Home | Artigos | Notas & Novidades


    ARTIGOS

TAURUS ‘RAGING BULL’ .480 RUGER

por José Joaquim D'Andrea Mathias

 

“Um revólver extremamente robusto com um novo calibre de alta potência”

 

Devemos mesmo estar todos vivendo numa era de extremos. A cada dia que passa novos recordes são batidos e novas e poderosas máquinas ultrapassam limites antes tidos como intransponíveis. Focalizando apenas o nosso mercado de Armas & Munições, podemos observar uma espécie de “febre” por lançamentos de armas e munições cada vez mais poderosas. Parece que foi a pouco tempo que o limite natural e ponderado, em termos de potência e energia de recuo, era o bom e velho .44 Magnum, tido como o “rei” dos calibres para Armas Curtas, pelos seus excelente dotes balísticos. Atualmente, vemos diversos recém chegados destronando o “rei” por larga margem.

 

Calibres com altos níveis de energia, tais como o .50 Action Express, o .454 Casull e o monstruoso .500 Linebaugh, fazem supor que estamos próximos de atingir o limite físico que um ser humano consegue controlar em termos de Armas Curtas. Porém, calibres como o .454 Casull são para poucos, pois sua enorme energia de recuo exige que o atirador tenha boa constituição física e excelente conhecimento das técnicas de tiro. De outra maneira, um curioso que se aventure a fazer uso de um calibre do nível da potência de um Casull corre o risco de ver estampado na própria testa as marcas da alça de mira do seu revólver.

 

Analisando bem os mais recentes lançamentos em Armas & Munições para Armas Curtas, mais notadamente nos artigos destinados à Caça, podemos constatar que ocorre o mesmo fenômeno visto em relação a certos computadores. Assim que um novo processador mais rápido e mais poderoso é lançado, centenas de consumidores se sentem obrigados a adquirir aquele computador, mesmo que seja para produzir apenas textos no Word ou navegar na Internet. Em resumo, muito do que se vê no mercado é febre consumista e mesmo o “top de linha” é artigo para poucos. No entanto, estamos numa sociedade capitalista e inovar é algo imprescindível para se continuar à frente dos negócios.

 

Foi possivelmente pensando dessa forma que a conceituada indústria de armas Sturm & Ruger se uniu à Hornady Manufacturing Company na criação de um novo calibre para Armas Curtas que viesse cativar certa faixa de mercado, interessada em munições de alto desempenho. Concorrendo com fortes adversários no setor de Armas Curtas do mercado norte-americano, a Ruger vinha estudando um lançamento que desse destaque aos seus produtos, principalmente à sua linha de revólveres de chassis grande. Um primeiro ensaio nesse sentido foi o lançamento em 2000 do revólver Super Redhawk em .454 Casull, o qual era quase uma resposta ao lançamento do modelo Raging Bull da Taurus. Ao final de 2000, a Ruger fazia anunciar ao público norte-americano o seu novo calibre para o modelo Super Redhawk. O revólver e a munição .480 Ruger foram oficialmente apresentados no SHOT Show de 2001, ocasião em que a Taurus também anunciava o seu protótipo do Raging Bull com o novo calibre. Como o Leitor pode perceber, o mercado internacional de Armas & Munições é um campo extremamente competitivo e a Taurus mostrou ser muito ágil em termo de marketing para manter sua posição nesse mercado.

 

O protótipo anunciado pela Taurus no SHOT Show 2001 resultou no Raging Bull modelo 480 que ora apresentamos neste artigo. O .480 Ruger é um calibre quase desconhecido aqui no Brasil e pouquíssimos privilegiados poderão ter acesso a uma arma montada com essa munição. Mas a combinação arma/munição possui inúmeros atrativos, que até mesmo os menos apaixonados por calibres poderosos não deixarão de se interessar.

 

ENERGIA SOB CONTROLE

O calibre a ser o primeiro a levar o nome da Ruger é um esforço conjunto entre essa respeitada empresa norte-americana de armas e a Hornady, conhecida produtora de munições e componentes para recarga (veja artigo na Magnum no 74). O .480 Ruger pode ser sinteticamente descrito como um .475 Linebaugh, um famoso calibre “wildcat” de alto desempenho, com o estojo reduzido para o comprimento do .44 Magnum. O estojo do .480 Ruger, assim como o do .475 Linebaugh, é derivado do venerável 45-70, encurtado no seu comprimento e com um aro menor para poder ser melhor acomodado num tambor de revólver.

 

A Ruger e Hornady decidiram não só adotar o comprimento do .44 Magnum, mas também as pressões de câmara da categoria Magnum, pois assim o resultado seria uma munição mais controlável e menos desgastante para a estrutura do revólver. Embora não seja tão poderoso como outros calibres para armas Curtas, tais como o .454 Casull e o .475 Linebaugh, o .480 Ruger certamente tem suas qualidades balísticas, as quais serão bem aproveitadas pelos caçadores.

 

Com uma velocidade inicial de aproximadamente 1350 fps e um projétil de 325 grains, o .480 Ruger produz quase 50 % mais energia que o tradicional .44 Magnum e 2/3 da energia do .454 Casull, posicionando o novo calibre junto as munições mais poderosas para Armas Curtas à disposição do mercado internacional. Como o .480 Ruger trabalha com padrão de pressão de câmara tida como normal (45.000 CUPs), idênticas ao .44 Magnum, os estojos não são submetidos a um grande “stress”, possibilitando um bom número de recargas, mesmo em cargas máximas. Mas o grande destaque do novo calibre é o seu projétil de diâmetro .475” tipo XTP (Extreme Terminal Performance) desenvolvido pela Hornady. Com exceção do .50 Action Express, o .480 Ruger possui hoje o projétil com a maior área frontal existente no mercado. Isso se traduz num grande impacto no alvo, elevada massa para proporcionar penetração e diâmetro largo o suficiente para produzir considerável hemorragia na caça.

 

O lançamento do modelo Raging Bull M480 da Taurus não foi somente um lance de marketing agressivo por parte da empresa brasileira, mas foi também uma oportunidade de aproveitar um calibre de alta potência que se apresenta como uma opção viável para aquele consumidor que não tem condições de suportar, no sentido físico, uma arma em .454 Casull. O Raging Bull em .480 Ruger oferece, portanto, uma excelente alternativa para o caçador que deseje ter alto desempenho com um revólver de dupla ação, mas com controle de disparo.

 

Solicitamos às Forjas Taurus um exemplar do novo Raging Bull M480 para ser apresentado aos leitores de Magnum. Fomos prontamente atendidos e o revólver veio acompanhado de algumas caixas da munição original Hornady, algo de capital importância para o trabalho dos nossos testes, visto que a munição .480 Ruger é praticamente impossível de ser obtida no Brasil. O calibre é tão recente que não existem dies, estojos e projéteis a disposição para recarga, sendo a única opção o uso da excelente munição comercializada pela Hornady.

 

O exemplar enviado pela Taurus possuí idêntica constituição do modelo em .454 Casull testado na edição no 73 de Magnum, ou seja, acabamento de aço inoxidável polido, compensador incorporado e cano com comprimento de 8 e 3/8 polegadas. Aliás, os dois revólveres postos lado a lado são idênticos, somente sendo reconhecidos pelas inscrições indicando o calibre e o maior diâmetro da boca do cano e aberturas do tambor do exemplar em .480 Ruger.

 

DOMANDO O NOVO “TOURO”

Com arma, munição e equipamento em mãos marquei a seção de testes no estande de tiro do RAM Clube, o clube de Silhuetas Metálicas com excelentes instalações a margem da rodovia Castelo Branco, próximo a São Paulo. Como o estande do RAM Clube se destina ao emprego de armas de calibres pesados, nada seria destruído ou danificado ao testarmos o Taurus em .480 Ruger.

 

Realizada a primeira inspeção no exemplar enviado pela Taurus, ficou a impressão de que a empresa brasileira evolui cada vez mais na produção de armas com alto grau de acabamento e sofisticação. As partes do revólver são muito bem elaboradas, com ajustes finos e encaixes precisos. O “gap”, distância entre o cano e o tambor, apresentou uma separação de apenas .003”, uma das tolerâncias mais finas que já vi em revólveres comerciais, capaz de aproveitar o máximo dos gases da combustão da pólvora. O interior do cano mostrava um acabamento polido e bem definido, demonstrando cuidado de produção. No entanto, o “peso” do gatilho não estava muito satisfatório. Com uma “puxada” de mais de dois quilos em ação simples, o gatilho do M480 testado estaria mais adequado para uma arma de defesa. Embora isso não comprometa seriamente os disparos de precisão e não se deseje um acionamento de arma olímpica em situações de Caça, um pequeno ajuste para que o gatilho opere próximo de 1.500 gramas pode extrair melhores resultados do revólver. Mas vale dizer: a arma é nova, saída da caixa, e um amaciamento natural, fruto de repetidas operações de engate e desengate, vai ajustar esse "peso" de gatilho para algo mais agradável de acionamento.

 

Como tenho ainda viva na memória a experiência com o Raging Bull em .454 Casull, procurei disparar os primeiros tiros do M480 sem uso de luvas de tiro e sem suportes artificiais, como forma de sentir o comportamento geral do armamento. Fiz os primeiros ajustes de miras em alvos de papel dispostos a 50 metros de distância e não gastei mais que 5 ou 6 disparos para ajustar o ponto de impacto no centro do alvo. Confesso que gostei do recuo apresentado pelo Raging Bull em .480 Ruger. Forte e poderoso, o recuo foi plenamente controlado e absorvido pela bem desenhada empunhadura em Santoprene, a qual deixava passar uma sensação de recuo intensa, mas não desagradável na mão. Boa parte do controle do disparo foi fruto também do compensador incorporado ao cano, um dispositivo que deve funcionar com plena eficiência, visto a grande quantidade de gases produzidos pela munição .480 Ruger.

 

Mais confiante no controle do Raging Bull, fiz algumas séries de disparos em pé num alvo metálico disposto a 25 metros, conseguindo facilmente obter concentrações de menos de 1 ½ polegadas. Arrisquei até mesmo fazer rápidos disparos seqüenciais, visando explorar o controle ofertado pela empunhadura e pelo compensador do revólver. O resultado foi também excelente, com agrupamentos dentro de 2 ½ polegadas de dispersão.

 

Com o revólver devidamente apoiado numa mesa especial para “benchrest”, procurei explorar a precisão do M480 e o comportamento da sua munição na distância de 100 metros. Para tanto, fiz visada no alvo metálico suspenso com desenho de javali, destinado à prática de Silhuetas Metálicas. O resultado foi muito satisfatório, pois, descontando-se a queda do ponto de impacto, pela variação da distância, as concentrações foram quase idênticas às obtidas nos alvos dispostos a 50 metros. Fazendo uso somente das miras metálicas, consegui concentrações de 5 disparos dentro de 2 ½ polegadas de dispersão, algo muito louvável numa arma não destinada a tiros de precisão. Ao consultar os resultados de outros articulistas estrangeiros que experimentaram o .480 Ruger no revólver Super Redhawk, percebi que não foi obtido esse mesmo resultado em termos de precisão. Acredito que essa seja mais uma das qualidades do modelo da Taurus, o qual possui a vantagem de ser mais pesado, portanto mais estável, e recebe auxílio do compensador incorporado ao cano.

 

Um elemento que vem em auxílio das boas concentrações com o Raging Bull em .480 Ruger é o seu bom aparelho de pontaria. A Taurus decidiu provir a sua linha Raging Bull com uma alça de mira regulável e uma boa massa de mira tipo Patridge, a qual oferece uma bem definida imagem geométrica, fácil de ser enquadrada no alvo. Geralmente, os fabricantes de revólveres destinados à Caça instalam em suas armas massas de miras com insert vermelho. Embora este seja um estratagema que facilita encontrar a massa de mira quando em situações de baixa luminosidade, esse tipo de insert causa uma espécie de “miragem” no topo da mira, o que ocasiona erros de enquadramento. No caso da Taurus, o tipo de massa de mira adotado produz um enquadramento bem mais delineado e favorece a obtenção de boas concentrações no alvo.

 

Buscando resumir e descrever as minhas impressões do desempenho do Raging Bull em .480 Ruger, acho não ser exagerado afirmar que disparar o maciço revólver da Taurus é algo como disparar uma arma mediana com uma carga de “.44 Magnum +P”. O Taurus M480 causou-me boa impressão e acredito que seu comportamento pode ser mais bem explorado por meio da recarga de munição, quando novas combinações poderão ser desenvolvidas para dar maior flexibilidade ao conjunto.

 

COMPARANDO ARMAS E CALIBRES

Seria virtualmente difícil escapar da comparação do Raging Bull em .480 Ruger com o seu “irmão” predecessor, o Raging Bull em .454 Casull. Afinal, a primeira pergunta que todos fazem ao saber do novo modelo da Taurus é como ele se comporta em comparação ao revólver em .454 Casull. Para mim, essa comparação é muito fácil, pois não somente testei as duas versões do Raging Bull, como também os dois exemplares experimentados possuem idêntica constituição. Além disso, ambos revólveres foram avaliados com munição comercial, o que elimina um possível favorecimento no desempenho de um ou outro modelo.

 

Em termos de munições, comparar o .480 Ruger com outro calibre da classe Magnum, como o venerável .44 Magnum, por exemplo, não me parece ser algo de muita valia, visto o potencial e nível de energia do novo calibre. Os melhores padrões para comparativo balístico com o .480 Ruger serão encontrados na classe de munições representada pelo .454 Casull, dado o nível de energia e utilização específica a que se destina. E como se situa o .480 Ruger perante o .454 Casull? Em termos de energia final, é mais que óbvio a vantagem do potencial do .454 Casull. Contudo, esse potencial tem um custo em recuo e dores nas mãos. Uma série de 5 ou 10 disparos com um 454 Casull pode deixar uma sensação no mínimo desagradável ao atirador, enquanto 20 ou 30 disparos com um revólver em .480 Ruger pode ser plenamente absorvido por um atirador medianamente experiente. É importante frisar que armas em .480 Ruger ou .454 Casull não se destinam a longas séries de tiros, sendo indicadas apenas para a prática da Caça. No entanto, um caçador que tenha medo do recuo produzido por sua arma ou não saiba como ela irá se comportar no momento do disparo é um cidadão com graves problemas, principalmente se estiver frente a frente com um bicho furioso, por exemplo. Portanto, o controle do recuo e o menor desgaste do atirador são vantagens a serem consideradas. E essa vantagem, no meu entender, vai para o calibre .480 Ruger.

 

Observando o comportamento do Raging Bull .454 Casull em comparação com o mesmo modelo em .480 Ruger, a constatação do benefício no controle do recuo fica patente, pois mesmo depois de dezenas de disparos não senti o desgaste físico encontrado nas experiências com o .454 Casull. Embora relativamente preciso e controlável nos primeiros disparos, o Raging Bull em .454 Casull causa um “stress” na mão do atirador que força a dispersão dos disparos. Já o Raging Bull em .480 Ruger me deixou uma sólida sensação de confiabilidade, mesmo após 30 ou 40 tiros disparados.

 

Comparando-se o Raging Bull da Taurus com o Ruger Super Redhawk, ambos em .480 Ruger, acredito não ser exagero afirmar que existe uma certa vantagem para o modelo da Taurus. O Super Redhawk tem a facilidade de possuir ranhuras de engate para montagem de lunetas incorporadas ao chassi do revólver e uma câmara a mais no tambor. O Raging Bull possui tambor com 5 câmaras e requer um suporte adicional para a montagem de lunetas. No entanto, a vantagem do modelo da Taurus fica evidente quando se observa que o Raging Bull porta um compensador incorporado ao cano e um peso de estrutura maior que o modelo da Ruger, dois fatores que resultam num melhor controle da energia de recuo da munição .480 Ruger. Como não basta que a combinação arma/munição seja poderosa, tendo também que ser controlável, o Raging Bull se apresenta como uma plataforma mais estável para seguidas séries de tiro com menos desgaste para a arma e para o atirador.

 

A linha de modelos Raging Bull da Taurus, iniciada com o calibre .454 Casull, agora tem uma excelente opção na versão com a munição .480 Ruger. Com suas características construtivas, ótimo peso e balanço e excelente desempenho em campo, o Raging Bull M480 tem grandes chances de se destacar num segmento do mercado onde imperam somente “pesos pesados”.

 

Munição utilizada: Hornady Custom .480 Ruger projétil 325 grains XTP (Extreme Terminal Performance) MAG Hollow Point velocidade inicial 1350 fps

 

 

Ficha técnica

Nome da arma e modelo

Taurus “Raging Bull” Model .480 Ruger

Tipo

Revólver

Sistema de operação

Ação dupla

Calibre

.480 Ruger

Capacidade

5 tiros

Regime de fogo (s/n)

---

Peso vazia

1786,02 gramas

Peso municiada

1915,62gramas

Comprimento total

14” ( 34,53 cm)

Comprimento do cano

8 3/8” ( 21,27 cm)

Miras

Regulagem micrométrica

Empunhadura

Santoprene (borracha sintética)

Raias (numero e passo)

6 à direita

Velocidade inicial

1350 fps com munição comercial de 325 grains

Cadência de tiro (s/n)

---

Acabamento

Oxidado, Aço inoxidável ou marmorizado

Obs.: Possui versões com canos de 5, 6 1/2 e 8 3/8”. Todos os canos tem câmara compensadora no início do cano para controle do recuo.

 

Quadro estatístico de avaliação

Nome da arma e modelo

Taurus Raging Bull M 480 Ruger

Peso

10

Ergonomia da empunhadura

9

Distribuição total de peso

9

Enquadramento de miras

7

“Peso” do gatilho ação simples

9

“Peso” do gatilho ação dupla

8

Recuo

9

Precisão 50 metros

10

Precisão 100 metros 10

Sistema de segurança

10

Praticidade do “design”

9

Robustez

10

Acabamento

9

MÉDIA

9,23

*Valores: 1-3 ruim; 4-7 aceitável; 8-10 bom.

 

*Artigo originalmente publicado na Revista Magnum, Edição no 75, reapresentado no Zecamat à pedido.