Astra, FEG, Iver Johnson, H&K MHK-4 e Sig Sauer P230. Mesmo a famosa pistola russa Makarov sofreu forte influência do desenho básico da linha “PP” da Walther. Por esses motivos considero essa linha de armas como uma das mais clássicas em desenho já criadas, passível ainda de figurar com destaque num mercado sempre em evolução, como este das armas curtas semi-automáticas.

Após o artigo de apresentação das armas Walther e a chegada de outras pistolas semi-automáticas ao nosso país, recebi diversas consultas dos Leitores de MAGNUM sobre qual a minha posição sobre os modelos então comercializados e quais as melhores escolhas. Essas consultas se justificam, pois as pistolas Walther não eram necessariamente as mais baratas do mercado e muitos desejam saber quais as suas reais qualidades, que as fazem tão diferentes das demais.

Pessoalmente entendo que as pistolas Walther são como os relógios Rolex, os carros Mercedes e os vinhos franceses, artigos finos e sofisticados que dão prestígio e prazer ao seu proprietário, além de serem funcionais e confiáveis. Não são armas tipo “high-tec”, de última geração. O fato de não possuírem alta capacidade de munição e nem serem constituídas em polímero ou desenho agressivo se deve a um conceito clássico de arma semi-automática, de porte confortável e dissimulado. Analisadas apenas como armas, as pistolas Walther são notadamente muito resistentes, compactas, confiáveis e fáceis de se operar.

Internamente não existem diferenças entre a PPK-S e as suas “irmãs” germânicas, a não ser o metal com que são confeccionadas. À exceção de peças menores, ligadas principalmente a ações de tensão e resistência, todos os componentes da pistola são de aço inoxidável 410. O funcionamento da pistola é em sistema tipo “blowback” e o mecanismo de disparo opera em ação dupla.

Um ponto interessante a se destacar na PPK-S experimentada neste artigo são os seus carregadores produzidos na Itália. Esse fato deixa entrever que essa pistola assume o aspecto de “arma mundial”, por ser de projeto alemão, fabricação norte-americana e ter carregadores italianos. Brincadeiras a parte, o certo é que a qualidade de manufatura da PPK-S não deixa nada a dever aos modelos produzidos na Alemanha, pelo alto grau de ajuste e polimento. Não se observa nem mesmo marcas de usinagem e rebarbas nas partes internas. O funcionamento geral da arma também demonstra uma montagem e ajuste feito com cuidado e esmero.

“IN PROBE” (EM TESTE)
Como munição de teste decidi preparar uma combinação mais “quente” que as munições de fabrica para verificar em extremo o controle da PPK-S e mesmo a eficiência do calibre .380 ACP recarregado. O projétil escolhido foi o tipo “hydra shock” da Metalúrgica Marcondes, encamisado ponta oca de 97 “grains”, propelido pela pólvora CBC 216. Esta pólvora tem um padrão de queima muito rápido, e a combinação mostrou-se quase um “.380 +P” pelo desempenho alcançado.

Antes mesmo de experimentar a PPK-S em estande de tiro, tratei de acompanhar a eficiência da munição recarregada disparando-a em pilhas de jornal molhado, uma forma de teste tradicional e fácil de se reproduzir. Minha intenção era ver como o projétil da Marcondes se expandiam nas limitadas velocidades conseguidas pelo calibre na PPK-S. Como forma de comparação, escolhi a munição de fabrica da marca CBC, também do tipo encamisada ponta oca e já bem conhecida da maioria dos Leitores.

A munição recarregada com 2,8 “grains” de pólvora CBC 216 conseguiu a velocidade inicial média de 972 fps, enquanto a munição CBC obtinha a média de 849 fps. Em termos de penetração a munição recarregada atingiu a marca média de 17cm, 6cm a mais que a munição da CBC. No entanto, o projétil da CBC, na maioria dos disparos, obtinha uma boa e constante expansão, aproximadamente 45% a mais do seu diâmetro original, certamente por possuir desenho de camisa pré-fragmentada. O projétil da Marcondes, talvez por ser constituído de camisa um pouco mais espessa que o projétil da CBC, não expandiu com regular eficiência em todos os disparos, embora a deformação, em alguns casos, chegasse próxima do dobro de seu diâmetro original. Mesmo assim, com essa combinação, o pequeno calibre .380 ACP disparado na PPK-S obtêm algo em torno de 7% a mais de energia em relação a um revólver “snubby” em .38 SPL comum.

Com o nível de desempenho apresentado pela munição recarregada acredito ser possível obter um pouco mais de eficiência em termos “stopping power” para o pequeno .380 ACP, o maior calibre de arma semi-automática permitido para comercialização em nosso país. Além disso, o proprietário de uma pistola .380 ACP, podendo contar com uma munição mais barata que a de fabrica, poderá treinar muito mais com sua arma, condicionante muito importante em se tratando de defesa pessoal.

RECUO E CONTROLE
Inicialmente seria correto supor que a PPK-S abordada neste artigo, pelas similaridades de estrutura, apresentaria quase igual comportamento em disparo que a sua variação em 7,65 mm Browning, embora este calibre apresente notável diferença de potência e recuo quando em relação ao .380 ACP. Com efeito, o maior recuo produzido pela munição .380 ACP se fez sentir em termos de recuo sensitivo e controle de disparo. Como a pistola PPK-S é relativamente leve, pela sua condicionante de arma compacta e de fácil porte, disparar longas séries de tiros com a PPK-S em .380 ACP não deixam uma agradável sensação na mão do Atirador. O maior recuo sensitivo produzido pela PPK-S também é forçada pelo perfil fino de sua empunhadura, um “preço” leve a se considerar pelas vantagens de se ter uma arma de porte dissimulado.

Mesmo com a forte munição recarregada, o nosso exemplar de PPK-S apresentou fácil recuperação de recuo e uma constante precisão. Após as primeiras concentrações de reconhecimento em alvos dispostos na distância de 15 metros, passei a disparar em pequenas obreias em alvos padrão IPSC. Apesar de entender não ser algo imprescindível a obtenção de concentrações do tipo Tiro ao Alvo, pequenos agrupamentos de forma repetitiva significam a capacidade da arma em favorecer um rápido enquadramento de miras, adequada empunhadura e constância na puxada de gatilho. Na média, as concentrações em tiro seqüencial com a PPK-S em .380 ACP apresentaram bons agrupamentos com 60 mm de dispersão, 20 mm a menos que o exemplar em 7,65 mm Browning experimentado anteriormente no artigo de lançamento das armas Walther.

Retornando ao aspecto de como enquadrar em nosso mercado a linha de pistolas da Walther, deve-se interpretar tais armas não somente como mecanismos caros mas funcionais e bem acabados. Como poucas em sua categoria, as pistolas Walther são peças de prestígio e bom gosto, tornadas mais requintadas com o acréscimo da belíssima PPK-S em aço inoxidável apresentada neste artigo.


Texto publicado originalmente na Revista Magnum e no website SHOTNET.