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A Síndrome da gaveta

por José Joaquim D'Andrea Mathias


Muitos são aqueles que se sentem psicologicamente protegidos e reconfortados apenas com a simples posse de uma Arma e a guardam cuidadosamente em local de não muito fácil acesso, pois é sabido que “toda arma é perigosa”. Também é comum aquela pessoa que acondiciona a sua Arma de fogo numa gaveta e sua munição em outro local, para impedir a sua utilização imediata por crianças e pessoas não autorizadas. Para essas pessoas que adquirem uma Arma de fogo não procurando tomar maiores orientações sobre o seu correto emprego, criei um termo para melhor definição dessa situação: a “Síndrome da Gaveta”.


Para que o Leitor possa ver com maior clareza todas as implicações e conseqüências da “Síndrome da Gaveta”, vou fazer uso de uma metáfora que costumo empregar com alguma freqüência em conversas e palestras sobre o assunto: “As aventuras do senhor X”. Imaginemos o senhor “X” como um cidadão preocupado com a saúde de sua esposa. É crescente o medo de que sua frágil senhora sinta complicações físicas durante a noite e o senhor “X” não tenha a quem recorrer, nem mesmo um táxi, para conseguir chegar a um hospital a tempo. Ato contínuo, o senhor “X” (um pedestre convicto) decide comprar um carro e planeja com detalhes a sua estratégia para as eventuais emergências noturnas.


Efetuada a compra, o senhor “X” pede que a concessionária estacione o carro na sua garagem e passa a estudar com cuidado o manual de instruções do proprietário. Como o senhor “X” não sabe dirigir, ele decora a forma de ligar o carro e como se faz para engatar as marchas, ficando satisfeito com a certeza de que, em caso de emergência, irá conseguir chegar a um hospital, mesmo que leve o portão de sua casa, alguns postes, pedestres e árvores pelo caminho.


Finalmente, como era temido, a fatalidade acontece e o senhor “X” tem que levar a sua esposa às pressas para o hospital tarde da noite. Após ligar com dificuldade o carro, o nervoso senhor “X” levará um bom tempo (e partes da lataria) tentando sair de sua garagem, chegando por fim à rua. O resultado poderá ser o mais variado possível, com o nosso senhor “X” desistindo de tentar dirigir após a segunda esquina e pegando definitivamente uma carona ou um final trágico através de um violento acidente com outro carro. Tivesse o senhor "X" tomado aulas numa Auto Escola credenciada, obtido sua CNH e treinado constantemente, na temida emergência noturna ele sairia rapidamente de casa, sem outros perigos que não o de levar uma multa por avançar o sinal fechado.


Toda essa estória apresentada ao Leitor serve-me para descrever os perigos e responsabilidades em se adquirir uma Arma de fogo sem se dedicar a um adequado preparo e conhecimento de seu emprego. A “Síndrome da Gaveta” com certeza assola a maioria das pessoas que adquirem uma Arma de fogo, facilitam o seu uso desastroso e até mesmo serve de provisão para a bandidagem. O Cidadão não é de todo culpado do seu despreparo em tratar corretamente uma Arma de fogo. A posição da Sociedade brasileira é notoriamente contrária à posse de armamento. Tudo é feito para dificultar a posse de uma arma. Quem decide se defender, comprando uma arma, tem contra si o Governo, a Igreja, as ONGs, a família, etc., etc.. Ocorre também que o Cidadão não encontra com facilidade quem possa com seriedade e competência lhe orientar em bem empregar uma Arma de fogo.


Com a consciência de que é importante se escorar em especialistas para obter a devida orientação, o passo inicial para o Cidadão de bem é encontrar um bom Curso de Tiro, reconhecido no mercado e com as devidas credenciais, para tomar as primeiras orientações. O mais interessante nessa procura por bons Cursos de Tiro é que os mais preparados e sérios, salvo honrosas exceções, são ministrados por praticantes de Tiro esportivo e não por elementos oriundos da Policia ou Exército. Isso talvez seja explicado pelo fato de que o Estado também não é eficiente em preparar aquele servidor que trabalha na “linha de frente” do combate contra a criminalidade. Com falta de recursos, armas obsoletas e técnicas atrasadas, o Estado, em geral, prepara mal a maioria de seus policiais, deixando-os em desvantagem perante bandidos sempre bem aparelhados. Há, porém, as exceções, pois muitos policiais partem para adquirir eles mesmos os conhecimentos para estarem preparados para o correto manuseio de suas armas e as técnicas mais atuais de combate urbano. Mas são exceções, como os noticiários costumam nos mostrar.


Com os desportistas, o trato das Armas de fogo ocorre de maneira diferente. Um Atirador praticante geralmente tem a iniciativa em procurar novas informações, ter seu armamento atualizado e praticar treino constante, de forma a transformar suas armas em ferramenta útil e confiável. Por isso é que afirmo que o Tiro esportivo é uma porta de entrada válida para o correto aprendizado de manuseio e segurança e uma maneira saudável de emprego das Armas de fogo.
 

A aquisição de uma arma e sua simples guarda em uma gaveta, longe de se constituir em elemento de defesa, pode significar uma fonte de perigo quando seu emprego for realmente necessário. Quantas centenas de acidentes com armas seriam evitados se o proprietário tivesse treinamento e conhecimento no manuseio e segurança? Quantas situações de risco real seriam evitadas se o usuário de uma arma soubesse o momento e a forma correta de repelir uma agressão? A posse de uma Arma de fogo pode significar uma chance de auto-defesa, mas traz também uma grande responsabilidade ao seu proprietário e risco se ele não procurar aprender como manuseá-la. Se não houver essa consciência, é melhor continuar um pedestre convicto como o senhor "X".

 

Este texto faz parte de uma trilogia junto com "A Síndrome do Super Homem" e "A Síndrome do Homem Cordeiro"