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No tempo da Carabina Esporte
por José Joaquim D'Andrea Mathias


Aproveito o espaço para contar uma história, que os atiradores menores de 30 anos provavelmente não sabem. Nos anos 1970 a CBC promovia, junto com o jornal Gazeta Esportiva, uma série de competições chamadas de "Carabina Esporte". Era mais ou menos a modalidade que se pratica até hoje em alguns clubes de Tiro perdidos pelo Brasil. Só que a Carabina Esporte dos anos 1970 reunia centenas e centenas de garotos (GAROTOS) em suas competições. A regra era muito simples; o garoto vinha ao clube anunciado com sua carabina, pagava uma taxa de inscrição e recebia meia caixinha (25 tiros) de munição .22 LR da CBC. A caixinha normal de 50 tiros, aquela antiga e saudosa de embalagem amarela e vermelha, era simplesmente cortada ao meio com um canivete.

 

A prova consistia em 20 tiros sobre alvo de precisão de revólver (padrão UIT), com 5 tiros de ensaio. A posição era em pé, sem apoio, sem uso de bandoleiras e sem artigos de configuração tipo “tiro olímpico”. A quantidade de acertos no "10" e no X valiam para desempate, que ocorriam com crescente regularidade.

 

As provas aconteciam durante todo o ano, mas o ponto alto era a prova final, geralmente realizada nos estandes da Academia da Polícia Militar (Academia do Barro Branco), na cidade de São Paulo. Essa prova final reunia milhares de pessoas e tinha boa divulgação, além do patrocínio da CBC. Nunca assisti uma competição desse período, mas os relatos daqueles que participaram nos contam que a coisa era assombrosa, de tanta gente participando e tanto tiro disparado nos alvos. Os resultados eram publicados na edição da segunda-feira da Gazeta Esportiva e a coisa tinha até "paitrocinador", familiares que enviavam os guris do interior do estado para competir na capital. Tenho um amigo que me contou que embrulhava sua carabina CBC com jornal, tomava um ônibus em Tietê e vinha competir em São Paulo. Trazia dinheiro apenas para as passagens, para a prova e para um lanche na rodoviária. A sua arma ia junto com as bagagens dos demais passageiros.

 

Outro amigo me descreveu como tomava um ônibus no seu bairro, caminhava um trecho do vale do Anhangabaú e tomava outro ônibus para chegar até o Barro Branco. Nesse trajeto ele levava sua carabina acomodada numa capinha de couro comprada na antiga loja Ao Gaúcho, no centro de São Paulo. Ninguém se espantava ou se incomodava com ele transitando com aquela comprida capa. Os únicos documentos que carregava eram o registro da arma e seu RG.

 

As armas usadas na Carabina Esporte eram as “jóias” da época: carabinas CBC, Itajubá da Imbel, Urko, algumas raras Anschutz e as famosas carabinas CZ Brno. Estas últimas eram motivos de inveja, desejo e admiração, pois eram célebres em funcionamento e precisão.

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Os atiradores tinham alguma liberdade para “customizar” suas armas. Havia miras reguláveis, soleiras feitas de borracha, gatilhos mexidos, etc., tudo feito por armeiros amadores. Mas a grande maioria vinha com as armas originais, as mesmas que serviam para atirar em latinhas ou caçar passarinho nas suas cidades de origem. Valia a informalidade, a camaradagem e o espírito de aventura.

 

As provas de Carabina Esporte foram sumindo ou diminuindo de proporção, ficando quase exclusivas dos Clubes de Tiro, embora ainda conste da lista de modalidades das federações de Tiro. A CBC mudou sua forma de atuação no mercado, abandonando a promoção da Carabina Esporte e a Gazeta Esportiva até sumiu das bancas. Hoje ainda vemos competições de Carabina Esporte em alguns clubes, mas esses eventos nem se comparam com os realizados nos anos 1970, nem tem a mesma pureza e informalidade.

 

Coisas de outros tempos...

 


Aproveitando a história acima, respondam as questões:


1 - Quantos assassinos psicopatas foram despertados por essas odiosas reuniões armamentistas?

 

2 – Quantos jovens tiveram seu caráter deformado por fazer parte de um evento onde usavam armas de fogo?


3 - Quantos assaltantes ou terroristas tiveram seu treinamento facilitado pelas provinhas de Carabina Esporte?


4 - Quantas guerras e revoluções foram iniciadas com as carabinas e munições usadas nas provas?


5 - Quantas brigas, mortes e ferimentos ocorreram nesses eventos politicamente incorretos?

 

6 – Se em 1970 o país estava no meio de uma ditadura brutal e restritiva por que esses pivetes não foram perseguidos ou reprimidos?


7 – Finalmente, o nosso país é melhor e mais seguro agora do que era em 1970?



Texto desenvolvido a partir de post apresentado no fórum CTC