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Projéteis encamisados x de chumbo
por José Joaquim D'Andrea Mathias


É sabido que todo Atirador que deseja se aprimorar no tiro, cedo ou tarde irá se iniciar na Recarga de Munições. E existem dois bons motivos para isto: economia e melhor desempenho. Economia, pois o custo da munição de fábrica irá pesar tremendamente com o aumento do número de tiros dados; melhor desempenho pela possibilidade de se adequar um determinado tipo de munição à arma do Atirador. A combinação desses dois motivos é a essência da Recarga, ou seja, elaborar uma munição de custo baixo que se iguale ou supere a munição de fábrica, num determinado tipo de utilização. Assim, um praticante de tiros de precisão pode obter um melhor agrupamento com sua arma, o Atirador de Tiro Prático uma munição potente e de fácil remuniciamento e o Atirador informal terá uma munição em quantidade e de baixo custo.

 

Neste ponto, observa-se que, de todos os componentes usados na montagem de uma munição, aquele que mais tem variedade de opções é o projétil. Para cada tipo de arma ou utilização, existem dezenas de projéteis que irão, em menor ou maior grau, satisfazer as exigências do Atirador. Essa variedade também resulta em diferentes resultados sobre o alvo, seja ele um desenho em papel ou um animal sendo caçado.

 

Por motivo de economia, todo Atirador começa recarregando com projéteis de chumbo, os quais, sendo mais fáceis e baratos de se obter, realizam perfeitamente a quase totalidade dos projetos de recarga. Porém, alguns atiradores chegam a um ponto onde é desejada uma munição de alto desempenho, obtida de maneira mais completa com o emprego de projéteis encamisados. Existem muitas dúvidas quanto às vantagens e desvantagens do projétil de chumbo e quando e como utilizar projéteis encamisados. Nesta curta matéria pretendo apresentar uma orientação básica sobre projéteis para armas curtas, sem tentar esgotar o assunto, fato que necessitaria muito papel (ou bits).

 

EVOLUÇÃO

Barato e fácil de se obter, de alto peso específico e baixo ponto de fusão, o chumbo é e material mais adequado para utilização em Armas de Fogo. Desde os primeiros informes a respeito de Armas de Fogo, por volta de 1400, até o aparecimento das pólvoras sem fumaça, no final do século 19, o chumbo nu reinou absoluto em todos os tipos de armas que o homem conseguiu inventar, com exceção dos canhões. O formato e desenho dos projéteis evoluíram sempre de maneira a obter o melhor resultado em termo de balística, comportamento dentro do cano e efeitos sobre o alvo. O projétil tipo esfera foi inicialmente a escolha natural, sendo rapidamente substituído pelo formato pontiagudo, semelhante às setas. Em sua evolução, procurou-se resolver os problemas que advinham de características materiais, tais como vedação correta dos gases da pólvora e a diminuição do atrito com o cano.

 

O moderno projétil de liga de chumbo, isto é, chumbo endurecido com antimônio e/ou estanho, contém todos estes elementos de sua evolução. Seu desenho é encontrado em uma variedade incalculável de perfis, porém respeita atualmente três modelos básicos: o canto-vivo, utilizado em velocidades modestas para a prática de Tiro ao Alvo; o ogival, cujo desenho é mais tradicional e obtém bons níveis de aerodinâmica e balanceamento e o semi canto-vivo, que utiliza as qualidades dos dois anteriores.

 

No entanto, o aparecimento das pólvoras sem fumaça veio aumentar os horizontes de utilização das munições. Com pequenas quantidades de pólvora sem fumaça é possível obter o mesmo resultado que grandes volumes de Pólvora Negra. Assim, os projéteis começaram a se tomar mais rápidos e menores. Isso, de certa forma, chegou a abalar a hegemonia dos projéteis de chumbo. O aumento da velocidade agrava uma deficiência do projétil constituído de liga de chumbo. Sendo deformável e de baixo ponto de fusão, se usado ao extremo de sua velocidade de trabalho, o projétil tende a "atravessar" as raias da arma, agravando o chumbamento do cano. Também, o aumento das pressões e temperatura resultantes do emprego das novas pólvoras reduz muito a eficácia do projétil de chumbo em munição de alta velocidade. Os projéteis encamisados foram criados para sanar estas deficiências do projétil de chumbo e levar o desenvolvimento das munições a níveis antes impossíveis.

 

Na realidade, o projétil encamisado continua sendo composto de chumbo mole, puro, apenas tendo sua parte extrema protegida por uma fina camada de liga ("camisa" ou "jaqueta") não ferrosa (cobre e níquel, Lubaloy, Tombac, etc.) que, tendo resistência e dureza superiores ao chumbo, protege o núcleo, impedindo a deformação do mesmo em seu trânsito pelo cano. O crédito pelo desenvolvimento do primeiro projétil encamisado se deve ao Capitão Rubin, do Exército suíço, que criou uma combinação de chumbo protegido por uma capa de latão para utilização na munição 7,4x54mm suíça, em 1889. Essa combinação de projétil encamisado representa também a primeira munição de configuração moderna. Novas munições foram criadas com esse novo conceito e calibres antigos também receberam projéteis encamisados. Inicialmente os projéteis encamisados procuravam reproduzir os desenhos existentes nos de chumbo. Porém, rapidamente descobriu-se que era possível dotar os novos projéteis de desenhos muito mais sofisticados e aerodinâmicos sem perder a precisão e o balanceamento em vôo. Certa vez um amigo chegou a afirma que o projétil de chumbo “era tecnologia do século 15, enquanto projétil encamisado era tecnologia do século 20”. Essa afirmação pode ser um tanto exagerada, pois até velhas idéias conseguem ganhar novo formato e fôlego com o avanço da tecnologia.

 

No princípio do século 20, alguns, erroneamente, chegaram a pensar que os projéteis constituídos apenas de liga de chumbo seriam totalmente substituídos por encamisados. Mas com o desenvolvimento de novos tipos de lubrificantes e um maior conhecimento sobre metalurgia no preparo de novas ligas, o projétil de chumbo pode se adaptar aos novos tempos. Na realidade, dificilmente o projétil de chumbo nu poderia se tornar obsoleto, considerando-se o seu menor custo e a facilidade de fabricação. Alias, essa é uma das principais diferenças entre esse dois tipos de projéteis: o custo unitário. O projétil encamisado é bem mais caro que o de chumbo, pois possui mais etapas na sua fabricação e envolver laminação de cobre e estamparia em prensas. Projéteis de chumbo podem ser feito por fundição ou prensagem, numa escala produtiva mais simples e barata. Porém, deve-se enfatizar que, na maioria dos casos, quando o projétil de chumbo estiver no máximo de sua utilização, será apenas o começo da faixa de operação do projétil encamisado.

 

Com essa breve introdução histórica, fica mais fácil visualizar a posição de cada tipo de projétil. O de chumbo, utilizado em quase 90% de todas as recargas, é tido como algo barato e polivalente. O projétil encamisado, mais caro e sofisticado é destinado a munições de alto desempenho ou armas mais exigentes. Projéteis encamisados também podem ser empregados na faixa operacional os projéteis de chumbo, ou seja, com velocidades menores que as consideradas de alto desempenho. Porém, nesta situação não estaríamos tirando o máximo proveito das vantagens que os encamisados apresentam quando propelidos a altas velocidades. Pela diferença de custo, seria o mesmo que "usar gasolina de aviação para fazer rodar um Fusca 67".

 

APLICAÇÕES

Existem estudos indicando que projéteis de chumbo sem proteção na sua base, com liga e lubrificação corretas, podem chegar ao limite de velocidade de 1300 pés por segundo para fuzis e 950 pés por segundo para Armas Curtas, sem perigo de chumbamento ou deformação do seu perfil. Tais números podem ser aumentados com o uso de "gas check", uma pequena “tampa” de cobre protegendo a base do projétil, que eleva o limite prático para 2000 pés/segundo em fuzis e 1300 pés/segundo em armas de cano curto. Notem que esses valores são empíricos, pois dependem de uma série de fatores, tais como liga do chumbo, calibre da munição e passo de raia da arma, por exemplo.

 

Um projétil encamisado tem melhores chances de êxito quando em uso em munição de alta potência, pois sem as limitações de velocidade e desenho  impostas ao projétil de liga de chumbo, pode ter seu desenho elaborado de maneira a obter melhor velocidade, aerodinâmica e expansão, sem perder a precisão. A fina camisa ou jaqueta de liga de cobre protege o núcleo de chumbo puro e o projétil pode ser acelerado a velocidades inaceitáveis para os projéteis de liga de chumbo. Mas há algumas considerações a serem feitas. Além do fator custo, que é maior nos projéteis encamisados, algumas combinações de munição só funcionam bem quando são empregadas projéteis de chumbo. É o caso das munições de Tiro de precisão, onde os projéteis tipo canto-vivo são acelerados à baixas velocidades e o que se busca é o máximo de precisão e não alto desempenho. Como o chumbo é mais maleável e veda melhor o interior do cano, mesmo em baixos níveis de pressão, este material é quase insubstituível quando se prepara munição para a prática do Tiro ao Alvo.

 

Quando for o momento de escolher qual projétil adquirir para a recarga de determinada munição, não se deve esquecer de que certas armas são muito seletivas no tipo de componente que usa. É o caso da pistolas semi-automáticas, onde a munição pode ser considerada parte do funcionamento da arma. Algumas pistolas não aceitam projéteis de chumbo nu, pois esse componente se deforma no momento da operação da arma, danificando seu perfil ou engasgando o funcionamento, além de deslizar mal no rápido raiamento do cano. Canos com perfil interno hexagonal, por exemplo, não aceitam projéteis de chumbo nu, e este praticamente atravessa o raiamento, chumbando o cano e destruindo a precisão da arma.

 

CONDIÇÕES DE USO

Na comparação entre os dois tipos de projéteis, mantidos os mesmos dentro de suas faixas ideais de velocidade, é difícil dizer qual é mais preciso. Todavia, se ultrapassarmos os limites operacionais dos projéteis de chumbo, ocorrerá o fenômeno de "chumbamento" do cano, quando sua superfície se derrete pelo atrito e se deposita no interior do cano. Essa ocorrência tem conseqüências desastrosas para a precisão e afeta o funcionamento correto da arma. No caso dos projéteis encamisados, o aumento da velocidade não implica em perda de precisão tão evidente, mas agrava (em termos) a erosão do cano e reduz sua vida útil. Além disso, um projétil encamisado também deixa material na alma do cano, só que neste caso, será depósitos de latão ou cobre, que deverá ser retirado com uso de solventes de limpeza especiais.

 

A dúvida mais comum no emprego de projéteis de chumbo é quanto a velocidade máxima em que se pode chegar sem comprometer a eficiência. A resposta é relativa, como escrito acima, pois irá depender de diversos fatores, tais como liga e lubrificante empregados, passo de raiamento da arma, pólvora utilizada e, obviamente, o fim a que se destina a munição. No caso de projéteis para Armas Longas, o desenho também influi sensivelmente no desempenho desejado.

 

Entendemos por eficiência de uma munição o melhor equilíbrio entre velocidade e precisão. A Balística terminal, ou seja, o que se produz num alvo atingido, é assunto para outro momento, pois tal desempenho depende quase exclusivamente do desenho do projétil. Mas o ideal é ter uma munição veloz aliada a uma boa precisão. É necessário lembrar que no caso dos projéteis de chumbo, a velocidade limite é fundamental para evitar o "chumbamento" do cano. Compete ao Atirador encontrar este equilíbrio ideal utilizando o método da tentativa e erro. Se os projéteis de chumbo nu tem limites máximos de velocidade de trabalho, os projéteis semi-encamisados têm um limite mínimo para operar, pois sua "camisa" sofre um atrito maior que o chumbo. Sendo utilizado em velocidades muito baixas, dependendo do tipo de construção interna desse projétil encamisado, poderá ocorrer separação entre a jaqueta e o núcleo de chumbo. Como exemplo, citamos os projéteis com 3/4 de "camisa" que não devem operar abaixo de 700 pés/segundo.

 

Para se chegar a uma munição que seja considerada ideal para certo tipo de arma, independente do uso de projéteis de chumbo ou encamisados, devemos estudar atentamente o que vamos chamar de "condições de funcionamento". Explicando melhor: condições de funcionamento englobam detalhes como diâmetro do projétil, comprimento do cano, tipo de pólvora empregada (balística interna), desenho correto para a velocidade obtida (balística externa), projétil adequado para o alvo e local atingido (balística terminal). O diâmetro do projétil é importante pois, se não ocorrer uma completa "moldagem" no cano da arma, os gases da queima da pólvora poderão vazar através do projétil prejudicando a precisão e a velocidade. A calibragem normal, tanto para projéteis de chumbo como para encamisados é de 0,001 milésimos de polegada acima do diâmetro entre fundos do cano. Mas se percebe que certas armas disparando projéteis de chumbo se dão melhor com projéteis 0,002 milésimos de polegada acima do seu diâmetro de cano. Só a experiência pode confirmar se determinado revólver ou pistola aceita essa pequena variação.

 

O comprimento do cano e tipo de pólvora utilizada são itens relacionados entre si. Quanto menor o comprimento do cano, menos o projétil sofrerá a aceleração da expansão dos gases da pólvora. Por isso, pólvoras de queima rápida devem ser usadas para acelerar mais eficientemente os projéteis em canos curtos. Por outro lado, quanto maior o comprimento do cano, tanto mais lenta deve ser a pólvora usada. Porém, canos longos aumentam o tempo de atrito com os projéteis. Nos projéteis encamisados isso não se torna um problema, mas os de chumbo podem sofrer derretimento de sua superfície e causar chumbamento do cano. Assim, cargas com projéteis de chumbo nu que são fortes e trabalham bem em armas curtas nem sempre se dão bem quando aceleradas dentro de um longo cano.

 

Já existem bons projéteis encamisados em nosso mercado, o que felizmente evidencia o grau de desenvolvimento que a recarga alcança no Brasil. E as várias empresas que trabalham com projéteis de chumbo nos deixam com bastante opções de escolha, tal a variedade de tipos e modelos. Basicamente, existem três tipos de projéteis à venda: fundidos, prensados em chumbo e prensados com "camisa". Os projéteis prensados são os que possuem maior regularidade dimensional e de peso; por não poderem ser fabricados com ligas muito duras, têm sua velocidade de utilização limitada. Os projéteis fundidos, pela maior possibilidade de variação no seu peso, exigem um controle de qualidade mais constante, mas como podem ser fabricados com ligas de alta dureza, permitem alcançar velocidades mais elevadas. Os projéteis encamisados são mais trabalhosos de serem produzidos e têm como ponto negativo apenas o seu custo mais elevado.

 

Tabela relativa de velocidades para projéteis para Armas Curtas

Projétil – tipo construtivo

Velocidade ideal de trabalho

Limite de velocidade inicial

Chumbo puro*

550 – 850 p/s

900 p/s

Liga de chumbo**

750 – 1000 p/s

1100 p/s

Chumbo com gas check

800 – 1100 p/s

1250 p/s

Chumbo endurecido

1000 – 1800 p/s

2000 p/s

Com recobrimento de Nylon

800 – 1000 p/s

1100 p/s

Encamisado

850 – 1300 p/s

1500 p/s***

* Chumbo com 5% de antimônio;

** Liga de 90% chumbo, 5% antimônio e 5% de estanho;

*** Velocidade em armas curtas.

 


Versão atualizada de artigo publicado originalmente na edição no 23 da Revista Magnum.